Ítalo Coriolano
Especial para O POVO
Vereadores aproveitam a estrutura dos gabinetes na Câmara Municipal para fazer campanha pela reeleição
28/08/2008 00:16

Cartazes e adesivos colados nas portas, contatos telefônicos com apoiadores e cadastro de eleitores. O cenário é rotineiro em qualquer um dos milhares de comitês eleitorais espalhados pelo Brasil. O problema é que a cena também se repete nas dependências da Câmara Municipal de Fortaleza. Como 39 dos 41 vereadores são candidatos à reeleição, alguns gabinetes da Casa estão se transformando em verdadeiros comitês de campanha.
O POVO percorreu, por três dias, os locais que deveriam, na teoria, assessorar os vereadores na tarefa de elaborar leis e fiscalizar o Executivo. No interior, um número expressivo de eleitores esperando por atendimento. "São só uns amigos da gente que vêm prestar apoio pra campanha. Durante os quatro anos, o gabinete é assim", responde uma secretária do vereador José Carlos (PPS). "Com certeza, 100%, estão vindo aqui em busca de dizer: 'Vereador, nós estamos ao seu lado nesse momento difícil de processo de reeleição'", confirmou José Carlos, que tenta se reeleger pela sexta vez.
No gabinete do vereador José do Carmo (PSL), a aglomeração de pessoas era por outro motivo: estava sendo realizado ali um cadastro de eleitores. A informação foi dada pela própria secretária, que não quis revelar o nome, e que, em frente a um computador, registrava os dados dos presentes. Questionada se esse trabalho não deveria ser realizado apenas no comitê de campanha, a secretária argumentou que estava ocupada e não poderia atender à reportagem. Tinha nas mãos a identidade de um dos eleitores de José do Carmo.
A reportagem voltou ontem ao gabinete e a realidade era mesma: pessoas do lado de dentro e de fora do gabinete esperavam para ser cadastradas. "Esses aqui são eleitores nossos que procuram o vereador para algum encaminhamento. Cada eleitor desses tem as suas necessidades e os seus problemas. Aqui eu não pratico nada que contrarie a lei eleitoral", argumentou José do Carmo. Ele chegou a apresentar uma das fichas de cadastro, que continha o nome do eleitor, CPF, RG, telefone e endereço. Logo em seguida, acabou caindo em contradição, ao afirmar que a ficha não era de eleitores, mas sim das pessoas que atende. "Eu fico constrangido em ver a necessidade do povo tão grande e a gente não poder ajudar. Vontade eu tenho. Não faço porque a lei me proíbe". No fim, um aviso: "Cuidado com o que você vai escrever. Quem sabe futuramente você não vai ser um dos que eu vou ajudar".
No gabinete de Carlos Mesquita (PMDB), situação semelhante. Durante a manhã da última quinta-feira, cinco eleitores - vindos dos bairros Bom Jardim, Praia do Futuro, Álvaro Weyne e Pirambu - também estavam interessados em se cadastrar. "Todos nós viemos nos cadastrar", confirmou um deles. Rapidamente, uma assessora entrou na recepção e tentou explicar: "Época de campanha é assim. Eles vêm sempre, não é por um motivo específico". A dona-de-casa Francisca Peixoto, porém, admitiu estar ali para conversar sobre eleição. As outras pessoas não quiseram falar sobre o assunto. Na manhã de ontem, o gabinete do vereador se encontrava trancado.
Perto dali, a confirmação de como é tênue a linha entre o público e privado na Câmara em tempos de campanha. "Por causa da correria, alguns compromissos de eleição são resolvidos aqui, mas a maioria por telefone", afirmou Wládia Maria, assessora do vereador Jorge Vieira (PMN). Sobre a presença de apoiadores no gabinete, a assessora afirmou que a movimentação era normal. "Em média 10 pessoas passam por aqui diariamente". Wládia aproveitou para perguntar se o repórter já tinha candidato a vereador e entregou uma cartela com seis adesivos do candidato Jorge Vieira.
FALE COM A GENTE
coriolano@opovo.com.br
Leia mais sobre esse assunto