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TRANSPOSIÇÃO

Bispo já admite negociar com governo

A paralisação das obras já não é item obrigatório para que D. Cappio pare a greve de fome. Na prática, porém, suas propostas tornam impossível uma grande obra hídrica nos moldes da que se realiza no São Francisco


19 Dez 2007 - 00h48min

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Com oito quilos e meio a menos depois de 22 dias de jejum, o bispo de Barra (BA), frei D. Luiz Flávio Cappio, apresenta debilidade física, já não dá entrevista nem atende telefone, mas se mantém lúcido e trabalhando nos bastidores em busca de uma saída que garanta que não haverá transposição das águas do Rio São Francisco. No final da tarde de ontem, o coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Rubem Siqueira, divulgou a proposta do bispo a título de alimentar uma negociação com o governo federal através do chefe de gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho.

A proposta já não fala em suspensão definitiva das obras da transposição já iniciadas, mas, em contrapartida, acrescenta sete itens que, se aceitos, excluem a possibilidade de "uma grande obra hídrica que concentre recursos, poder e uso intensivo das águas do São Francisco", avaliou Siqueira. A proposta admite, entre outras questões, que se leve água para consumo urbano para Pernambuco e Paraíba, que detêm grandes déficits hídricos e apoio à União na introdução, ampliação e difusão de tecnologias de captação, armazenamento e manejo de água para a população rural e agropecuária.

"Estou muito firme no espírito e em paz", afirmou o bispo, enquanto cumprimentava um a um os romeiros que fizeram fila para receber sua bênção, no lado externo da Igreja de São Francisco, no município de Sobradinho (BA), onde o religioso de 61 anos iniciou a greve de fome na manhã do dia 27 de novembro, pesando 72,5 quilos. Hoje está com 64 quilos.

Em Brasília, integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Programa de Convivência com o Semi-Árido da Cáritas Brasileira, e de outras entidades realizaram ontem manifestação em Brasília contra as obras de transposição do rio São Francisco. O ato apoiava a greve de fome de D. Cappio.

De acordo com os organizadores, o protesto contou com a participação de ribeirinhos, pescadores e integrantes de movimentos sociais da bacia do rio São Francisco.

Parlamentares e militantes do PSol doarão sangue hoje em apoio ao religioso. Entre os doadores estão o líder do PSol na Câmara, deputado Chico Alencar (RJ), a deputada Luciana Genro e o senador José Nery (PA).


E MAIS

O Senado criou comissão temporária externa, atendendo requerimento do senador José Nery (PSol), para acompanhar a evolução do episódio que envolve D. Cappio. Os integrantes da comissão deverão ser indicados hoje pelas lideranças partidárias.

A atriz Letícia Sabatella criticou a atuação do governo na negociação com os movimentos contrários às obras de transposição do São Francisco. "Por que o governo se apega a esse modelo emergente a tão apegado ao lucro?", questionou ela, afirmando que a maior parte da água da transposição será utilizada para fins industriais e não para beneficiar a população.

Ontem, pela manhã, D. Cappio recebeu caravana com cerca de 400 romeiros de Petrolina (PE). Abatido e amparado por parentes e amigos, sentou-se em uma cadeira, à sombra de uma árvore, e cumprimentou as pessoas em fila. Crianças vestidas de anjo levavam um cartaz em que pediam que ele permanecesse vivo.

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