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ACERVO
A memória e o futuro
Eudoro Santana viveu momentos importantes da política cearense e brasileira. Boa parte registrada em fotos, documentos e reportagens que a família decidiu catalogar marcar seus 70 anos de vida

Érico Firmo
da Redação

27/11/2006 02:32

Aos 70 anos de idade e com cinco décadas de atuação política, Eudoro Santana está hoje afastado das disputas eleitorais - para a alegria da esposa Ermengarda Santana. Hoje diretor-geral do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs), Eudoro é ex-militante estudantil, preso político nos anos 60 e 70, fundador do PMDB, diretor do Incra no Ceará no governo José Sarney, secretário da Agricultura no governo Tasso Jereissati e deputado por mais de uma década pelo PSB.

Da esquerda revolucionária às primeiras experiências de governos de centro pós-redemocratização, Eudoro foi parlamentar - fazendo oposição a seu hoje aliado Ciro Gomes, de quem foi subordinado, na época em que Ciro foi ministro da Integração Nacional - e hoje comanda um dos principais braços operacionais do governo federal no Nordeste. Atualmente no PT, ele lança um olhar sobre o passado e sobre o futuro da política no Ceará e no Brasil. Da perspectiva de quem acompanhou os últimos dois anos de crise, Eudoro fala do sofrimento de quem assistiu à sucessão de escândalos de dentro do governo. Ele aponta os erros, mas destaca os acertos de um governo que, em sua opinião, marca o início de um novo ciclo da política brasileira. Novo ciclo que ele acredita que também esteja tendo início com a eleição de Cid Gomes (PSB) no Ceará - de quem, aliás, foi padrinho de casamento no início do ano.

Com formação política entre os segmentos progressistas da Igreja nos anos 50 e 60, Eudoro é um conciliador e um homem de diálogo. Abertura que defende na relação entre os governos e movimentos sociais, e que lhe rendeu medalhas e homenagens concedidas, por exemplo, pelo Movimento Sem-Terra (MST), e que compõem o acervo de sua vida política que a esposa, Ermengarda, acaba de organizar.


O POVO -
Lançando um olhar ao longo desta trajetória, como militante estudantil, petroleiro, passagens pelo Executivo, os mandatos parlamentares e agora, no governo Lula. A partir dessa perspectiva, qual o significado do atual momento político, como resultado do acúmulo de uma caminhada de cinco décadas?
Eudoro - Há, evidentemente, uma diferença muito grande entre a época do movimento estudantil. Há toda uma contextualização daquela época. E penso que evoluiu para uma conscientização maior do nosso papel como construtores da cidade dos homens (alusão à Cidade de Deus, obra de Santo Agostinho), como alguém que quer contribuir com um País diferente. E começamos a pensar numa possibilidade menos revolucionária, no sentido de mudança mais profunda do Poder, mas numa perspectiva de construir um governo popular e democrático. Após participar de todo o processo de luta contra a ditadura, a nossa primeira, entre aspas, vitória, foram as eleições diretas (para os governos estaduais). Nós tivemos a oportunidade de apoiar aqui no Ceará o governo Tasso (Jereissati, 1987-1990) como alternativa aos coronéis. Foi uma experiência interessante, não há dúvida, mas frustrante. Depois fui para a Assembléia. Não para, como se diz, cuspir no prato que comeu. Mas para continuar a crítica ao afastamento do Pró-Mudanças, que era a plataforma do governo Tasso, na qual nós sempre nos baseamos, primeiro como secretário, depois como deputado. Nos últimos discursos, já em 2001, no qual eu analisava todo esse projeto. Um discurso que nós chamamos "O Ceará sem mídia e sem fantasia". E a gente mostrava o que representou o projeto que nós chamamos mudancista. Era um projeto frustrado, foi superado. Era um projeto elitista, concentrador de renda. Mas a perseguição por esse projeto democrático e popular vem de muito longe. Com o Lula começou em 1989 e em 2002 nós conseguimos. Hoje eu digo que a eleição do Lula é um fato histórico que vai mudar a história política do Brasil.

