Cláudio Ribeiro, Demitri Túlio e Rafael Luis
da Redação
O ex-preso político Ottoni Fernandes Júnior, hoje subchefe executivo da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, defende que a imprensa brasileira tenha uma "agenda maior" para cobrir o governo Lula
20/06/2007 01:03

A transparência deverá marcar a gestão do ministro Franklin Martins, da Secretaria de Comunicação Social do Governo Federal. O desejo é de seu subchefe executivo, Ottoni Fernandes Júnior, 61. Segundo o jornalista, ex-militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN) e preso em 1970, os erros cometidos na gestão passada do governo Lula serviram de lição para quem sobreviveu aos furacões de denúncias ou para os que chegaram depois. A orientação no ministério para o trato com a imprensa "é não deixar nada sem respostas e não adotar uma aliança defensiva. A relação tem de ser ativa".
Não que na época do ministro Luiz Gushiken as coisas se desenrolassem às escuras ou de maneira ineficiente. Não, segundo ele. O problema, na visão de Ottoni Fernandes, é que não havia canal sistemático de comunicação entre Gushiken e o ex-secretário de imprensa Ricardo Kotscho. O que prejudicava a imagem do petista Luiz Inácio Lula da Silva, avalia. A linguagem, hoje, na secretaria, seria uma só.
Ottoni Fernandes, que foi preso durante seis anos pelo regime militar por levantar, entre outras bandeiras, a da liberdade de expressão e a luta contra a censura, não verbaliza, no entanto, atitudes como a do presidente venezuelano Hugo Chávez. No mês passado (27 de maio), Chávez cassou a concessão da RCTV e confiscou seus equipamentos. "É um governo soberano, eleito pelo povo. Prefiro não emitir juízo", esquivou-se.
Procedimentos jornalísticos pautaram boa parte da conversa de meia hora com Ottoni Fernandes Jr. O homem de confiança do ministro Franklin Martins chegou a criticar a abordagem da imprensa ao presidente em relação às investigações que apontam um suposto envolvimento do irmão de Lula, Genival Inácio da Silva, o "Vavá", em tráfico de influência. Lula estava, no começo deste mês, em viagem pela Europa (durante a reunião do G-8 na Alemanha) e Índia, quando os jornalistas priorizaram o tema da denúncia. Ottoni, como jornalista, "acha que perguntaria" sobre o caso levantado pela Polícia Federal, "mas dentro de uma agenda maior". Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida no Centro Administrativo do Banco do Nordeste do Brasil no Passaré.
O POVO - Na década de 1970, o senhor foi militante de esquerda, lutou contra a ditadura militar e, hoje, faz parte do Governo. Como é estar agora do outro lado?
Ottoni Fernandes Júnior - Não digo que estou do outro lado porque a diferença é que, naquela época, tínhamos a ditadura e, hoje, temos uma democracia. Estou muito contente de trabalhar para um governo democrático e comprometido com a questão social. Isso não representa uma mudança de trajetória. Na época, estávamos combatendo uma ditadura assassina. Eu tinha 23, 24 anos e era um jovem que se indignava com o que acontecia no País. Com a idade, a gente adquire capacidade de reflexão, mas a indignação com a violência e a injustiça continua. Eu votei pela primeira vez para presidente em 1990 e me orgulha muito ver hoje que temos uma democracia sólida, com alternância de poder. É um trunfo do Brasil.
OP - Quando o senhor era militante da ALN (Aliança Libertadora Nacional), seu grupo sonhava em mudar o mundo e, agora, estas pessoas chegaram todas ao poder. Qual é a mudança na forma de pensar?
Ottoni - Me colocando no papel de servidor público, estou num cargo não para servir ao governo, mas para servir ao interesse da sociedade. Acho que nunca abri mão dos meus compromissos éticos, meus valores, que estou podendo exercer neste governo. Se fosse outro governo, noutro momento, talvez eu não aceitasse o convite. O presidente Lula tem uma extraordinária capacidade de aprender com seus próprios erros. Houve erros na primeira gestão? Sim: inexperiência, um pouco de voluntarismo. O presidente Lula percebeu esses erros e está claramente fazendo um governo de coalizão, em que as regras estão bem estabelecidas. Na França, por exemplo, os ministérios são distribuídos entre os partidos políticos que apóiam o Governo. O presidente Lula aprendeu que é muito difícil governar o País sem um acordo político com outros grupos. Foi feito um acordo com o PMDB, bastante importante. É um tipo de governo em que não se pode sacrificar princípios. O presidente não tem sacrificado a busca por manter a estabilidade econômica, a estabilidade financeira, o processo de inclusão social e o respeito à democracia. Respeitando isso, sempre dá espaço para negociar.
OP - O senhor defende essa coalizão mesmo com forças que o Governo repudiava até pouco tempo e que contribuíram com a ditadura militar?
