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Política

MEMÓRIA E IDENTIDADE

Festa da independência. E daí?

185 anos após a Independência, o 7 de setembro é uma marcado muito mais pelo caráter militar que uma comemoração popular e pouco se identifica com o brasileiro

Érico Firmo
da Redação

08 Set 2007 - 00h05min

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Separados por um punhado de metros, universos paralelos na avenida Beira-Mar. No asfalto, pálida demonstração de um pretenso e ilusório poderio bélico. De costas para o desfile, uma dupla, aparentando estar já levemente alterada pelo álcool (eram 9h30min!) conversa animadamente enquanto saboreia sua caipirinha. Ônibus abarrotados descarregam passageiros, que chegam para o desfile como quem vai à praia. Aqui e acolá, uma camisa amarela com o número 10 às costas e o nome de Ronaldinho demonstrava que também o público sabia que ali se festejava o que se pretendia que fosse o dia da Pátria, da nacionalidade, da brasilidade.

Olha lá, em uma janela perdida, uma bandeira nacional. "Olha a água mineral", grita o camelô. Ambulantes vendem loreal. Frustrado, um senhor segura uma caixa repleta de cata-ventos nas cores da bandeira. Mercadoria encalhada.

Dois adolescentes comentam o empate entre Atlético Mineiro e São Paulo, no Campeonato Brasileiro. Outro bate uma bola de basquete. Uma mãe, empolgadíssima, brinca com uma bandeira com a filhinha, no carrinho de bebê. Um funcionário de uma equipe de TV, se maldizendo por ter de trabalhar sob o sol quente, em pleno feriado, investe contra os políticos presentes: "Cheio de ladrão aí. Só tem ladrão".

Vendedores passam com maçãs do amor. Churrasquinhos, hambúrgueres. "Ó o tamanho do pivete em cima do cavalo. Todo torto", manga uma espectadora mais atenta ao desfile. A banda passa e toca a música que se tornou o hino de Airton Senna. A seguir, o tema de abertura do programa Esporte Espetacular. Símbolos da nacionalidade, vá lá.

Quem tem um parente desfilando se empolga, procura o conhecido. Outros reclamam: "Solzão desse, desfilar nesse asfalto. País desse merece não", diz um taxista. "Deviam tá aí eram os deputados, senadores desfilando aí. Ficam só olhando", completa.

Identidades
Uma festa de Independência que guarda diferenças em relação ao resto do continente. Nos Estados Unidos, o 4 de julho é uma festa popular, onde o foco não são as paradas militares e a demonstração de poderio armamentista - já tão presentes em outras épocas do ano e em tantos aspectos da vida cultural e político-econômica norte-americana. Ruas são enfeitadas com bandeirolas. Famílias saem às ruas, vão para campos, coberturas de prédios, fazem piqueniques, à espera das queimas de fogos. Há até a célebre competição de quem come maior quantidade de cachorros-quentes.

Também em outros países da América Latina, há uma identificação do povo com seus símbolos e com a memória nacional, de forma diferente do que ocorre no Brasil. O professor colombiano Gerson Ledezma, do Curso de História da Universidade Federal do Ceará (UFC), estudou, no doutorado, as festas de centenário da independência em países da América do Sul, com atenção ao caso brasileiro. "O que encontrei no meu doutorado é que o 7 de setembro não é o lugar da nacionalidade. O brasileiro não sente que é brasileiro pelo 7 de setembro", afirma.

Explicação para essa espécie de descaso em relação ao dia no qual o Brasil teria surgido como Nação está, em parte, no próprio processo histórico da Independência. Provocativamente, não faz muito tempo, uma autoridade venezuelana disse: "No Brasil, a Independência chegou pelo correio".

Diferentemente da maioria dos países que foram colônia, não houve uma guerra - salvo conflitos localizados - pela autonomia política e econômica brasileiro. Ao contrário, não houve sequer uma alternância de poder após a ruptura com Portugal. Ao próprio regente português, dom Pedro I, coube o "grito do Ipiranga". "Em 7 de setembro, não se jogou nada fora (em relação ao passado colonial). Pelo contrário, incorporou-se Portugal com mais força nas estruturas políticas e econômicas", afirma Ledezma.

"À diferença do resto da América Latina, o Brasil constrói sua nacionalidade, o Estado, a nação baseado no passado, no colonialismo, na colônia. Retoma mitos, retoma políticas, retoma o plano monárquico. Brasil que herda um projeto hegemônico na região", acrescenta.

Processo que, afirma o professor, ocorreu de forma diferenciada nos países vizinhos. "À América Latina, interessava cortar com a Espanha, não ressuscitar nada do passado colonial. Não queriam se identificar com o passado colonial, porque lhes lembrava a Espanha".

Indo além, o processo de independência do Brasil não representou, principalmente, a autonomia econômica. Logo foram assinados tratados de longa duração com a Inglaterra, que comprometeram as finanças nacionais pelo menos até a metade do século XIX.

"O poder oficial vê que a independência com dom Pedro. Mas o fato é que existe uma luta histórica do povo brasileiro para se apropriar do seu destino, que continua até hoje. Enquanto o setor oficial, os governos fazem as paradas militares, estamos aqui para dizer que as lutas estão em andamento. A Independência não está completa", afirma o advogado Igor Moreira, militante do Movimento dos Conselhos Populares (MCP) e articulador do Grito dos Excluídos, que, em sua 13ª edição, faz do dia da Independência uma data também de protesto.

"É um dia de celebração. Os excluídos celebram por estarem vivos, mas protestam por viverem em condições tão difíceis", afirma.

Intervalo no desfile. Alguém liga uma caixa de som. Começa o forró. O público perto, então, empolga-se. Há festa.


E-mais

SÍMBOLOS
Uma das explicações para a falta de identificação do brasileiro com o 7 de setembro está na construção precária dos símbolos dessa data. Dom Pedro I é personagem polêmico, odiado e festejado. Justamente o protagonista-mor do que se entende convencionalmente como independência.

Nos países de colonização espanhola, o processo se dá de forma diferente. Simón Bolívar é aceito sem contestação como homem que guerreou 15 anos contra a dominação espanhola no continente. Jose de San Martín lutou pela libertação de Chile, Peru e, principalmente, Argentina, seu País natal, onde é ícone. Da mesma forma no México, com o padre Miguel Hidalgo.

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