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PERSPECTIVAS

A reinvenção do bairro

A reinvenção do cotidiano no Grande Bom Jardim passa pela organização popular, vertente detectada na região. Quem for lá garimpar votos deve investir numa população, na maioria, de mulheres e jovens com vocação para economia solidária


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22/03/2008 16:39

Avenida Oscar Araripe, via mais movimentada do Bom Jardim, concentra comércio, igrejas, escolas, equipamentos de cultura e casas residenciais. Organizações populares ajudam a descobrir potencialidades do bairro(Foto: Evilázio Bezerra)
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Avenida Oscar Araripe, via mais movimentada do Bom Jardim, concentra comércio, igrejas, escolas, equipamentos de cultura e casas residenciais. Organizações populares ajudam a descobrir potencialidades do bairro(Foto: Evilázio Bezerra)

No Grande Bom Jardim o olho não pára. Em alguns horários do dia ou da noite, não importa o quarteirão, o cotidiano parece mais inquieto do lado de fora das casas simples. Conversas nas calçadas, vai e vem atrás de arraias, cachorros, desconfiança e curiosidade na passagem do carro da reportagem. “O que foi agora?”, espreitam e confundem o automóvel do jornal com as “viaturas” dos programas policiais da televisão. A rua, desalinhada, acua o rio Maranguapinho e se estica para fazer caber tanto menino, mulher e rapaz novo.

E não é pra menos, noutro dia, uma pesquisa da Universidade Estadual do Ceará (Uece) identificou uma superpopulação em pequenos domicílios do Grande Bom Jardim. Cerca de 45% dos entrevistados afirmaram ter cinco ou mais pessoas morando em uma mesma residência. Além desses, 23,49% revelaram que dividiam o mesmo teto com quatro familiares. Mas o que parece problemático é, na verdade, um dos pontos de partida para moradores e entidades requalificarem o desenvolvimento da região.

Esses e outros dados serviram de base para o planejamento da “Política de Desenvolvimento Sustentável do Grande Bom Jardim”. Um estudo de 149 páginas, que vai orientar até 2025 ações que buscam construir um cenário diferente para quem vive no Canindezinho, Siqueira, Granja Lisboa, Granja Portugal e no miolo central do Bom Jardim. Isso a partir das carências e potencialidades do bairro. O plano é ousado e indica que a organização popular é o que existe de forte para superar problemas sócioeconômicos experimentados na mais pobre das seis regionais de Fortaleza.

Assessorados pelo Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS), a Rede de Desenvolvimento Sustentável do Grande Bom Jardim (Dlis), que congrega 72 entidades, e o Conselho de Desenvolvimento Sustentável da região - composto por 255 moradores - trabalham de maneira articulada e propositiva. “Saímos da fase do pedinte ou de depender de vereador para conseguir esmolas para o bairro. Estamos agora propondo caminhos para gestão pública e incentivando a mobilização popular pra hoje e amanhã”, diz Antonio Elizeu de Souza, coordenador de comunicação e marketing do CDVHS.

Para requalificar o desenvolvimento do Grande Bom Jardim, em um período de 20 anos, foi preciso inicialmente fazer um perfil dos cinco bairros que integram a região. Trinta pesquisadores populares, capacitados pelo Núcleo de Gestão Pública e Desenvolvimento Urbano (GPDU) da Uece, aplicaram 1.234questionários em 501 ruas da região.

O estudo atravessou os anos de 2003, 2004 e 2005, levou em consideração os dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE/2000) e produziu documentos. Um deles analisa o Grande Bom Jardim através de 13 indicadores e leva em consideração os aspectos geográficos, populacionais, de infra-estrutura, segurança pública, saúde, educação, cultura, esporte e lazer, economia, capital social, equipamentos religiosos, assistência social e capital humano.

Outro documento importante, produzido em parceria com a equipe do professor da Uece, Geovane Jacó Freitas, foi a atualização dos mapas do Grande Bom Jardim. Para cada bairro, foram esquadrinhados caminhos que mostram o estado das ruas, a situação de saneamento básico e a coleta do lixo. Além de apontar a localização dos assentamentos, das escolas e o sistema de transporte público. Instrumentos essenciais para quem pensa em assumir a própria história. (Demitri Túlio)

E-MAIS

O Grande Bom Jardim (GBJ) fica no sudoeste de Fortaleza. Estão divididos entre o Bom Jardim, Siqueira, G. Portugal, G. Lisboa e Canindezinho. A população do GBJ equivale a de Maracanaú (179.732) e é superior ao Crato (104.646) e Sobral (155.276).

Dos dez bairros com menor renda per capita de chefes de família em Fortaleza, a Regional V entra com 4 bairros do Grande Bom Jardim: Canindezinho, Granja Lisboa, Granja Portugal e Siqueira.

Há no GBJ, segundo pesquisa da Uece, aproximadamente 2.700 empreendimentos de comércio e serviços cadastrados.

Atualmente existem 27 linhas de ônibus no GBJ ligadas aos terminais do Siqueira e Conjunto Ceará. Há também três de transporte alternativo.

O Bom Jardim é o único bairro de Fortaleza que possui uma “filial” do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. O CCBJ, popularmente conhecido como Dragãozinho, foi inaugurado na gestão do então governador Lúcio Alcântara. O equipamento abre espaço para artistas da região e divide programação com o Dragão do Mar. No entanto, entidades reclamam da falta de um conselho gestor comunitário.

27 entidades comunitárias, que compõem a Rede Dlis, decidiram, no último dia 15, monitorar o programa de revitalização da bacia do Rio Maranguapinho.

Sete áreas de risco do GBJ vivem em condições precárias. São elas: Belém (200 famílias), Granja Lisboa (29) e Mela-Mela (22) na Granja Portugal; Menino Jesus de Praga (59) entre o Bom Jardim e Siqueira; Ocupação Paz (135) no Bom Jardim; Parque Jerusalém I e II (300) no Canindezinho e Parque Santo Amaro/Ocupação Paz (20) no Bom Jardim.

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