OP - Que tipo de mudança?
Eudoro - A história política é constituída de etapas, de fases. Tivemos a fase da ditadura, tivemos a fase da nova República, que, evidentemente, do ponto de vista da democracia, houve avanços. E ela se conclui com a eleição do Lula. Estamos vivendo um novo período. Uma fase que normalmente dura de 20 a 20 e poucos anos. Dificilmente passa disso. Mesmo a ditadura, ela durou 21 a 22 anos. Embora seu primeiro mandato tenha sido cheio de problemas, de muitos erros. Mas, analisando, sem muita emoção de militante, o governo Lula fundamentalmente se diferencia dos demais governos. E foi isso que deu essa vitória esmagadora no segundo turno. Porque durante a eleição no primeiro turno, a população não pôde nitidamente ver essa diferença. A própria classe média. Foi um processo cheio de denúncias, denuncismo, isso criou uma confusão muito grande, muita decepção. Que na verdade é natural e é perfeitamente compreensível. Diferente da classe pobre, que se beneficiou. Porque foi um governo que olhou a pobreza através desses programas de inclusão social e da melhoria das condições pelo que, poderia-se dizer, a esmola dessas políticas compensatórias. Mas, no fundo, a população ao discutir no segundo turno, mais a fundo, os projetos. O projeto conservador do PFL e PSDB, o projeto privatista, que não tem compromisso com a maioria da população. E isso ficou muito claro. O que caracterizou ainda mais, que além de ter dado atenção mais aos pobres, o Lula fez um governo que ouviu. Ouviu os movimentos sociais, ouviu a sociedade, de várias formas. Embora não tenha resolvido a maioria dos problemas. E nenhum governo vai resolver. Mas ouviu as demandas dos movimentos sociais, criou as mesas de negociação, criou os fóruns. E isso é que é fundamental no processo político de transformação mais profunda e consciente. Que é cada vez mais a população e os movimentos sociais, a sociedade compreender seu papel e se organizar para exigir. Porque nenhum governo vai dar absolutamente nada de mão beijada.

OP - Que fase é essa que o Lula inaugura?
Eudoro - Acho que o Lula inaugura nesse início de século uma fase com avanços bem mais profundos. Embora, evidentemente, não transformadores, como nós sonhamos, e continuamos a sonhar. Mas o primeiro fato é o operário, retirante nordestino, não letrado, chegar à Presidência. E temos que dizer que o Lula é uma pessoa de uma cultura formidável, de conhecimento da realidade, capaz de interpretar, inclusive, isso, e que tem uma capacidade de se comunicar. Mas não é um doutor. Esse fato é uma coisa extraordinária, e que teve repercussão na América Latina, e principalmente na América do Sul. O neoliberalismo e essa hegemonia americana, a integração que gerou mais exclusão, isso começa a receber o peso das contradições da própria política. E começam a existir as contestações, e começam a surgir os governos mais populares, mais democráticos. Na busca de igualdade de condições e respeito às minorias.

OP - Mesmo num primeiro mandato tão atribulado, o primeiro mandato já conseguiu ter esse significado?
Eudoro - Eu poderia dizer que, embora tendo sofrido muito durante esse período do governo Lula. Talvez sofrido menos porque estava envolvido. Porque quem quis trabalhar de forma diferente no governo Lula o fez. Por exemplo, o Dnocs foi uma instituição que nunca olhou para a reforma agrária, nunca olhou para os usuários de seu patrimônio, que são os pescadores, os psicultores, os fazendeiros, os irrigantes. E nós nos voltamos para isso. Inicialmente com muita reação. Mas o que eu quero colocar é que algumas instituições, seja o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), quer seja o Dnocs, o próprio Banco do Nordeste, há total diferença entre a gestão na época do governo liberal que vem desde Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso, depois da ditadura.