Ottoni - Repudiava, mas estas forças estão alinhadas com a política principal do Governo hoje. Políticas são transitórias, mas o importante é ter um objetivo definido. Nunca na história brasileira houve uma política tão sólida na questão social. O presidente Lula sabe que para combater a desigualdade tem que haver investimento econômico. O Programa de Desenvolvimento da Educação (PDE) é substantivo. Estudei numa das melhores escolas de São Paulo, que era pública, mas a ditadura conseguiu acabar com a qualidade do ensino de 1º e 2º graus no País. A ditadura tinha como objetivo acabar com a universidade pública, que era tida como foco de subversão, mas como militante estudantil ajudei a impedir isso. Na USP (Universidade de São Paulo), os estudantes estão combatendo o PDE porque acham que é uma violação da autonomia da universidade ao se exigir performance. O Plano está dando um bônus às universidades que aumentam o número de cursos noturnos, que possuem boas notas.
OP - O senhor não acha legítima a luta, hoje, de jovens?
Ottoni - Na década de 1970, nós éramos uma maioria que lutava pela democracia. Hoje, acho que na USP temos um movimento de 250 estudantes que representam 12 mil. Mas acho que é preciso ter diálogo, não se pode expulsar os estudantes. Tem é que explicar: o PDE não viola a autonomia da universidade. Ao contrário, vai entregar mais recursos à universidade que se comprometer com as metas do Governo. Mas para passar isso, tem que ter a coalizão no Congresso, senão não adianta ter um projeto perfeito.
OP - Então o senhor é partidário do Lula quando diz estranhar um jovem ser de direita ou um velho continuar de esquerda?
Ottoni - (Risos) O presidente Lula não foi bem interpretado. Talvez, o que a gente não pode é perder a capacidade de se indignar com a idade. Com o tempo, é preciso aprender o jogo de cintura, coisa que o presidente Lula aprendeu muito bem.
OP - Dentre esses erros que o presidente Lula gostaria de corrigir, quais podem ser apontados?
Ottoni - Não se pode ter uma relação defensiva com a imprensa. Tem que ter uma relação ativa com a imprensa, expor os objetivos. Tem que falar mais. O presidente ficou muito feliz com o resultado da primeira coletiva, as entrevistas dadas no exterior deram resultado. Mas é preciso construir limites. Vou pegar um caso concreto: o presidente estava em viagem, representando o Brasil numa reunião com chefes de Estado de várias nações, mas só se comentava sobre o irmão do presidente (Genival Inácio da Silva, o Vavá. Grampeado pela Polícia Federal e suspeito de tráfico de influência). Não estou falando em pôr panos quentes, mas o que era mais importante não foi nem questionado.
OP - Se o senhor estivesse repórter, não perguntaria sobre as investigações da Polícia Federal e o suposto envolvimento do irmão do presidente da República em crime?
Ottoni - Eu acho que perguntaria, mas dentro de uma agenda maior, essa é que é a questão. Ele estava representando o País.
OP - Mas isso já vem como reflexo da imagem que se criou de que o presidente fala menos do que a imprensa aciona. A imprensa têm de perguntar, é papel dela.
Ottoni - Mas nenhum dos grandes jornais brasileiros falou sobre a reunião que o presidente Lula participava. Falou-se apenas do seu irmão.
OP - Como o senhor acha que a imprensa cobre o Governo Lula e quanto o Governo se permite ser coberto jornalisticamente?
Ottoni - Não vou generalizar como a imprensa cobre, porque varia de veículo para veículo. Só acho que tem que ter maior angulação. Não se pode cobrir as negociações lá fora tratando apenas do caso do irmão do presidente. Temos um Governo que é informado que o irmão do presidente está sendo investigado pela Polícia Federal e ele (Lula) não interfere no caso, e, ao invés de se reforçar este lado positivo, fica-se dizendo que o presidente está protegendo seu irmão. A criação da Secom (Secretaria de Comunicação), que unifica a comunicação do Governo num único organismo, faz parte deste processo de se aprender com os erros. Quem cuida do relacionamento direto do presidente com a imprensa é o ministro Franklin Martins, enquanto a minha área é normatizar a publicidade e o trabalho de comunicação social dos ministérios e autarquias. Qualquer ação de comunicação começa pelo trabalho de divulgação. O PDE e o PAC passaram por um grande trabalho de assessoria de imprensa e só depois tiveram sua comunicação por meio de publicidade.
OP - Isso é um reforço institucional?
Ottoni - Exatamente. Antes desta última viagem, o presidente deu uma entrevista para um grupo de jornais indianos, que só saíram no dia em que ele chegou lá. Houve artigos no Le Monde, no The Guardian. A imagem do presidente Lula ainda é muito forte no exterior. Nos Estados Unidos, ele é visto como um cara que veio de baixo e subiu. Tudo desde a época do presidente Fernando Henrique Cardoso, que tinha uma forte relação com a França.
