Política
IDEOLOGIA
Farinha do mesmo saco?
No jogo real da política, a ideologia perde espaço para o pragmatismo das siglas. Pesquisa mostra que o Brasil é um dos países em que os eleitores menos levam em conta as idéias e os programas partidários na hora do voto
Clovis Holanda
da Redação
26 Mai 2007 - 15h04min
Foi-se o tempo em que o eleitor podia se orientar entre as diferentes posições ideológicas dos políticos e de seus partidos. No tabuleiro real da política, esquerda e direita se confundem e embaralham seus discursos, evidenciando o espaço cada vez menor da ideologia como fundamento programático das siglas e dos homens públicos. Se, por exemplo, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT - partido que se diz a maior legenda de esquerda da América Latina -, declarou durante entrega do prêmio Brasileiro do Ano 2006, da revista Época, que quanto mais cabelos brancos um homem tem, menos de esquerda ele é, quem vai duvidar do caráter, digamos, "vagamente esquerdista" do governo.
Não menos "ousado" foi o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, uma das possíveis apostas do PSDB para a sucessão de Lula, ter dito recentemente que os tucanos podem se unir aos petistas nas eleições de 2010. O senador Tasso Jereissati, presidente nacional do PSDB, ratificou a afirmação e disse que a aproximação entre as siglas não só era possível, como "provável".
Em âmbito estadual, a prefeita Luizianne Lins (PT) teve de engolir a nomeação de dois tucanos para o secretariado do governador Cid Gomes (PSB), candidato apoiado pela petista numa coligação partidária considerada de centro-esquerda (PT-PSB-PMDB-PCdoB). Cid, que se diz socialista, convidou Marcos Cals para a secretaria da Justiça e Bismarck Maia para a pasta do Turismo. Além da dupla de ex-deputados tucanos, Cid também chamou Ivan Bezerra, do DEM (antigo PFL), para presidir o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do Estado.
Uma composição pluripartidária tão ampla, no entanto, não se constitui em nenhuma novidade para a própria Luizianne, que, para garantir sua base de sustentação na Câmara de Vereadores, apoiou a candidatura do vereador Tin Gomes (PHS) à presidência da Casa. Na gestão passada, Gomes foi chefe de gabinete e articulador político do ex-prefeito Juraci Magalhães (PL), desafeto político e um dos principais alvos das críticas da prefeita.
PESQUISA
Em países como a República Checa, a Suécia ou a Itália, exemplos como esses provavelmente teriam causado bastante controvérsia entre a opinião pública. Os três estão no topo de uma lista de 39 países onde foi medido o peso que a ideologia tem na hora do voto e a coerência político-partidária dos eleitores. A pesquisa foi realizada em 2004 pelo cientista político Scott Mainwaring, diretor do Instituto de Estudos Internacionais Helen Kellogg, da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos. Mainwaring comparou 39 países de quatro continentes. No quesito que mede o peso do posicionamento ideológico do eleitor na definição de seu voto, o Brasil está entre os últimos e ocupa a 31ª posição. Já em relação à coerência ideológica dos eleitores, o Brasil cai mais seis posições e fica em 37º lugar.
O cientista político entende que há um círculo vicioso, no qual o eleitor não tem confiança de votar nas legendas, enquanto os partidos não se fortalecem institucionalmente, porque seus programas têm peso relativamente pequeno na decisão do eleitor. "As trocas de legendas, sobretudo no pólo conservador, descaracterizam os partidos. O sentido da fidelidade ideológica é muito fraco e não se pode votar de maneira ideológica em um político que não é fiel aos princípios ideológico-programáticos do seu partido", afirmou o diretor do Kellogg Institute, em entrevista à rede BBC.
O eleitorado brasileiro, contudo, acompanha uma tendência das sociedades democráticas contemporâneas. Este "movimento de dança" política (na linguagem e entendimento do pensador Norberto Bobbio, exposto no livro "Direita e Esquerda") entre os partidos e grupos ideológicos, que ora se aproximam ora se dão as costas, é cada vez mais tolerado pelo eleitor. O resultado é que as fronteiras que separam os até então extremos "direita" e "esquerda" são cada vez mais tênues e, quando muito, restritos aos burocráticos e pouco solicitados programas partidários.
Se a sociedade não considera as matizes ideológicas dos candidatos na hora do voto e os políticos que estão no poder atuam na base da casualidade e em prol de seus interesses pontuais, a ideologia, num país como o Brasil, perdeu seu potencial de aplicação prática e deixou de repercutir nas decisões políticas nacionais.
Dê sua nota clicando nas estrelas
Comentar esta notícia
Importante: Os comentários publicados são de exclusiva responsabilidade de seus autores e as conseqüências derivadas deles podem ser passíveis de sanções legais. O usuário que incluir em suas mensagens algum comentário que viole o regulamento será eliminado e inabilitado para voltar a comentar.
Mais Notícias
Últimas
Indique esta notícia









