Jornalistas que já sentiram, ou ainda sentem, na pele as dificuldades representadas por estar no poder acreditam que a tensão se dá também pela disparidade de interesses e visões que há entre mídia e poder na maior parte dos casos. Ricardo Kotscho diz que "sofreu muito"
12/05/2007 14:54
Eles são jornalistas, mas representam ou estão no poder. Falam em nome de governadores, deputados, prefeitos, do presidente da República ou se tornam um governante, como no caso da prefeita e também jornalista Luizianne Lins (PT). Os assessores de imprensa dos poderosos geralmente deixam os veículos de comunicação do circuito comercial para se tornarem, na comparação de Ricardo Kotscho, “mariscos”, que ficam entre o mar e a rocha - só levando pancada.
Jornalista há mais de 40 anos e ex-assessor de imprensa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, desde as primeiras campanhas à Presidência e também durante parte do primeiro mandato, Kotscho diz, em entrevista exclusiva ao O POVO, que sofreu muito durante sua passagem pelo Palácio do Planalto. “Estava no governo bem na época em que começou essa coisa de cobertura em tempo real pela Internet. Os jornalistas queriam informação de cinco em cinco minutos e eu não tinha como ajudar. O tempo do governo é completamente diferente do tempo da notícia. Uma reunião poder durar horas e não tem como adiantar nada”, lembra.
Ricardo Kotscho avalia que nunca se discutiu tanto o trabalho e o papel da mídia quanto atualmente. Tal debate, segundo ele, seria resultado de uma “revolução” na comunicação pela qual estamos passando. “Acabou aquela história de jornalista ser dono da verdade. A opinião da imprensa deixou de ser a opinião pública. A discussão foi aberta por meio de novos canais da sociedade civil, dos poderes constituídos, todo mundo quer falar”, diz.
Sobre a concentração de episódios tensos envolvendo mídia e poderosos - como o caso da Câmara dos Deputados querer processar Arnaldo Jabor ou a briga pública entre Franklin Martins e Diogo Mainardi nas páginas das revistas -, Kotscho diz que os jornalistas nunca admitiram que seu trabalho fosse discutido, questionado e agora, em que, segundo ele, a audiência e os poderosos têm procurado se manifestar diretamente para a sociedade, ocorrem reações e são necessários reposicionamentos de ambos os lados. “Não falo de censura, mas existem abusos de nossa parte (dos jornalistas) que devem ser discutidos não com os poderosos, mas com nosso público, com os leitores”, sugere.
À frente da coordenação de jornalismo da Prefeitura de Fortaleza, o jornalista e professor Demétrio Andrade percebe uma certa “indisposição” dos meios de comunicação e dos próprios jornalistas em fazerem autocrítica ou reconhecerem os erros, que seriam, segundo ele, tantos quanto os cometidos no Legislativo e no Executivo. “O nível de cobrança e o volume de cobertura sobre os serviços públicos é bem superior às investigações sobre os entes privados. Não vejo matérias - pelo menos não na mesma quantidade e acidez de conteúdo - sobre, por exemplo, a qualidade e as condições infra-estruturais de escolas ou hospitais privados”, afirma Demétrio, em entrevista por e-mail.
O jornalista também percebe uma tendência da imprensa de condenar o Poder Público, sem levar em consideração o princípio da presunção da inocência e o fato de que o ônus da prova cabe ao acusador e não ao acusado. “O governo Juraci Magalhães, por exemplo, foi condenado - ou seja, com todo processo investigativo finalizado - a pagar 1,5 milhão em multas. A imprensa praticamente não explorou isso, pois aquele grupo não está mais no poder, não é mais vitrine”, lembra ele, comentando o excesso de cobertura que a imprensa teria dado ao polêmico Réveillon promovido pela Prefeitura de Fortaleza.
Sílvia Góes, que coordena a comunicação social da Assembléia Legislativa, diz que a tensão permanente na relação mídia x poder é construtiva para ambos os lados. O importante, frisa ela, é que nenhuma das instâncias deixe de cumprir seu papel e respeite o do outro. “O papel da imprensa é questionar e esta função muitas vezes desagrada a quem estar no poder, mas esta relação, mesmo conflituosa, não precisa ser traumática”, avalia.
O coordenador de comunicação social do governo do Estado, jornalista Luiz Viana, diz que o papel da imprensa vem se fortalecendo com a consolidação da democracia e que os poderes estão sujeitos ao julgamento constante da sociedade, que pode se manifestar por meio do voto, das organizações da sociedade civil e das instituições. “A imprensa é reflexo e mais um canal para todas estas manifestações”, afirmou ele, por e-mail. (Clovis Holanda)