QUEM Somos Nós?, em cartaz no cinema de arte na mostra sobre Cinema e Filosofia: “filme maçante”/FOTO DIVULGAÇÃO
QUEM Somos Nós?, em cartaz no cinema de arte na mostra sobre Cinema e Filosofia: “filme maçante”/FOTO DIVULGAÇÃO
CRÍTICA
Mistificações Quânticas
Tarcisio Pequeno
Especial para O POVO

12/05/2006 00:23

Está em cartaz em Fortaleza, há duas semanas, o filme Quem somos nós? (What the bleep do we know? no original), tendo atraído grande interesse e lotado as sessões em que foi exibido. Trata-se de um filme de auto-ajuda, defina-se já, com os ingredientes usuais dos manuais do gênero e sua invariável mensagem: o pensamento é todo poderoso e através do seu bom uso, que os manuais frequentemente descrevem mas raramente fornecem um método efetivo de obter, sua miserável e medíocre existência individual se transformará no mais bem-aventurado e criativo nirvana. Até aí morreu Neves. Tais manuais, afinal, encabeçam as listas de "mais vendidos" e repletam as estantes mais visíveis de todas as livrarias. The bleep, porém, não se restringe, apenas, à repetição da mesmice, o que faria dele um a mais em mercado já saturado. Ele traz ingredientes novos. Seus conselhos existenciais não são fundamentados em psicologias de boteco ou espiritualidades baratas, mas, seguindo o receituário cientificista "new age", na mais avançada ciência.

Teoria da relatividade, mecânica quântica, teoria do caos, teorema de Gödel, as maravilhas da ciência informática e outras cientificidades que tais são alusões recorrentes em um tipo de literatura que pretende atrair o leitor com o que há de mais avançado, profundo e misterioso no conhecimento contemporâneo (exemplos de tal literatura podem ser encontrados no livro dos físicos Alan Sokal e Jean Bricmont "Imposturas Intelectuais"). A mera menção dessas teorias confere uma aura de sofisticação e autoridade a qualquer escrito, além de dar prova da erudição e sapiência do autor. Dado o desconhecimento geral de tais matérias, que de fato requerem grande investimento intelectual para o seu domínio, se prestam elas a todo tipo de distorção e mistificação, de forma a suportar as teses mais absurdas que o autor deseje, conferindo-lhes "base científica".

Uma das formas de mistificação mais eficiente, e danosa, consiste em estender teorias e resultados científicos, ainda que corretos, a domínios e situações diferentes daqueles para os quais foram estabelecidos. Isto é precisamente o que faz o filme ao longo das suas duas maçantes horas. A mecânica quântica é uma teoria do muito pequeno, do muitíssimo pequeno, do inimaginavelmente pequeno. A sua teoria nos revela que em tais dimensões o mundo, o chamado microcosmo, tem um comportamento extravagante e estranho diante de nossa intuição, construída no mundo de dimensões antrópicas onde vivemos. O fato de tal comportamento ser estranho não é, em si, estranho, uma vez que estranho seria se em condições tão diversas viéssemos a encontrar relações da mesma natureza das que prevalecem no mundo macro. Por outro lado, por mais inadequado que isso possa ser, e de fato seja, estamos condenados a remeter qualquer teoria do microcosmo aos termos e conceitos que fazem sentido à nossa intuição, pois o papel de uma teoria é produzir uma explicação e essa explicação terá que, afinal, ser vertida em termos que nos fazem sentido.

Os antropólogos, já há algum tempo, entendem que para que a lógica das práticas de uma cultura primitiva, como a feitiçaria e a magia, possa ser devidamente compreendida e apreciada é preciso que se adote o modo de vida dessa sociedade. Caso contrário, o que se produzirá, mesmo em trabalhos de extraordinário valor como o "The Golden Bough", de James Frazier, são relatos eurocêntricos que desentendem os costumes nativos, ao submetê-las à lógica ocidental (tal fato é duramente criticado por Wittgenstein em uma breve apreciação sobre o trabalho de Frazier). Não podemos adotar o estilo de vida das partículas elementares. Portando, devemos nos contentar com um relato antropocêntrico do seu comportamento, e ele sempre parecerá bizarro à nossa lógica.

Isso é um predicamento inevitável da microfísica. Agora, exportar o comportamento bizarro de partículas elementares ao nosso mundo e nossas dimensões, a pessoas e bolas de basquete, aí já é má fé, ou ignorância ou pura sacanagem mesmo. Um dos efeitos explorados no filme, por exemplo, é o da dualidade. No mundo quântico, se preparamos um experimento para observar o comportamento corpuscular da luz, ela assim se comporta. Se nos preparamos para observar seu comportamento ondulatório, isso teremos. Portanto, conclui o filme em sua mensagem central, repetida e re-ilustrada ad nauseam, você, tem o poder de modificar a realidade, e mesmo de "fazer" a realidade, conforme sua postura como observador.

Isso simplesmente não acontece! Ter uma atitude positiva perante a vida, uma disposição menos condicionada e mais criativa, estar mais aberto às possibilidades, parecem coisas boas, mas nada têm a ver com mecânica quântica e nenhum mecanismo quântico interfere e jamais interferirá nos efeitos de tais ações. O apelo à mecânica quântica é inteiramente impertinente, irrelevante e, todavia mais grave, enganador. Por que então fazê-lo? Porque senão, seria apenas mais um manual de auto-ajuda e você, caro leitor, confesse, não lhe teria dado a menor bola.

Tarcisio Pequeno é Professor do Doutorado em Ciência da Computação e do Mestrado em Filosofia da Universidade Federal do Ceará.


SERVIÇO
QUEM SOMOS NÓS? (What the bleep do we know?, EUA, 2005) De Betsy Chasse, Mark Vicente e William Arntz. Com Marlee Matlin, Barry Newman, Elaine Hendrix, Robert Bailey Jr. e 11 cientistas em depoimentos. 108min. Cartaz da Mostra A Filosofia no Cinema no Cinema de Arte e Faixa Nobre no ok Multiplex Iguatemi 9, às 10h45 (sábado) e 19h30 (Faixa Nobre - de segunda a quinta) e 21h30 (sexta). 14 anos.
Veja trailler do filme no site cinemadearte.com.br
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