Érico Firmo
da Redação
O senador Tasso Jereissati afirma que o Ceará ficou para trás nos últimos quatro anos e justifica a aproximação do PSDB - sem, segundo ele perder a independência - com o governo Cid Gomes pela necessidade de tirar o Estado do "impasse"
06/01/2007 14:33

Em um olhar sobre o passado, o "Governo das Mudanças" chega a seu momento de plenitude. Justamente a alternância de poder, fundamental em uma democracia moderna - meta última do projeto mudancista. Nesse sentido, a chegada ao poder de Cid Gomes seria não o fim, mas a evolução do projeto.
Olhando para o futuro, o cenário preocupa o ex-governador e hoje senador. Para Tasso Jereissati, o Ceará chegou a um momento de impasse. Os anos de crescimento ficaram para trás e o Estado perdeu o ritmo em que vinha. Quem é o responsável? Diplomático - a seu estilo - o senador evita bater diretamente em seu desafeto Lúcio Alcântara. Mas avalia que o Ceará se perdeu do rumo em que ele mesmo teria posto o Estado.
O momento crítico da história cearense é apontado como uma das razões para que o PSDB tenha ensaiado aproximação com o governador Cid Gomes. Embora seja enfático ao afirmar que o partido não perdeu a independência de criticar a administração que se inicia.
O POVO - Qual o significado da entrada do PSDB no governo Cid Gomes?
Tasso Jereissati - Eu não diria que é uma entrada do partido no governo Cid Gomes. Temos dito desde o início que nós não tínhamos a intenção, nem de participar do governo Cid. Nem de atrapalhar o governo Cid. Pelo contrário, ajudá-lo naquilo que for necessário para o desenvolvimento do estado do Ceará. E nesse meio do caminho, acho que o governador Cid teve uma atitude política muito inteligente, porque havia a disputa na Assembléia Legislativa, que, de qualquer maneira, faria com que o período legislativo começasse meio conturbado. O que nunca é muito bom para um governador. Isso não significa o PSDB dentro do governo. Eu quero deixar claro que nunca houve nenhuma negociação entre Cid e eu. Não há nenhuma indicação política, ou seja, para que o partido possa votar isso ou deixar de votar aquilo deva precisar de participação no governo, ou que faz parte de um acordo entre o Cid e eu. Até porque nós não o apoiamos durante a eleição e desta maneira nós estamos fora do governo e não temos direito a reivindicar nada. Nós não perdemos a independência de criticar o governo quando acharmos que o governo merece críticas, inclusive de não votar quando acharmos que o projeto não é o melhor para o Estado naquele momento. Dessa independência nós não abrimos mão.
OP - De todo modo, pela primeira vez se vê o PSDB com integrantes em um governo ao lado de PT, PSB, PCdoB. Qual a simbologia dessa grande aliança em torno do governo que começa agora. Esse momento pode ser um marco histórico na política do Ceará?
Tasso - Eu tenho dito, e tenho sido até criticado pela imprensa do Sul, que pra mim o Ceará está acima de tudo. Qualquer questão política fica em segundo plano quando o Ceará está em questão. E eu acho que o Ceará vive um momento importante. Na sua infra-estrutura básica, na sua política estratégica de desenvolvimento. Existe uma série de impasses que é preciso que haja muita força política para que esses problemas sejam resolvidos. E não tem sentido que nós, que começamos um projeto que mudou e transformou o estado do Ceará nos últimos 20 anos, não colaboremos no sentido de que pontos estratégicos, obras e ações estratégicas do Estado de longo prazo sejam executadas. Nós não vamos fazer papel de empecilho para nada que signifique desenvolvimento do Estado. Na questão de infra-estrutura, o crescimento do Porto é fundamental. Na questão turística, a vinda de resorts para o Estado é fundamental. Na questão da industrialização, o complexo siderúrgico é fundamental e é estratégico. A questão das águas, não só propriamente (a transposição do rio) o São Francisco, mas obras de estrutura hídricas ainda são complementares, ainda são fundamentais ao nosso desenvolvimento. E o Estado não conseguiu avanços. Não é culpa de ninguém, mas por uma série de circunstâncias, (o Ceará) parou nesses quatro anos. Não pegou o ritmo que vinha. Parou o ritmo que vinha. Em alguns pontos, nós ficamos até atrás, como na questão do turismo. Nós, que éramos pioneiros no turismo, perdemos muito terreno para os outros estados. É preciso recuperar esse tempo perdido.
