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Candidatos diferentes, mesmos financiadores

Quase um quinto de todos os recursos utilizados na última campanha à Prefeitura de Fortaleza, declarados pelos candidatos à Justiça Eleitoral, vieram de empresas ou grupos empresariais que fizeram doações para mais de um candidato

Gabriel Bomfim
da Redação

25 Nov 2008 - 01h49min

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Cinco empresas que financiaram campanhas para a Prefeitura de Fortaleza realizaram doações para mais de um candidato. Juntas, elas desembolsaram mais de R$ 1,72 milhão - do total de R$ 10,1 milhões em gastos declarados pelos nove concorrentes - para os comitês de Luizianne Lins (PT), Moroni Torgan (DEM) e Patrícia Saboya (PDT), que ocuparam as primeiras colocações nas pesquisas do início ao fim da campanha. Outras duas empresas, que doaram R$ 210 mil, integram um mesmo grupo econômico - Queiroz Galvão - que financiou as campanhas de três candidatos.

Somados os valores, mais de 19% de todos os recursos de campanha declarados à Justiça Eleitoral foram doados por empresas ou grupos empresariais que financiaram dois ou mais candidatos.

A Empresa Industrial Técnica (EIT), da área da construção civil, doou R$ 419 mil para a campanha de Luizianne e outros R$ 210 mil para a de Patrícia. Já a Grendene, do ramo de calçados, repassou R$ 290 à petista e R$ 100 mil à pedetista. A Aço Cearense Comercial doou R$ 250 mil à senadora do PDT e R$ 30 mil à atual prefeita. A Companhia Siderúrgica do Maranhão (Cosima), do grupo Queiroz Galvão, desembolsou R$ 200 mil para Patrícia e R$ 150 para Moroni Torgan. O grupo J. Macêdo, que atua no ramo dos alimentos, doou R$ 25 mil para cada um dos três candidatos: Luizianne, Moroni e Patrícia.

Outra empresa do grupo Queiroz Galvão, a Companhia Siderúrgica Vale do Pindaré, doou R$ 200 mil para o então candidato do PPS, Luiz Gastão. Ainda outra empresa do mesmo grupo, a construtora Queiroz Galvão, doou R$ 10 mil para Patrícia.

"O fato de ela (empresa) dar um recurso para um candidato e dar para outro, e dar para um terceiro, a empresa, de toda forma, está apostando que, com quem ganhar, ela estará bem", explica Ruy Câmara, vice-presidente estadual do DEM e integrante da coordenação da campanha de Moroni. Ele avalia que o método é uma estratégia empresarial, mas que "também faz parte do processo democrático".

Já Luiz Gastão, que renunciou à candidatura pelo PPS no dia 22 de setembro, diz considerar que o que está por trás das doações de campanha é a mesma razão que leva um eleitor a dar seu voto a um candidato: a convicção de que o escolhido "vai desempenhar um papel relevante na sociedade". Gastão, contudo, afirma ser a favor do financiamento público de campanha, que resolveria a desigualdade da capacidade de arrecadação vivida pelos candidatos.

O POVO entrou em contato com as assessorias de comunicação das empresas que financiaram mais de um candidato. EIT, Grendene e J. Macêdo optaram por não se manifestar a respeito do assunto. Já a assessoria da Queiroz Galvão disse não ter informações sobre o fato de empresas do grupo terem feito doações a campanhas políticas. A assessoria da Aço Cearense informou que a pessoa que poderia dar declarações sobre o assunto estava viajando. Também foi procurada a assessoria de Patrícia Saboya, que não enviou resposta até o fechamento da matéria.


Empresas que doaram para mais de um candidato

- EIT (construtora)
Luizianne Lins (PT) - R$ 419.464
Patrícia Saboya (PDT) - R$ 210 mil

- Grendene (calçados)
Luizianne Lins (PT) - R$ 290 mil
Patrícia Saboya (PDT) - R$ 100 mil

- Cosima (siderúrgica - grupo Queiroz Galvão)
Patrícia Saboya (PDT) - R$ 200 mil
Moroni Torgan (DEM) - R$ 150 mil

- Aço Cearense (comercial de aço)
Patrícia Saboya (PDT) - R$ 250 mil
Luizianne Lins (PT) - R$ 30 mil

- Companhia Siderúrgica Vale do Pindaré (grupo Queiroz Galvão)
Luiz Gastão (PPS) - R$ 200 mil

- J. Macêdo (alimentos)
Luizianne Lins (PT) - R$ 25 mil
Moroni Torgan (DEM) - R$ 25 mil
Patrícia Saboya (PDT) - R$ 25 mil

- Construtora Queiroz Galvão (grupo Queiroz Galvão)
Patrícia Saboya (PDT) - R$ 10 mil


VALORES

Empresas que fizeram doações para a campanha de Luizianne Lins e mantiveram contrato com a Prefeitura em 2008:

Empresa Valor doado Obra/Serviço contratado
EIT R$ 419 mil Transfor
Trana R$ 400 mil Fotossensores
Engexata R$ 350 mil Consórcio Maravilha
Fujita R$ 100 mil Cuca da Barra do Ceará
Edcon R$ 30 mil Consórcio Maravilha

Contrato com a Prefeitura e doações para a prefeita
Entre os maiores doadores da última campanha para a Prefeitura de Fortaleza, destacam-se as empresas do ramo da construção - que respondem por mais de R$ 3,5 milhões do total de R$ 10,1 milhões de recursos de campanha declarados à Justiça Eleitoral. Destas, pelo menos cinco mantêm ou mantiveram contratos com a Prefeitura em 2008. A legislação eleitoral não estabelece restrições a financiamento de campanha por empresas contratadas pelo poder público.

