A realidade de Itatira se repete na vizinha Choró - assim como na maioria das cidades do Interior - e revela a falta de perspectiva para quem conseguiu sair do programa depois de completar os estudos
22/09/2007 16:29
Antônia Nágela das Chagas Macedo, de 19 anos, mora em Itatira, é uma das jovens que concluíram a educação básica graças ao Bolsa Família, e provavelmente, uma das primeiras que saíram do programa no Município, depois que concluiu a 8ª série do antigo 1º grau. Segundo ela, o dinheiro que vinha em seu nome foi decisivo para que ela chegasse lá. "Se eu comprei esse livro, agradeço ao Bolsa Família", confirma, com orgulho, o avô Raimundo Gomes de Morais, de 63 anos, com o exemplar na mão.
Mas a mudança na vida de Nágela foi reduzida, de lá para cá. Ela saiu da 8ª série e do Bolsa Família há três anos. Em 2006, ela conseguiu concluir o Ensino Médio, em uma escola pública do município. Desde então, não mais estudou, e admite ver a tentativa de um vestibular para seguir uma profissão como coisa muito remota em seu horizonte. "Se der, sim", responde Nágela. Solteira, ela está desempregada e ajuda a mãe nos trabalhos domésticos.
Ainda com 15 anos, Francisco Erivelton Pereira de Sousa está na mesma trilha de Nágela. Com a diferença de que ele ainda está na 6ª série, e no ano que vem não terá mais idade para permanecer no Bolsa Família. Isso significa que o dinheiro, que hoje permite que ele compre o material escolar, não existirá mais. Tímido, Erivelton diz que pretende se esforçar para continuar estudando, mas não sabe dizer o que quer seguir como profissão.
Carestia
No município de Choró, distante 155 km de Fortaleza, a realidade não é diferente da encontrada em Itatira, em relação às limitações do programa Bolsa Família. Abordados pelo O POVO, os beneficiados alegam, assim como na cidade próxima, a falta de emprego como um dos fatores responsáveis pelo fato de eles terem vindo ao mundo pobres e crescerem na mesma situação.
A conseqüência direta disso é o ócio quase absoluto que marca o cotidiano de Choró. Sétimo pior Índice de Desenvolvimento Humano do Ceará, a cidade tem 5.935 dos 12.909 moradores inscritos no Bolsa Família, o que dá um índice de 45,97%. A exemplo da maioria das pequenas localidades do Interior, lá, o dinheiro está entre as principais fontes geradoras de renda.
"Aqui não se tem outro meio de vida. Não tem fábrica, não tem nada", lamenta Francisca Pereira Galvino, moradora de Choró, sentada no terreiro de casa, conversando com uma amiga, no meio da tarde. A menos de 100 metros, uma cena semelhante se repete noutra residência. "Antes, a gente tinha com o que passar", justifica a Maria Cleonilce, enquanto desvia, rapidamente, a atenção do aparelho de TV.
São quase 16 horas da última terça-feira, dia 18, e a programação televisiva se transforma no principal passatempo de boa parte da população de Choró. Do outro lado da cidade, deitada na pequena sala-de-estar, também atenta à telinha, Maria Luciere tem sua própria teoria para o atraso social. "A carestia está demais. Até quem ganha bem está em dificuldade". (EC)
NAVEGUE
- No site do Ministério do Desenvolvimento Social (www.mds.gov.br), o internauta encontra informações detalhadas sobre o Bolsa Família. Lá estão disponíveis desde as linhas gerais e critérios do programa, até as listas completas de beneficiados, por município.
- Também oficial, o espaço na internet do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) disponibiliza levantamentos e estudos sobre os efeitos do programa na dinâmica da desigualdade social. O endereço é www.ipea.gov.br
- Digitando www.fgv.gov.br, o interessado encontra avaliações do Bolsa Família em relação à redução da pobreza e miséria no Brasil, oferecidas por uma das mais prestigiadas escolas de economia brasileira.
Leia mais sobre esse assunto