FÁBIO TRUMMER e seus comparsas da banda Eddie continua o diálogo do regional com o universal proposto pelo mangue-bit/FOTO DIVULGAÇÃO/ GILVAN BARRETO
FÁBIO TRUMMER e seus comparsas da banda Eddie continua o diálogo do regional com o universal proposto pelo mangue-bit/FOTO DIVULGAÇÃO/ GILVAN BARRETO
MANGUE-BIT
Olinda falando para o mundo
Representante da primeira geração do mangue-bit, a banda pernambucana Eddie retorna a Fortaleza para o show de lançamento de seu terceiro CD, Metropolitano, como atração especial da Farra da Casa Alheia de hoje, no Buoni Amici´s Sport Bar. Formada em Olinda, a banda liderada por Fábio Trummer acaba de chegar de turnê pela Europa

Luciano Almeida Filho
da Redação

25/08/2006 01:50

Chico Science e Fred Zero Quatro foram os faróis do movimento mangue-bit. Em torno das idéias jogadas pelo fluxo intermitente dessas duas figuras exponenciais, uma garotada que tinha sua banda foi aglutinada em torno deles. Entre eles estavam Renato S, Fábio Trummer, Stella Campos, Hélder Aragão, Xico Sá, Paulo Caldas, Lírio Ferreira... cada um seguiu seu caminho seja na música, no jornalismo, no design, no cinema. Por isso mesmo, o mangue-bit nunca foi um modismo, uma onda, um estilo fácil de enquadrar. Cada vez mais, se confirma como uma ideologia. Fábio Trummer já tinha sua banda desde 1989, o Eddie, quando o manifesto do mangue-bit foi lançado. Desde então o grupo se posicionou a linha de frente, pegando suas influências de rock alternativo dos primórdios e promovendo um diálogo com a cultura dos bairros de Olinda e da periferia de Recife, temperada pela música popular brasileira.

O Eddie vai construindo uma personalidade que é meio mutante. A cada nova formação, a banda encarna novas nuances e as mudanças vão produzindo filhotes, como é o caso do Bonsucesso Samba Clube que Roger Man formou depois de deixar o Eddie. Fabinho também ainda encontrou tempo para colaborar com DJ Dolores em seus projetos. Recentemente, o Eddie lançou seu terceiro CD, Metropolitano, que consolida a formação com Alexandre Ureia (percussão), André Oliveira (teclados, trumpete e sample), Kiko Meira (bateria) e Rob Meira (baixo). Com este formato e trazendo os CDs na bagagem, Fabinho e sua turma voltam a Fortaleza para única apresentação hoje na festa Farra na Casa Alheia, no Buoni Amici´s Sport Bar (ali no calçadão do Centro Dragão do Mar), a partir das 23 horas.

Nacionalmente, a principal referência do Eddie é o hit Quando A Maré Encher, música de seu CD de estréia, que virou sucesso nas regravações de Nação Zumbi e Cássia Eller. Trummer e seus asseclas a regravaram para este novo CD, adaptando ao estilo do novo CD. Mas o disco traz petiscos bem mais interessantes como a própria faixa-título, Metropolitano, a excelente releitura de Lealdade, samba de Wilson Baptista, e a bela participação de Erasto Vasconcelos (o percussionista coringa do Eddie e irmão de Naná Vasconcelos) em Danada e sua composição Maranguape - o bairro local e não a cidade cearense terra natal de Chico Anysio. Por e-mail, Trummer respondeu à reportagem de O POVO sobre o Eddie, o mangue-bit, a cena recifense atual e sua relação com a mídia.

O POVO - Podemos caracterizar o Eddie como um ser mutante, uma banda que a cada nova formação traz uma característica própria distinta?
Fábio Trummer - Acho que sim, nossa ideia é que a musica é um organismo mutante, que acompanha os acontecimentos sociais, culturais, politicos e etc, ou até mesmo antecipa estes acontecimentos. É isto que buscamos com nosso trabalho, encontrar saídas para transformar a música em algo novo, sempre. Esta é nossa gasolina, nossa utopía.

OP - O CD Metropolitano é base do show que vocês fazem hoje em Fortaleza?
Fábio - Estamos tocando músicas dos dois últimos trabalhos igualmente, o Original Olinda Style e o Metropolitano, além de tocar o Sonic Mambo, nosso primeiro trabalho, quando temos que fazer um show maior. Também tocamos coisas que gravamos em coletâneas de tributo como Luiz Gonzaga e Jackison do Pandeiro.