A Empresa Técnica Industrial (EIT), que doou R$ 419 mil para Luizianne Lins (PT) e R$ 210 mil para Patrícia Saboya (PDT), é uma das quatro construtoras vencedoras dos dois primeiros lotes licitados do Programa de Transporte Urbano de Fortaleza (Transfor). O total orçado para o projeto é US$ 142 milhões.

A Trana, que atua nas áreas da construção, transportes e tecnologia, doou R$ 400 mil à campanha da prefeita reeleita. A empresa é responsável pela instalação e manutenção dos fotossensores que fiscalizam o trânsito de Fortaleza. A Trana ganhou licitação e assinou contrato de dois anos com a Prefeitura em junho de 2006, no valor de R$ 43 milhões.

A Engexata e a Edcon - ao lado da Schahin - foram as vencedoras da licitação para a construção do Conjunto Habitacional Comunidade Maravilha, orçada em R$ 26,4 milhões. A primeira empresa doou R$ 350 mil para a campanha petista, e a segunda, R$ 30 mil. Já a Fujita, que doou R$ 100 mil para Luizianne, é a responsável pelo projeto do Centro Urbano de Cultura, Arte, Ciência e Esporte (Cuca) que está sendo construído na Barra do Ceará. A obra, orçada em mais de R$ 8 milhões, foi iniciada em maio deste ano.

O POVO procurou a assessoria de comunicação de Luizianne e questionou sobre a arrecadação de recursos para a campanha, que avaliação era feita sobre as doações das mesmas empresas a vários candidatos e também sobre o financiamento da campanha por empresas que mantém contratos com a Prefeitura. Por e-mail, Waldemir Catanho, que integrou a coordenação de campanha de Luizianne e é hoje coordenador de Articulação Política de Prefeitura, limitou-se a responder: "As doações da campanha de Luizianne Lins foram feitas absolutamente dentro das normais legais estabelecidas pela lei eleitoral". (GB)


E-Mais

Embora permita doações de campanhas por empresas com contratos com o poder público, a legislação eleitoral estabelece uma série de restrições a empresas e entidades que não podem financiar candidatos:

Concessionárias de serviço público; sindicatos; ONGs e entidades esportivas que recebam recursos públicos; entidades ou governos estrangeiros; órgãos da administração pública mantidos com recursos públicos; entidades que recebam contribuição compulsória por disposição legal; entidades de utilidade pública; entidades sem fins lucrativos que recebam recursos do exterior; entidades beneficentes e religiosas; organizações da sociedade civil de interesse público.

Doadores buscam manter portas abertas
Na avaliação de alguns estudiosos, interesses econômicos estão por trás do fato de uma mesma empresa apoiar mais de um candidato. Segundo a socióloga e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), Maria Auxiliadora Lemenhe, a estratégia do empresário se daria da seguinte forma: de todo o bolo de recursos destinados para fins eleitorais, a maior parte dele é aplicada na campanha do candidato que tem maiores possibilidades de vitória.

No entanto, o dono do dinheiro se previne contra a possibilidade de o candidato em que é depositada a maior parte das fichas perder. Por conta disso, ele escolheria um segundo ou até um terceiro candidato para financiar a campanha. "Essa estratégia visa assegurar, que caso outro candidato ganhe, o empresário tenha ao seu lado uma pessoa que vai lhe prestar algumas gentilezas, contemplar interesses pessoais ou até da própria classe, do conjunto dos homens dos negócios", explica a socióloga.

Ainda de acordo com a professora, a "racionalidade do mundo de negócios" guiaria todas as ações dos empresários. Isso ajudaria a entender porque a maior parte das empresas que financiaram a campanha da prefeita reeleita Luizianne Lins (PT) também tiveram ou têm contratos com a Prefeitura de Fortaleza. "O empresário vê o mundo como uma troca de interesses. Com certeza ele pensa em negócios futuros (quando apóia determinado candidato à reeleição), na perspectiva de que prestaram bons serviços", afirma Auxiliadora.

O cientista político Josênio Parente, professor da UFC, vai na mesma perspectiva de Lemenhe, reiterando que os empresários priorizam potencialmente os candidatos considerados mais "viáveis". "A Luizianne atraiu (doadores) porque ela era a potencial próxima prefeita", considerou. Segundo ele, os candidatos com poucas chances de vitória só conseguem recursos de empresários para suas campanhas quando mantêm com ele relações de amizade. (Ítalo Coriolano)

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