Vida & Arte
MANGUE-BIT
Olinda falando para o mundo
Representante da primeira geração do mangue-bit, a banda pernambucana Eddie retorna a Fortaleza para o show de lançamento de seu terceiro CD, Metropolitano, como atração especial da Farra da Casa Alheia de hoje, no Buoni Amici´s Sport Bar. Formada em Olinda, a banda liderada por Fábio Trummer acaba de chegar de turnê pela Europa
Luciano Almeida Filho
da Redação
25 Ago 2006 - 01h50min
O Eddie vai construindo uma personalidade que é meio mutante. A cada nova formação, a banda encarna novas nuances e as mudanças vão produzindo filhotes, como é o caso do Bonsucesso Samba Clube que Roger Man formou depois de deixar o Eddie. Fabinho também ainda encontrou tempo para colaborar com DJ Dolores em seus projetos. Recentemente, o Eddie lançou seu terceiro CD, Metropolitano, que consolida a formação com Alexandre Ureia (percussão), André Oliveira (teclados, trumpete e sample), Kiko Meira (bateria) e Rob Meira (baixo). Com este formato e trazendo os CDs na bagagem, Fabinho e sua turma voltam a Fortaleza para única apresentação hoje na festa Farra na Casa Alheia, no Buoni Amici´s Sport Bar (ali no calçadão do Centro Dragão do Mar), a partir das 23 horas.
Nacionalmente, a principal referência do Eddie é o hit Quando A Maré Encher, música de seu CD de estréia, que virou sucesso nas regravações de Nação Zumbi e Cássia Eller. Trummer e seus asseclas a regravaram para este novo CD, adaptando ao estilo do novo CD. Mas o disco traz petiscos bem mais interessantes como a própria faixa-título, Metropolitano, a excelente releitura de Lealdade, samba de Wilson Baptista, e a bela participação de Erasto Vasconcelos (o percussionista coringa do Eddie e irmão de Naná Vasconcelos) em Danada e sua composição Maranguape - o bairro local e não a cidade cearense terra natal de Chico Anysio. Por e-mail, Trummer respondeu à reportagem de O POVO sobre o Eddie, o mangue-bit, a cena recifense atual e sua relação com a mídia.
O POVO - Podemos caracterizar o Eddie como um ser mutante, uma banda que a cada nova formação traz uma característica própria distinta?
Fábio Trummer - Acho que sim, nossa ideia é que a musica é um organismo mutante, que acompanha os acontecimentos sociais, culturais, politicos e etc, ou até mesmo antecipa estes acontecimentos. É isto que buscamos com nosso trabalho, encontrar saídas para transformar a música em algo novo, sempre. Esta é nossa gasolina, nossa utopía.
OP - O CD Metropolitano é base do show que vocês fazem hoje em Fortaleza?
Fábio - Estamos tocando músicas dos dois últimos trabalhos igualmente, o Original Olinda Style e o Metropolitano, além de tocar o Sonic Mambo, nosso primeiro trabalho, quando temos que fazer um show maior. Também tocamos coisas que gravamos em coletâneas de tributo como Luiz Gonzaga e Jackison do Pandeiro.
OP - Como está a cena de Recife e Olinda hoje? Há espaço para bandas novas? Ou a saída para divulgação é a internet?
Fábio - A cena pernambucana está numas das suas melhores fases, uma nova geração surgiu e está trabalhando de maneira certa, com os pés no chão, sem a ilusão romântica de ser pop star e tal. As bandas mais experientes estão com trabalhos mais coesos e colhendo o trabalho de vários anos, houve um amadurecimento das estruturas que o mercado musical precisa para se desemvolver e se tornar auto-sustentável, o público melhorou e se acostumou com a cena local e hoje enche as apresentações das bandas da cidade e até de outras praças, enfim, estamos num processo continuo de desenvolvimento o que está formentando e ampliando o movimento musical no estado, e uma das causas é, sem dúvidas, a internet e as mudanças que ela proporcionou para as relações humanas.
