o filme Paradise Now, do israelense Hany Abu-Assad, é um bom exemplo da necessidade de paz entre os povos do Oriente Médio (Imagem do filme Paradise Now)
o filme Paradise Now, do israelense Hany Abu-Assad, é um bom exemplo da necessidade de paz entre os povos do Oriente Médio (Imagem do filme Paradise Now)
ARTIGO
A língua árabe e a paz no Oriente Médio
Doutor em Filosofia e História da Educação pela Universidade de São Paulo (USP), Jean Lauand, parte dos múltiplos sentidos da palavra "Salam" (ou sua equivalente hebraica "Shalom") para refletir sobre a língua árabe e a paz no Oriente Médio

Jean Lauand
Especial para O POVO

12/08/2006 17:30

Minha pátria é a língua, já dizia Fernando Pessoa. Ao analisar a cultura e a mentalidade de um povo, a língua é um fator importante, na medida em que condiciona o pensamento, a possibilidade de acesso à realidade.

Uma dessas formas de acesso ao real é o pensamento confundente, que concentra numa única palavra realidades distintas, mas conexas. Se as línguas ocidentais parecem tender mais para a distinção, a língua árabe convida ao pensamento confundente.

Consideremos, por exemplo, a palavra árabe Salam (ou sua equivalente hebraica: Shalom), usualmente traduzidas por Paz. Ou melhor, se quisermos ser fiéis à semântica semítica, consideremos não a palavra, mas o radical tri-consonantal (que é alma da língua semita, o radical determina essencialmente o campo de significado; as vogais só fazem a determinação periférica de sentido) S-L-M, ou em hebraico Sh- L-M.

Paz é somente um dos múltiplos significados confundidos em S-L-M.

S-L-M significa, por exemplo, unidade, integridade física ou moral: quando eu quebro um giz, sofro um ferimento, estabeleço uma separação ou produzo uma peça com defeito estou rompendo a S-L-M. Daí que o nome SaLyM, tão freqüente entre os árabes, signifique "o íntegro", o que não se corrompe... Naturalmente, ninguém no Ocidente entenderia se se dissesse de um giz quebrado que ele perdeu "sua paz". É por isso que, fora desse contexto confundente semita, é extremamente enigmática a formulação do apóstolo Paulo, que, escrevendo em grego (mas pensando com sua cabeça semita) diz que "Cristo é nossa paz..." (Autos gar estin he eirene hemon... Ef. 2, 14). E quando um ocidental examina a razão pela qual Paulo afirma que Cristo é "nossa paz", aí a perplexidade torna-se total: "Cristo é nossa paz porque Ele quebrou o muro e de dois fez um". O que, para um semita, é totalmente natural.

Confundindo os conceitos de paz, saúde (física ou espiritual) etc. é natural que a saudação mais comum no mundo árabe (para encontro ou despedida) seja precisamente Salam! S-L-M indica também aceitação (de boa ou má vontade), daí que a atitude religiosa de acolhimento da vontade de Deus seja iSLaM.

A mesma palavra S-L-M significa, além de paz, integridade territorial. Assim, de Salomão (SaLuMun ou SuLaiMan), Deus diz a seu pai Davi (um homem de guerras), em atenção ao nome de Salomão: "Este teu filho será um homem de shalom, pois Salomão é o seu nome" (1 Crn 22,9). E Deus, apesar da infidelidade do rei, mantém a "integridade", a "totalidade" do reino de Salumun e diz: "Não tirarei da mão de Salumun parte alguma do reino..." (I Reis 11,34).

Em outras palavras, tanto para o árabe quanto para o judeu, a integridade territorial e a paz são pensadas confundentemente como uma única realidade: se faltar um milímetro quadrado do que se considera ser seu território, não há paz. Por contraste, imaginemos que o Rio Grande do Sul pretenda separar-se do Brasil e constituir uma "República Farroupilha". E que tal proposição seja referendada amplamente por um plebiscito, no qual os demais estados da União concordassem, de boa vontade, com essa separação. Nesse caso, nenhum de nós diria que houve uma quebra de paz (pelo contrário, promover-se-iam até churrascos "binacionais" de confraternização...). Já para um árabe ou um israelense, para quem paz contém, "confunde" muito mais que "não-guerra", é inconcebível uma subtração de território que não fosse quebra de "paz". É o que diz um árabe que passou muitos anos no Brasil antes de retornar para o Líbano numa entrevista a O Estado de S. Paulo (20-10-93, A 11):"Paz - Ouvindo o jorro de esperança, o comerciante 'batrício' Abdul Razak Masjzoub interrompe, nervoso: 'Tem obstáculo muito grande para a paz. (...) Paz que estão fazendo não justa: cadê Jerusalém? Cadê o sul do Líbano? Para dar certo, o paz tem que ser geral. Devolver tudo ocupado. Isto se chama paz.'"

Realidades semânticas, que se projetam em sangrentos conflitos...

Jean Lauand é doutor em Filosofia e História da Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professor titular da USP, com linha de pesquisa em cultura árabe.


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