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Política

Luz no jardim

Mudar o mundo só depende de nós

Era uma vez um grupo de estudantes e artistas que, inquieto, resolveu implicar com a realidade política à sua volta

Erivaldo Carvalho
da Redação

24 Dez 2008 - 00h27min

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Foi a quebra do silêncio. Uma prece política pregada para toda a comunidade. Um grito pelas vítimas da vida fácil dos políticos. Antes, era assim no Bom Jardim, na periferia de Fortaleza: eles chegavam. Suplicavam. Choravam, se fosse preciso. Apenas por votos, o pão de cada dia deles. Em anos pares, cantavam amor febril. Depois saíam. Nos anos ímpares, já eleitos, não aqueciam o irmão que rogava-lhe o pão. Negavam-lhe a partilha do poder. Ah!, se todos amassem como muitos maus políticos amam. Quão seria mais desigual, faminto e frio o mundo! Não existiria mais Natal.

Então veio o “Movimento Não Dá Mais”, iniciativa de um grupo engajado por um mundo melhor. Natal é isso. É iluminar o caminho de todos Até então, na escuridão, milhares de semelhantes beijavam a mão de falsos profetas. Comerciantes de consciências. Mendigos dos tempos eleitorais. Indignados, feito o carpinteiro do Universo no episódio bíblico da expulsão dos vendilhões do templo, eles, até então sem rosto, deram a cara a tapa para fazer mudanças ao seu redor.

Lembrando de como a minirrevolução começou, um deles dá seu testemunho: “Eu diria que foram vocês que anteciparam tudo”, confessa Valdeci Carvalho, líder da Rede de Arte e Cultura (RAC) do Bom Jardim. Esse “vocês” fomos nós, que fazemos O POVO. Um texto numa página de jornal. Apenas. Mas o suficiente para a sedução de quantos eram apresentados à boa nova. Nesse dia nem deu para ir lá bater retrato. Nem precisaria. A verdadeira paixão pelas boas causas está no que se diz. O maior revolucionário do mundo - o aniversariante do dia, Cristo Jesus -, não revolucionou o mundo “apenas” pelo que disse?

Isso, lá, no GG, ou no Good Garden, para os mais íntimos, também fez a diferença. Depois da repercussão no O POVO, apareceram os outros. Canais de TV. Jornais do Rio e São Paulo. “Quando saiu no jornal, todo mundo apareceu para fazer mais matéria”, diz Caio Feitosa, de 20 anos, representante do Nosso Espaço. Ele diz isso exalando um certo prazer nas palavras. Lembra nós falando de nós. Nesse momento, aproxima-se Evilázio Bezerra. “Esse aqui eu já conheço”, diz Valdeci, estendendo a mão para nosso repórter fotográfico. Não tardaria para aquele sentimento de pertença aumentar. Foi quando os nomes de Lucinthya Gomes e Demitri Túlio, também repórteres do O POVO e sempre atentos ao que acontece por lá, apareceram na conversa.

Zebra no resultado eleitoral? Pouco provável. Não se deve subestimar figuras que mais parecem saídos do enredo da estória “Courtney Crumring e As Criaturas da Noite”, gibi flagrado na mochila de um deles. Você deve estar se perguntando: que personagens horripilantes que assombram velhas mansões poderiam ser esses? Não. Eu não vou citá-los. É caso pensado. Não quero estragar o meu nem o seu espírito natalino, caro leitor. O que eu posso dizer é que eles estão na lista dos derrotados das últimas eleições da Câmara Municipal. E na profética edição do O POVO do dia 14 de agosto. Foram três ou quatro. Talvez até mais.

Na comunidade do Grande Bom Jardim - que além do bairro homônimo inclui Siqueira, Granja Lisboa, Granja Portugal e Canidezinho -, existe um mundo de precisões que a Fortaleza turística finge não existir. Um primo pobre que nunca é convidado para se banquetear nas maravilhas cantadas e contadas por quem lá aparece de quatro em quatro anos em busca de votos dos desvalidos. “Sem o Bom Jardim, a maioria deles não seria eleita”, diz um dos jovens que está começando a mudar a própria história.

Ação
Transformação pessoal interna e externa é o que dá o verdadeiro sentido ao Natal. É perceber plenamente o movimento em mão dupla. É quando você lembra do que pode oferecer ao próximo e no que você pode mudar aos olhos do mundo. O começo pode ser uma idéia na qual você acredite, como fizeram os jovens de lá. Esse é o recado espiritual do bom velhinho. Compartilhe o que você pensa. Você vai descobrir muitas semelhanças .

Atitude em prol do próximo é o que conta. Atos políticos pelas ruas e praças. Peças de teatro. Rodas de capoeira. Lições de cidadania em salas de aula. Não pense que foi fácil. Porque para eles não foi. Na saga do Bom Jardim, por vezes foi preciso momentos de recuo para acumular forças. “Quando a gente percebia que ia ter confronto, a gente achava melhor não bater de frente”, lembra Daniele Teotônio, 20 anos, estudante do Ensino Médio.

Luther King dizia que o que mais o preocupava era o silêncio dos bons. Um grupo de jovens do Bom Jardim acreditou nisso e mudou a história das eleições de sua comunidade. Repito. Acredite você também. Veja. Tente. Queira, como nos lembra Raulzito. Unido a outros, você será capaz de sacudir o mundo. Dê o primeiro passo. Ou, como diria Ivan Lins, no Balão Mágico: “Depende de nós/Se esse mundo ainda tem jeito/Apesar do que o homem tem feito...” Feliz Natal.

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