Política
PRECONCEITO
A "musa" contra a pobreza de gênero
Deputada mais votada do Rio Grande do Sul, e que chegou a ser rotulada de "musa do Congresso" pela mídia, Manuela D'ávila, defende, em entrevista exclusiva ao O Povo, que é preciso combater a visão machista da mulher na sociedade e dar condições de melhoria de vida às mulheres pobres no Brasil
Érica Azevedo
da Redação
08 Mar 2007 - 02h09min
Antes de chegar a Brasília, Manuela foi vereadora em Porto Alegre, aos 23 anos; e sempre militou em defesa dos estudantes, tendo passado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) até se filiar ao Partido Comunista do Brasil. Por acreditar que poderia mudar a sociedade fiscalizando a ação dos governantes e delatando as irregularidades, decidiu de formar em Jornalismo. Ainda passou pelo curso de Ciências Sociais, mas não chegou a concluir. Foi quando o desejo por uma mudança social inclusiva e igualitária inspirou nela a necessidade de uma participação mais efetiva nas discussões sobre o destino do País. Discussões que não dispensaram a atenção à mulher.
"Apesar do meu mandato não se centrar na temática da mulher, por ser focado mais na juventude e na educação, não há como não pensar nas mulheres. No meu mandato, pensamos medidas que visam a saúde da mulher e uma mudança cultural", afirma. Um passo nessa direção, segundo Manuela, seria a implementação de uma política de controle da venda de remédios e produtos para emagrecer e a criação de uma lei que impedisse a veiculação da imagens sensuais de mulheres nos meios de comunicação.
Sobre a provável receptividade da iniciativa no meio social, Manuela acredita que a reação empresarial, dos setores da mídia, e mesmo de algumas personagens panfletadas na propaganda nacional e local, são uma "reação menor". "É verdade que não tem como alterar uma cultura machista por decreto, mas se pode, ao menos, garantir, a médio ou longo prazo, uma inversão da cultura por meio da discussão e implementação de dispositivos legais de preservação da integridade feminina. O preconceito existe, mas o nosso trabalho tem que sobressair disso. E esse trabalho acho que a gente constrói na marra".
A deputada, que admite sofrer preconceito tanto por ser mulher como por ser jovem, ressalta que a visão da mulher-objeto acaba impregnando a cobertura da Imprensa sobre a participação da mulher na sociedade. Manuela, que já recebeu o título de "musa do Congresso", nega potencialmente a classificação e avalia que o rótulo minimiza o seu trabalho. "Acho que alguns setores da mídia tentam desviar a atenção das pessoas, focando questões sem importância. Não é bem um problema meu. É um problema da sociedade, que tem que combater essa discriminação".
Além do preconceito de gênero, a parlamentar ressalta que a mulher no Brasil sofre ainda mais, como sofrem outros grupos sociais, com a pobreza. "As estatísticas provam que a pobreza no mundo se tornou feminina. As mulheres são menos remuneradas e desempenham papel tão importante quanto os homens na sociedade. Muitas delas são chefes de família e a maioria vive na pobreza". E complementou: "A luta, na verdade, é para eliminar a pobreza e, mais ainda, a pobreza feminina, porque a mulher é mais vitimada na pobreza que o homem".
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