OP - A dificuldade de trabalhar a imagem então é interna, com determinados veículos brasileiros?
Ottoni - É complicado trabalhar com os interesses políticos, pois os principais órgãos de comunicação têm seus compromissos, são indústria. Mas todos os questionamentos que chegam ao ministério de comunicação social são respondidos pelo ministro Franklin Martins. A base de tudo é a relação de confiança profissional, que só pode ser conquistada com clareza. Nós estamos esclarecendo que as assessorias de comunicação dos ministérios não devem fazer assessoria dos ministros, devem ampliar o leque de fontes, que é o padrão que temos nos Estados Unidos, na Inglaterra. Estamos tentando fortalecer este trabalho e isso começou pela integração da Secretaria de Divulgação e a Secom, que trabalhava apenas com a publicidade.
OP - Como era a comunicação do Governo antes disso. Era ineficiente?
Ottoni - O ruim era a separação da comunicação em dois organismos. O Governo falava pouco e a falta de comunicação entre os dois organismos atrapalhava. Uma coisa que foi implantada pelo ministro Gushiken (Luiz Gushiken, ex- da Comunicação de Governo e Gestão Estratégica) foi a negociação com veículos, que antes ficava a cargo das estatais. Na média, os descontos eram de 12%. Hoje, o desconto médio é de 47%. Houve um ganho enorme para o Governo, que é o maior anunciante do Brasil e tem que usar o seu poder. A Secom hoje dá continuidade a isso, enfatizando a transparência. Setenta e seis por cento do R$ 1,1 bilhão que o Governo anuncia são anúncios de empresas estatais. Dos R$ 300 milhões restantes, R$ 200 milhões são anúncios de utilidade pública como a campanha de vacinação e o censo. Não tem que ter vergonha de liberar estes números. De programas como o PAC não foram nem R$ 80 milhões.
OP - Como o Governo está discutindo a questão da classificação indicativa para a TV?
Ottoni - Essa não é nossa área, é do Ministério da Justiça. A classificação é indicativa, existe em vários países e o objetivo é definir quais programas não devem ser recomendados para determinada faixa etária. Outra coisa importante que vai entrar nas discussões, e que não é censura, mas sim uma questão de saúde pública, é a regulamentação das propagandas de cigarro e bebida alcoólica. Em muitos países elas já são vistas com reservas ou até mesmo são proibidas.
OP - Qual foi o posicionamento da Secom diante do fechamento de uma televisão pelo presidente Chávez, na Venezuela?
Ottoni - Eu não vou comentar isso, acho que é uma decisão de Estado soberano. Eles têm as regras deles e nós temos que cuidar das nossas. No nosso caso, é bom ver que televisão é uma concessão, é um serviço público. No nosso caso, estamos abrindo uma discussão da lei geral da telecomunicação para termos critérios mais claros, mais transparentes, das concessões. É preciso discutir por exemplo o que acontece na Inglaterra, o aluguel da concessão. Temos que evoluir neste sentido, mas não tenho condições de comentar o que acontece na Venezuela.
OP - A secretaria orienta o presidente a se posicionar...
Ottoni - (Interrompendo) Nós não orientamos o presidente. O ministro Franklin Martins participa das reuniões da coordenação política, mas não sei o que ele comentou com o presidente em relação ao caso do fechamento da televisão na Venezuela. O certo é que chefes de Estado não devem intervir em questões de outros países, essa é uma questão delicada. Da mesma forma que o presidente Lula se comportou diante da declaração do presidente Chávez em relação ao Senado brasileiro.
OP - O senhor acha que o presidente Lula é conivente com o populismo do Chávez?
Ottoni - Não acho.
OP - O projeto do Conselho de Jornalismo, que está adormecido, pode voltar a ser discutido?
Ottoni - Ele não está em pauta. Nosso foco principal é a TV pública, que terá mais liberdade e autonomia que as TVs estaduais públicas. Esse é um processo complicado, tem que passar ainda pelo Congresso.
OP - A TV pública vai ser autogerida?
Ottoni - Passando por esse processo de audiência pública, ela precisará ter três fontes de recursos: orçamentário, de fundos e receita própria. Ela poderá prestar serviço para as TVs da Câmara, do Senado, vendendo conteúdo.
OP - Por que investir numa TV pública e ao invés de se apoiar as TVs culturais e educativas que já existem?
Ottoni - Porque elas são estaduais, não são do Governo Federal. Além disso, muitas delas estão fortemente ligadas aos governos do momento. Queremos uma TV que ajude a implantar uma política federal, fazendo num modelo de fundação que tenha maior independência.
OP - As TVs estaduais como a TVC serão utilizadas nesse projeto de TV pública?
Ottoni - Sim. Estamos fazendo acordos para que elas retransmitam o sinal em rede, oferecendo em troca financiamento para a digitalização dos seus equipamentos.
Íntegra da entrevista
www.opovo.com.br/conteudoextra
Leia mais sobre esse assunto