OP - O senhor disse que não é culpa de ninguém. Até que ponto o governo Lúcio...
Tasso - Não, eu não jogo (a culpa) não. Eu acho que foram todas as circunstâncias. Eu passei a campanha toda dizendo que o Lula nunca fez nada aqui no Ceará. Não tem nenhuma obra grande do Lula aqui no Ceará. Foram todas as circunstâncias políticas, circunstâncias econômicas, talvez, também. Não é hora de ficar culpando esse ou aquele.
OP - Ainda em relação a essa aproximação de tucanos com o governo Cid, pela primeira vez em décadas o Estado não tem uma oposição orgânica e estruturada como foi, por exemplo, o PT.
Tasso - Nós não vamos fazer nunca oposição como o PT. De tentar empatar tudo que o governo estava fazendo mesmo que fosse bom. O Ceará vive um momento de impasse. Nós estivemos na frente nesses anos todos. Nós estivemos na frente no processo de industrialização, nos tornamos um Estado que estava se industrializando com maior rapidez. Saímos na frente no processo da atração do turismo no Estado, nós saímos na frente no processo de reforma fiscal e reforma administrativa, tivemos os maiores avanços na educação e na saúde. Recebemos prêmios. Redução da mortalidade infantil, e fomos o estado que mais avançou em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Estamos ficando para trás. Se nós perdermos mais quatro anos, nós vamos ficar novamente para trás e vamos voltar para a rabeira dos estados do Nordeste. E, por mais que tenha uma conotação política-partidária-eleitoral que não seja positiva aparentemente num primeiro momento, nós não vamos contribuir para isso. Pelo contrário, nós vamos contribuir para que o estado recupere rapidamente o status que ele alcançou.
OP - A não-reeleição do PSDB e a eleição de Cid Gomes representa um encerramento do ciclo político do "Governo das Mudanças"? Até que ponto esse governo é o rompimento de um ciclo, até que ponto ele é uma renovação?
Tasso - Evidente que há um ciclo, do ponto de vista estritamente político. Pode ser considerado um ciclo que chega a um momento de mutação. Porque, afinal de contas, o PSDB que estava no poder até agora. Depois de 20 anos, entra outro partido, com outra base de sustentação política. Justamente o que vinha fazendo oposição ao PSDB. No entanto, quanto ao projeto, não (se encerra). É uma evolução do projeto. Não esqueça que o projeto de 1986 nasceu na Ditadura (Militar), no período autoritário. E o grande fundamento era a modernização e a democratização do Estado cearense. E dentro desse projeto de modernização e reestruturação do Estado, a alternância de poder é fator essencial. Não existe uma democracia moderna sem uma alternância de poder. E as pessoas se equivocam profundamente quem avaliou que eu pessoalmente em algum momento tive algum sonho ou desejo de ser coronel. Pelo contrário. Eu tive o desejo e o sonho de modernizar o Estado. E, dentro desse desejo, estamos em um período em que o ciclo político alcança sua plenitude, porque há a renovação por forças da oposição. E eu espero, do ponto de vista também econômico-social, que haja avanços depois disso. Por outro lado, sou profundamente crítico. Eu acho que o projeto atrasou-se na eleição proporcional. Acho que a eleição proporcional do Estado foi profundamente anti-democrática e é uma das piores e mais caras da história do Ceará recente, pelo menos. E isso parece que não aconteceu somente no estado do Ceará, mas acho que aqui, especialmente, foi mais acentuado a preponderância econômica em cima do político o que faz com que estejamos com um quadro na Câmara Federal - evidentemente com algumas e honrosas exceções - de baixíssima qualidade. Nesse ponto, há um retrocesso.
OP - Preocupa o senhor a nova representação do Estado na Assembléia e em Brasília?
Tasso - Preocupa, preocupa muito. Mas se você observar bem é um quadro que está acontecendo em Brasília também. Nunca o Congresso Nacional, incluindo aí o Senado, foi tão desmoralizado e a sua atuação foi tão criticada e até rejeitada pela população brasileira. É uma legislatura que sai sob vaias. E o que preocupa é porque ela não melhorou. A partir do próprio estado do Ceará, ela não melhorou.
OP - Existe alguma explicação com relação a isso, sobretudo a preponderância do fator econômico?
