O município de Itatira, no Sertão de Canindé, onde mais da metade da população está cadastrada no Bolsa Família, é o exemplo mais evidente no Ceará de que só distribuir pequenas quantias em dinheiro não resolve o problema da pobreza
22/09/2007 16:29
Verônica Mondiane Sousa Silva, 19 anos, desempregada. "Para quem não tem emprego, já é uma ajuda". Maria Betânia Pereira, 36 anos, dona de casa. "É só para se manter mesmo". Rosélia Celestino Santos Morais, 27 anos, agricultora. "Como é que sobra, com um horror de boca para comer?". Os depoimentos de quem está no limite da sobrevivência se repetem. Poderia ser o de Alzira Flor de Almeida, Rosani Rodrigues de Paiva, Lúcia de Fátima Nunes Mariana ou qualquer outras das 2.772 mulheres do município de Itatira, a 215 km de Fortaleza, que recebem, por mês, entre R$ 77,00 e R$ R$ 112,00 do Governo Federal, através do programa Bolsa Família.
Moradoras do acampamento Santa Terezinha, Verônica, Betânia e Rosélia também têm em comum o fato de estarem com os filhos matriculados na escola. O segundo - e mais importante - ponto que as une ajuda a explicar porque a mais badalada política de inclusão social do governo Lula patina no objetivo de promover a emancipação dos beneficiados. Em depoimentos ao O POVO, as três corroboram a tese já difundida pelos estudiosos do assunto: sem conjugação a outros mecanismos, o programa não rompe a miséria hereditária, que passa de pai para filho sem que um membro da família consiga romper o círculo da fome ou da ignorância.
Encravada na ponta da serra do Machado, a hoje cidade de Itatira já foi chamada de Serra da Samambaia, Sítio São Gonçalo e Belém do Machado. Atualmente, poderia ser conhecida como "Bolsonópolis". Entre todos os 184 municípios cearense, Itatira é o único em que mais da metade da população de 16,7 mil habitantes (51,05%), ou 8.572 pessoas, está no cadastro do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) como beneficiária do programa de assistência.
Instalado na localidade de Umarizeira, o acampamento de Santa Terezinha é um dos mais puros redutos do Bolsa Família de que se tem notícia, onde apenas duas das 46 famílias não estão no programa, segundo informações dos próprios moradores. No total, são cerca de 300 benefícios em 1.230 hectares. Quase dez anos depois de ter sido entregue às famílias pelo Instituto Nacional para a Colonização e Reforma Agrária (Incra) - e quatro depois do lançamento do Bolsa Família - a localidade também é um exemplo quase perfeito da estagnação social, segundo seus moradores.
Foco
O triste feito de Itatira liderar o índice de inscritos no Bolsa Família está associado a outro ranking pouco elogiável: o município está entre os piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Ceará. Variando de 0 a 1, o parâmetro é uma medida comparativa de riqueza, alfabetização, educação, esperança de vida, natalidade e outros fatores e é adotado em diversos países. A lista dos 20 municípios com os piores IDHs cearenses mostra que nessas localidades, a relação de inscritos no Bolsa Família em relação à população está muito acima dos 25% da média nacional. (veja quadro).
Isso significa, como também apontam os estudos, que o Bolsa Família, apesar de pequenas distorções e casos isolados de cadastros indevidos, é bem focado, chegando aos rincões e atingindo quem realmente precisa. Mas, embora ajude com o mínimo necessário para uma precária alimentação ou rara compra de material escolar para os filhos, a transferência de renda direta está longe de erradicar a pobreza.
A maneira como o dinheiro que pinga todo início do mês na conta bancária dos beneficiados é uma regra geral em Itatira: paga parte da conta do mês em pequenas mercearias do lugar. "Enquanto não chega o outro, a gente vai fazendo umas comprinhas fiado", diz o agricultor Damião Barbosa Mariano, 29 anos. Com dois filhos para criar - o menor tem quatro meses - ele conta que o Bolsa Família é a única fonte de renda que existe na casa. "Acabando, volta para o mesmo jeito", diz ele, remetendo para um passado próximo, quando, segundo ele, tinha dias em que não tinha o que comer.
Já o futuro que aguarda os que recebem o benefício sem ter nenhuma perspectiva de que a situação vai melhorar é bem resumido nas palavras do também agricultor Luiz Cazuza de Morais. "Comprando umas coisinhas com o dinheiro que o governo manda, a gente fica esperando por um dia de serviço, uma diária...", relata. Casado com Rosélia Celestino Santos Morais, Luiz Germano, como o agricultor também é conhecido na localidade, conta que para escapar da fome e cuidar dos três filhos - Davi, Joel e Raquel - também depende de um pequeno roçado, de onde tira algumas sacas de milho, quando o inverno é bom. (Erivaldo Carvalho)
QUEM PODE TER BOLSA FAMÍLIA
- Famílias com renda de até R$ 60,00 por pessoa
- Famílias com renda entre R$ 60,01 e R$ 120,00 por pessoa, com crianças de 0 a 15 anos.
CONDIÇÕES PARA CADASTRO NO BOLSA FAMÍLIA
Para as famílias com criança até 7 anos:
- Levar as crianças para vacinar, pesar, medir e ser examinado periodicamente
Para as gestantes e mães que amamentam:
- Participar do pré-natal
- Ter acompanhamento após o parto
- Participar de atividades educativas sobre aleitamento materno
Para famílias com pessoas entre 6 e 15 anos
- Garantir a freqüência mínima de 85% das aulas a cada mês
- Informar ao gestor do programa mudança de escola
Fonte: Ministério do Desenvolvimento Social
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O município de Itatira infelizmente é um dos mais pobres do Estado e a população de fato necessida dessa pequena ajuda do Governo. São poucos os meios que a população tem para sobreviver e as oportunidades. Mas o itatirense é um povo batalhador e solidário, até escolas ajudam no que podem como é caso da Escola Nazaré Guerra em Lagoa do Mato (www.nazareguerra.com). Essa escola além de oferecer uma bom ensino aos alunos tem vários projetos junto a comunoidade local.
Camila Martins Leitão