Cláudio Ribeiro e Henriette de Salvi
da Redação
Cinco promotores assinaram ontem representação, encaminhada à Procuradoria Geral de Justiça, pedindo uma investigação sobre os valores pagos na festa da virada de ano, realizada pela Prefeitura de Fortaleza
24/02/2007 01:40

O Ministério Público do Estado do Ceará, fez ontem uma representação para o procurador Geral de Justiça, Manoel Lima Soares Neto, requisitando ação investigativa sobre o gasto da última festa de réveillon oferecida pela Prefeitura de Fortaleza à população. O evento principal foi realizado no Aterro da Praia de Iracema e ocorreram shows populares nos bairros Conjunto Ceará, Barra do Ceará e Messejana. O documento assinado por cinco promotores avalia que se confirmadas as denúncias feitas na sessão da última quinta-feira da Câmara Municipal, a conduta revela ofensa ao princípio da probidade administrativa. No plenário, o vereador oposicionista Carlos Mesquita (PMDB) acusou a Prefeitura de gastar mais de R$ 1,5 milhão com artistas locais e nacionais. Como prova, o parlamentar mostrou a edição do Diário Oficial do Município (DOM) de 29 de dezembro de 2006, que traz a relação dos contratos. Ontem, vários dos cantores contratados (ou seus empresários) afirmaram ao O POVO ter recebido muito menos do valor informado no DOM.
"Botaram muito zero nisso aí", afirmou, de São Paulo, o sanfoneiro Dominguinhos. No Diário Oficial, sua contratação informada custou R$ 339.879,00 (o segundo maior cachê da festa). "Meu cachê foi em torno de R$ 25 mil. Daí para pagar músicos e tudo. Eles não me oferecem nem hospedagem nem avião", disse o músico. "Se tem outros valores (embutidos, como produção, iluminação, cenários), eu desconheço", declarou João Cícero, empresário de Dominguinhos.
Os cantores cearenses Paulo Façanha e Humberto Pinho garantiram só ter recebido R$ 800. "Foi das mãos do Manassés, na tarde do dia 31. Ele que nos convidou", disse Pinho. Seu pagamento teria sido de R$ 15 mil, conforme o Diário Oficial. "Fui acordado por um amigo no telefone dizendo que eu tinha recebido R$ 20 mil e que precisava pagá-lo. Até ri, mas falei que ia continuar devendo", brincou Façanha, contando como soube da história somente ontem pela manhã. A cantora Valerie Mesquita só soube do caso pelo O POVO. "Não vou dizer quanto ganhei, mas não foi esse valor (R$ 18 mil)". Depois de pedir um tempo para ligar para quem a contratou, ela afirmou que "os valores são referentes a toda a estrutura do show, não apenas ao cachê".
A reação da produção da cantora paulista Tânia Mara, em São Paulo, também foi de surpresa. "O show foi da Elba Ramalho e o escritório é o mesmo da Tânia Mara. Ela foi convidada pela Elba pra abrir o show dela cantando cinco músicas, que foi o que aconteceu. Ela não recebeu nenhum cachê. O que foi pago foram as despesas de passagem aérea e hospedagem, só. Dela e dos músicos", informou a produtora Natasha Jardine. O empresário de Elba, Alexandre Valentim, estava ontem em viagem pelo exterior. O empresário do sanfoneiro Waldonys, de nome Válter e que intermediou a contratação de Dominguinhos no mesmo show, não quis confirmar valores. "Esse é um problema da Prefeitura. Ela é que vai ter que provar". O POVO não conseguiu contactar com outros artistas do evento.
O promotor Antônio Gilvan de Abreu Melo, um dos autores da representação, diz que o procurador-geral "é um homem determinado e acredito que vá instaurar imediatamente um inquérito policial para que se faça uma apuração rigorosa, como todas devem ser", declarou. De acordo com o documento encaminhado pelo grupo, o ato praticado pela Prefeitura seria inaceitável, imensurável e reprovável em todos os aspectos. "Num Estado paupérrimo, com um Município idem, que apresenta problemas gravíssimos na área da saúde, gastos da ordem de R$ 1 milhão e 200 mil com uma festa são muito altos", avalia.
O POVO não conseguiu contato, ontem à noite, por telefone, com o procurador-geral Manoel Lima Soares Neto.
As assessorias de imprensa da Caixa Econômica Federal e do Banco do Nordeste do Brasil confirmaram o patrocínio na festa de réveillon da Prefeitura. O assessor Wellington Nunes disse que a Caixa repassou R$ 200 mil, para gastos com estrutura. O BNB, via assessoria, informa ter contribuído com R$ 150 mil. De ambos, a principal contrapartida exigida aos promotores do evento foi de exibição da logomarca das instituições. Os repasses também foram publicados no Diário Oficial da União.
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