Tasso - Existe. A questão começa com o loteamento do governo. Quando o governo federal começa a lotear os seus cargos e jogar com o Orçamento como fator de barganha e de apoio político no Congresso, as conseqüências foram essas que estão aí. Vários deputados conseguiram votações maciças. Alguns deputados, que eu não vou citar nomes, praticamente desconhecidos da grande opinião pública de Fortaleza - alguns até desconhecidas suas opiniões sobre questões públicas da imprensa. Eu pergunto a você se você conhece de boa parte desses deputados os seus pontos de vista, as suas posições sobre os grandes temas nacionais ou estaduais. Provavelmente você nunca viu eles falando sobre o assunto, sobre qualquer assunto de interesse público. E todas votações expressivas, graças ao jogo do Orçamento e ao jogo de cargos que foram os instrumentos que o governo federal resolveu adotar para cooptar votos. Para ser justo, isso não é novo. Mas era delimitado a alguns nichos. Isso se generalizou e fez com que o grande espaço da política, do ponto de vista eleitoral, tenha sido feito através dessas ações pouco legítimas.
OP - O senhor mencionou a modernização do Estado ocorrida em 20 anos de "Governo das Mudanças". Onde é que o senhor enxerga que houve falhas. Onde o senhor acha que errou?
Tasso - Principalmente erros políticos. Quando você está no governo você acolhe oportunistas. Você perde em muitos momentos a capacidade de discernir o que é um quadro, o que é um oportunista. Creio que, do ponto de vista administrativo, o Estado alcançou seus objetivos. Do ponto de vista político, muitos equívocos foram feitos e nós pagamos por eles, porque a política não perdoa.
OP - O senhor foi eleito numa aliança com a frente de esquerda, mais ou menos como a que hoje elegeu Cid. Aquele rompimento foi um desses erros políticos?
Tasso - O rompimento hoje da esquerda que me apoiou comprova que eu tinha razão porque tudo aquilo que eles eram contra quando eu estava fazendo, hoje eles fazem no governo. Quando nós fizemos uma política muito dura em relação aos excessos de benesses a alguns apadrinhados de funcionários públicos, aquilo foi considerado uma perseguição. Quando fizemos um ataque a vantagens indevidas e casuísticas construídas durante anos de política clientelista, aquilo foi considerado um desastre, um erro. Quando fizemos uma reforma fiscal forte contendo despesa, também. A esquerda era muito generosa com relação aos gastos do Estado. E hoje estamos vendo essa mesma esquerda no poder adotando todas essas bandeiras, algumas até com mais rigor. E com bastante atraso.
OP - Na última campanha, o governador Lúcio Alcântara passou a se queixar de que teria recebido o Estado em uma situação difícil. Como foi que seu governo entregou o Ceará?
Tasso - Eu vou deixar que a história faça o julgamento daquilo que foi difícil, do que foi fácil. Como é que o Estado ficou. Está muito em cima os acontecimentos para ficarmos discutindo. Não vale a pena nesse momento.
OP - Qual foi a divergência que o senhor teve com o ex-governador Lúcio Alcântara, que levou ao rompimento?
Tasso - Também não vou falar sobre isso agora, acho que não é o momento. Ele foi derrotado nas eleições e eu não gostaria de fazer nenhum tipo de avaliação nesse momento. Só posso dizer que tenho a consciência inteiramente tranqüila, que fiz aquilo que achei que deveria ser feito naquele momento. Me lembro da reunião que eu fiz com as lideranças do PSDB, eu disse o seguinte: "sei que estou fazendo um erro político-eleitoral e que isso não se faz, mas não posso ficar calado com minha consciência". E hoje eu acho que cada vez mais vai ficando claro que eu tinha razão com a minha consciência e tinha razão quando fiz um erro político porque fomos derrotados no Estado. No momento em que eu fiz aquela declaração de dissidência com o governador do Estado, eu sabia que estava marchando para uma derrota, inclusive levaria alguns aliados importantes à derrota. Apesar de que não foi só isso. Foi uma conjunção de coisas. Inclusive a questão do Orçamento. Não me arrependo. Se eu me olhar menos como um político de longo prazo e olhar como um projeto de estado que aquele grupo assumiu em 1986, eu me considero vitorioso. Vinte anos com esse resultado e agora fazendo uma transição política que é natural e que desejável e saudável. Claro que você nunca quer perder eleição, mas do ponto de vista ideológico, é saudável que haja o momento que o grupo saia do poder. Não é bom que eu me eternizasse no poder ou que meu grupo se eternizasse no poder, e que não aparecesse lideranças novas. O que eu espero é que essas lideranças sejam tão boas quanto os fomos no passado. Ou até melhores.
