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MÚSICA

Interior cearense participa de um ¿túnel do tempo musical¿

Márcia Vaisman
Enviada a Araripe

24 Abr 2006 - 02h36min

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KRISTINA Augustin: mestre gambista tocou sonatas de grandes músicos (Foto: Cícero Valério)
A igreja da matriz de Santo Antônio, na praça central de Araripe, a 564 quilômetros de Fortaleza, repleta de pessoas das mais diversas classes e culturas sociais. Era mais uma noite de apresentações da I Mostra Brasileira de Música Antiga, que ocorreu entre os dias 19 e 22 deste mês.

Na platéia, silêncio quase absoluto enquanto a mestre gambista Kristina Augustin transportava os presentes para os idos de 1600. À meia-luz e com os dedos firmes na gamba, tocou sonatas de grandes músicos como Carl Friedrich Abel (1723 a 1787) e Johan Sebastian Bach (1685 a 1750). Atrás, slides projetados mostravam os retratos dos músicos homenageados e de pinturas de época.

Entre os presentes, pessoas que nunca estiveram em uma apresentação musical. Rostos marcados pelo tempo; alguns com a melhor roupa; outros, com camisetas poídas. Todos, com os olhos atentos às mãos habilidosas de Kristina, que apresentou obras raras, algumas inéditas no país, que exploram a expressividade da viola de gamba. O espetáculo Arco Antigo é um passeio pelo repertório da nobreza do século XVII.

Uma pequena pausa e, em seguida, dois músicos adentram o corredor da igreja entoando gaitas de fole. Começava ali a apresentação do conjunto carioca Atempo, que faz antologia de cantos da Idade Média Latina dos séculos XIII a XV. É um convite à Idade Média e um passeio imaginário por territórios musicais da Península Ibérica a norte da França e à Itália. Pedro Novaes, o da gaita de fole, que toca outros instrumentos de corda e percussão, diz que é uma honra estar em Araripe. "Quando se trabalha com música medieval como é o nosso caso, todo o grupo se interessa nas tradições orais, sejam de qualquer origem. Para nós, as referências novas, como as rabecas, são muito interessantes."

E a rabeca chegou trazendo mais ancestralidade - desta vez, regional -, com a apresentação da Orquestra de Rabeca Cego Oliveira, do Sesc Juazeiro do Norte. Sob a regência do maestro Francisco Di Freitas e sob o comando do Cego Oliveira, um grupo de pré-adolescentes empunha suas rabecas, prestando homenagem a grandes nomes nacionais como Luiz Gonzaga e Hermeto Pascoal.

Os quatro dias da mostra resultaram, primordialmente, em um intercâmbio entre a ancestralidade da música antiga e o cancioneiro regional, transmitido, em sua oralidade, a cada geração. É difícil chegar à cidade, principalmente por causa das chuvas, abundantes nesses dias. Também não há infra-estrutura turística adequada, mas, uma vez que se está em Araripe, é fácil entender por que músicos que entoam as canções antigas, provenientes de lugares distantes, como São Paulo e Rio de Janeiro, e um pouco mais próximos, como Fortaleza, dão o máximo de si em suas apresentações.

Nas calçadas, era possível ver crianças, em cada esquina, com algum instrumento musical, seja de corda, de sopro e até medieval. Elas fizeram as oficinas musicais e de cordel. Afinal, o objetivo é difundir e preservar a ancestralidade, seja por meio da academia ou do sertanejo.

Por ser a pioneira, a mostra apresentou alguns problemas. Foram tantos que nomes anteriormente confirmados, como Ariano Suassuna, desmarcaram na última hora e ocorreram tantos imprevistos que o último dia do evento teve de ser cancelado. Mas, nas palavras de Severina de Carvalho, ela demonstra o que o povo do Araripe pensa sobre a iniciativa do mentor da mostra, que é filho dela. "Aqui, no Araripe, até o prefeito está admirado com a atitude dele. Dizem que foi uma bela loucura."

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