OP - Paulo André Pires (produtor pernambucano) declarou em Fortaleza que as bandas da cena cearense “não queiram ser a nova Recife”, porque o Recife não tem casas próprias para bandas novas e o movimento mangue foi tratado como um modismo pela mídia, que declarou seu fim com a morte de Chico Science. Como você vê isso?
Fábio - Concordo com isto, nunca houve em lugar nenhum casas para bandas novas. As bandas novas criam seus espaços, inventam uma cena. Foi assim com o mangue bit, a mídia transformou o mangue numa moda sim, um rótulo que tanto ajudou como atrapalhou a vida de muita gente por aqui, como se a cidade só tivessse bandas nos moldes de Chico Science, limitando a visão da verdadeira cena local que é determinada pela diversidade, o que fez o mangue bit, foram pessoas dispostas a viver de música para o resto da vida, e isto continua até hoje, o movimento mangue foi o surgimento de um mercado musical na cidade do Recife e, de certa forma, no Brasil, e isto não acabou com a morte de Chico. Ao contrário se intenssificou. A midia raramente teve o olhar correto para identificar uma cena musical que não estivesse apadrinhada por uma gravadora, ou por algum formador de opinião do eixo Rio-São Paulo, que por sua vez presta atenção no que está acontecendo em Londres ou Nova York. Recife ou Fortaleza são muito diferentes destas cidades e não tem vocação para imitar ninguém, já se basta, desta forma a cena musical está presente cada dia mais forte no cotidiano da cidade e transformando o lugar com seu próprio life style, nordestino, brazuca, é isto que me interessa.
OP - Qual a personalidade que une todas estas formações da banda nestes 17 anos de trajetória?
Fábio - Eu, sou o único remanescente da primeira formação. Fui eu quem "inventou" a Eddie e que faço o gerenciamento, digamos assim, do grupo todos estes anos.
OP - Como você vê o tratamento que a grande mídia dá ao movimento mangue-bit?
Fábio - Olha... pra te ser sincero, deixei de prestar atenção à midia faz um tempo. Acho que a midia de maneira geral trata do mercado da música e não da música em si. Uma banda como o Eddie, que nunca dependeu da midia para sobreviver, sempre esteve à margem pois nunca esteve dentro do formato que a mídia trabalha, e não faz parte de gravadoras e deste mundo sórdido dos grupos que fazem a informação de massa no nosso País. O movimento mangue-bit teve uma atenção da mídia, mas nunca se encaixou nos moldes dos produtos comerciais. Desta forma temos sim uma atenção do público que gosta de música e não das pessoas que escutam as tendências que as rádios e TVs empurram para os ouvintes sem idéia formada na cabeça.
OP - No novo CD, vocês voltam a gravar Quando a Maré Encher. Por que regravá-la?
Fábio - É uma musica que se tornou conhecida do grande publico, pelas regravações de Cássia Eller e da Nação Zumbi. Achei que seria um gancho forte para atrair a atenção das pessoas.
OP - Além do Eddie, você trabalhou com DJ Dolores. Até que ponto um trabalho contamina o outro?
Fábio - Não trabalho mais com o Dolores na Santa Massa, porém fazemos trabalhos de vez em quando, um músico no Brasil não viveria de música só com o trabalho de uma banda como o Eddie, além de que o Eddie tem um formato definido por seus integrantes, que determinam a música da banda. Tocar com outras pessoas é um exercicio bom para ampliar a criatividade e reforçar o caixa no fim do mês. Trabalho com várias pessoas, trilhas para filmes, teatro, dança... Toco e produzo outras pessoas, como Erasto Vasconcelos e Mula Manca e a Triste Figura, e assim vou desenvolvendo minha música e a música que faço no Eddie.
SERVIÇO
Metropolitano - Show do quinteto pernambucano Eddie em edição especial da Farra na Casa Alheia com DJs Guga de Castro e Marquinhos. Hoje no Buoni Amici´s Sport Bar (Rua Dragão do Mar, 80 - calçadão do Centro Dragão do Mar), a partir das 22 horas. Preços: R$ 10,00 (até 0h) e R$ 12,00 (depois de 0h). Informações: 3219.5454.
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