OP - O senhor pode falar, hoje, que interferências domésticas foram aquelas a que o senhor se referiu quando rompeu com o governador?
Tasso - Elas vão aparecer sozinhas. Elas estão aparecendo, não vai precisar de mim. Eu não quero entrar nesses detalhes, mas eu acho que até nos últimos meses, a cada dia que passa, toda a imprensa e todo o Ceará está percebendo. Não sou eu quem vai mostrar. Acho que a administração pública mais cedo ou mais tarde se torna transparente.
OP - Quão menor o PSDB deve ficar em função de sair do governo?
Tasso - É difícil definir hoje, porque nós temos um governo novo, e essas coisas passam a se definir muito melhor na Assembléia, na Câmara Federal também, nas prefeituras. Mas eu vejo o problema aparentemente mais grave na Câmara Federal. Nas bases municipais, coisas muito localizadas, não vejo uma mudança muito grande em relação ao que existe hoje. Eu sei que existe um processo de aliciamento grande hoje no Governo Federal com os novos (deputados) federais do estado, mas não tenho idéia ainda das conseqüências. Me parece que é aonde nós estamos mais vulneráveis.
OP - Falando sobre futuro, o que o senhor espera do governo Cid?
Tasso - Não é uma questão partidária, nem política. Eu conheço o Cid, e acho que é um rapaz inteligente, bem intencionado, bem preparado, que tem condições de fazer um bom governo. Ele vai precisar de suporte político e de quadros. Se ele tiver essas duas coisas, eu acho que acho que ele tem condição. O Ceará, como eu disse, está num momento difícil, nós estamos ficando para trás com relação ao turismo. A nossa industrialização praticamente parou. A nossa infra-estrutura não tem nada que possa atrair, principalmente na área tecnológica. Então, nós temos o risco de perder essa liderança que nós conquistamos nos últimos 20 anos. Você deixa de ser a primeira grande opção de investimento. E isso aconteceu no Ceará. Éramos disparado a primeira grande opção no nordeste de investimento e hoje já não somos mais. Então, esse momento nós não podemos consolidar como verdadeiro. Tem que recuperar isso e tem que ser rápido. E eu acredito que o Cid tem condições de fazer isso.
OP - O governo Lula, o que esperar do futuro?
Tasso - Muita preocupação. É um governo que vai começar velho. Começa cheio de problemas de caráter ético, que ainda vai ter de se explicar de alguns escândalos inexplicados, principalmente o dinheiro do dossiê. Não vejo ele, dentro desse contexto, com vontade de fazer nenhuma reforma profunda. Vontade política. Vejo fazer muito discurso, mas não vi nenhuma ação nesse sentido. Estamos caminhando com um processo que vai consolidar um crescimento medíocre que nós tivemos nesses quatro anos, um crescimento lamentável. Jogamos fora uma oportunidade de ouro. O mundo há 50 anos não cresce tanto. E o Brasil praticamente não cresceu. Quando o mundo cresce, é uma grande oportunidade, quando o mundo não está crescendo é difícil você crescer contra a maré. E nós estamos jogando fora essa chance de ouro. E vejo que nesses próprios quatro anos nós vamos continuar nesse ritmo e pior. Com um governo que não traz tantas esperanças porque é um governo envelhecido, carregando já cicatrizes de escândalos e mais escândalos para se explicar. Essas cicatrizes estão provocando uma desordem no País que a gente vê a cada dia.
OP - E o futuro do senador Tasso Jereissati?
Tasso - Meu grande desejo é reconstruir o partido, e um partido bom, de qualidade, que tenha quadros. As pessoas falam muito que - e eu acho que é injusto de dizer - que eu não deixei quadros. O Ciro é oriundo, o próprio Cid é oriundo (do projeto mudancista), o Beni Veras que foi ministro, que foi governador; o Sérgio Machado, que foi um líder. O próprio Moroni. Nós geramos muitos quadros. Agora, a política cearense de uma maneira geral decaiu em termos de qualidade dos quadros. Então é reconstruir um partido que tenha consistência programática e qualidade moral e intelectual. Esse é o grande sonho. Com certeza governador eu não sou candidato, não tem mais sentido isso. Mas tenho aí quatro anos (de mandato no Senado) para fazer uma reflexão maior sobre fazer esse trabalho de reconstruir o partido e fazer uma reflexão maior sobre o futuro. Vai depender também muito do que ocorrer nesses quatro anos. Ainda tem muita água para correr debaixo da ponte.