OP - Como está a cena de Recife e Olinda hoje? Há espaço para bandas novas? Ou a saída para divulgação é a internet?
Fábio - A cena pernambucana está numas das suas melhores fases, uma nova geração surgiu e está trabalhando de maneira certa, com os pés no chão, sem a ilusão romântica de ser pop star e tal. As bandas mais experientes estão com trabalhos mais coesos e colhendo o trabalho de vários anos, houve um amadurecimento das estruturas que o mercado musical precisa para se desemvolver e se tornar auto-sustentável, o público melhorou e se acostumou com a cena local e hoje enche as apresentações das bandas da cidade e até de outras praças, enfim, estamos num processo continuo de desenvolvimento o que está formentando e ampliando o movimento musical no estado, e uma das causas é, sem dúvidas, a internet e as mudanças que ela proporcionou para as relações humanas.

OP - Paulo André Pires (produtor pernambucano) declarou em Fortaleza que as bandas da cena cearense “não queiram ser a nova Recife”, porque o Recife não tem casas próprias para bandas novas e o movimento mangue foi tratado como um modismo pela mídia, que declarou seu fim com a morte de Chico Science. Como você vê isso?
Fábio - Concordo com isto, nunca houve em lugar nenhum casas para bandas novas. As bandas novas criam seus espaços, inventam uma cena. Foi assim com o mangue bit, a mídia transformou o mangue numa moda sim, um rótulo que tanto ajudou como atrapalhou a vida de muita gente por aqui, como se a cidade só tivessse bandas nos moldes de Chico Science, limitando a visão da verdadeira cena local que é determinada pela diversidade, o que fez o mangue bit, foram pessoas dispostas a viver de música para o resto da vida, e isto continua até hoje, o movimento mangue foi o surgimento de um mercado musical na cidade do Recife e, de certa forma, no Brasil, e isto não acabou com a morte de Chico. Ao contrário se intenssificou. A midia raramente teve o olhar correto para identificar uma cena musical que não estivesse apadrinhada por uma gravadora, ou por algum formador de opinião do eixo Rio-São Paulo, que por sua vez presta atenção no que está acontecendo em Londres ou Nova York. Recife ou Fortaleza são muito diferentes destas cidades e não tem vocação para imitar ninguém, já se basta, desta forma a cena musical está presente cada dia mais forte no cotidiano da cidade e transformando o lugar com seu próprio life style, nordestino, brazuca, é isto que me interessa.

OP - Qual a personalidade que une todas estas formações da banda nestes 17 anos de trajetória?
Fábio - Eu, sou o único remanescente da primeira formação. Fui eu quem "inventou" a Eddie e que faço o gerenciamento, digamos assim, do grupo todos estes anos.

OP - Como você vê o tratamento que a grande mídia dá ao movimento mangue-bit?
Fábio - Olha... pra te ser sincero, deixei de prestar atenção à midia faz um tempo. Acho que a midia de maneira geral trata do mercado da música e não da música em si. Uma banda como o Eddie, que nunca dependeu da midia para sobreviver, sempre esteve à margem pois nunca esteve dentro do formato que a mídia trabalha, e não faz parte de gravadoras e deste mundo sórdido dos grupos que fazem a informação de massa no nosso País. O movimento mangue-bit teve uma atenção da mídia, mas nunca se encaixou nos moldes dos produtos comerciais. Desta forma temos sim uma atenção do público que gosta de música e não das pessoas que escutam as tendências que as rádios e TVs empurram para os ouvintes sem idéia formada na cabeça.

OP - No novo CD, vocês voltam a gravar Quando a Maré Encher. Por que regravá-la?
Fábio - É uma musica que se tornou conhecida do grande publico, pelas regravações de Cássia Eller e da Nação Zumbi. Achei que seria um gancho forte para atrair a atenção das pessoas.

OP - Além do Eddie, você trabalhou com DJ Dolores. Até que ponto um trabalho contamina o outro?
Fábio - Não trabalho mais com o Dolores na Santa Massa, porém fazemos trabalhos de vez em quando, um músico no Brasil não viveria de música só com o trabalho de uma banda como o Eddie, além de que o Eddie tem um formato definido por seus integrantes, que determinam a música da banda. Tocar com outras pessoas é um exercicio bom para ampliar a criatividade e reforçar o caixa no fim do mês. Trabalho com várias pessoas, trilhas para filmes, teatro, dança... Toco e produzo outras pessoas, como Erasto Vasconcelos e Mula Manca e a Triste Figura, e assim vou desenvolvendo minha música e a música que faço no Eddie.


SERVIÇO
Metropolitano - Show do quinteto pernambucano Eddie em edição especial da Farra na Casa Alheia com DJs Guga de Castro e Marquinhos. Hoje no Buoni Amici´s Sport Bar (Rua Dragão do Mar, 80 - calçadão do Centro Dragão do Mar), a partir das 22 horas. Preços: R$ 10,00 (até 0h) e R$ 12,00 (depois de 0h). Informações: 3219.5454.

 

 

 

 

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