OP - Que tipo de sofrimento era esse, acompanhar tudo que ocorreu ao longo do governo Lula, na visão de quem estava dentro da administração, mesmo sem envolvimento direto com os escândalos?
Eudoro - Há uma diferença. Nós tivemos posições que eu considero equivocadas. O governo se fechou. Tinha um núcleo que sabia de tudo que se passava. Não discutiu política. O partido, e não falo só do PT, porque eu acho que o PCdoB, o PSB, todos os partidos que participaram desse processo, cada um se encolheu, foi lutar para ocupar seus espaços na administração. E se esqueceram de fazer política. Não houve discussão política do processo, das dificuldades, por que o programa tem que ser de determinada forma. Como os partidários podem participar, influir. Quais os caminhos para evitar que isso seja feito errado, que não seja desviado, não haja corrupção. Todo esse processo, se ele tivesse tido uma discussão, a partir de cima, do partido, e descendo até a base. E isso também no PCdoB e no conjunto dos partidos que dão apoio ao governo, eu não tenho dúvida que isso tudo que ocorreu, esses desvios de caixa 2 - embora nós saibamos que isso vem de muito longe - mas não teria acontecido. Porque teria sido debatido. E a maioria não concorda com isso. Então o grande erro é que não se fez política.

OP - Por que não se fez política?
Eudoro - O desejo de organizar a máquina, a pressão que o governo sentiu no início para ser destruído, com o dólar indo lá para cima, inflação, porque armou-se isso pela elite brasileira. O governo teve que botar toda sua força administrativa para conter aquilo. Não fez política, inclusive, a partir dali. A coisa melhorou, começou o desejo de construir alguma coisa, depois veio a crise violenta dos últimos dois anos. Em resumo, não se fez política. Não se discutiu um projeto político.

OP - Qual era a percepção que se tinha da crise dentro do governo?
Eudoro - É uma sensação estranha, diferente da de um ministro, que está mais distante da base. Em um segundo escalão, como é o caso do Dnocs, onde você está mais perto dos que devem ser beneficiados. Da população em si. Não fica ilhado. Os militantes tiveram essa grande frustração e ficaram atordoados. Os intelectuais, por não terem tido oportunidade de fazer a avaliação de todos esses processos, esses saíram. Deram o fora. E quem estava e está dentro do governo, que sabia de certa forma de algumas informações, que participava dos programas, que conheceu o Plano Plurianual, toda sua filosofia, que discutiu isso - porque isso não foi discutido com toda a sociedade - que conhecia as dificuldades do Orçamento, esses tiveram oportunidade de conhecer melhor isso. E sofre menos. Eu diria que são três sofrimentos diferentes. A frustração da grande militância, que ficou a ver navios. Os intelectuais que fugiram. Não tiveram, inclusive, a competência e a responsabilidade dos intelectuais de esquerda de discutir. Não ficar contra o governo. Uma coisa é buscar militância, propor discussão, propor mudanças, criar um processo de análise. Que é muito mais construtivo do que simplesmente você sair, abandonar e começar a meter o pau. E finalmente os que estiveram e estão dentro do governo, na tentativa de fazer as coisas acontecerem. E, os mais conscientes, no sentido de, se há espaço para usar a estrutura, usar em benefício da população, dos movimentos sociais.

OP - O PT e o presidente Lula têm sempre mencionado a estrutura antiga e arcaica do Estado brasileiro, uma estrutura de poder enraizada. E o senhor está em um dos órgãos mais antigos do País, com 97 anos. Como é estar dentro de uma estrutura tão antiga, que por pouco não foi extinta junto com a Sudene?
Eudoro - Duas ou três vezes ele quase foi extinto. Certa vez eu escrevi um artigo no O POVO. "Lula recicla a sucata nacional". Essa é uma coisa que não foi visível no governo Lula. A recuperação do patrimônio público no governo Lula é uma coisa fantástica. O Dnocs tem 83 mil hectares de área irrigada, e só funcionavam 22 mil hectares. Agora nós estamos com 40 mil hectares. E mesmo os novos não tinham sido concluídos, embora inaugurados alguns. Essa opção de não fazer nenhuma obra nova e terminar as obras como o Castanhão, que foi uma obra inaugurada pelo Fernando Henrique Cardoso e pelo Tasso Jereissati, e eles se orgulham disso. Inacabada. Faltando inclusive completar a parede. O rio estava barrado, tinha juntado água, mas na verdade não tinha se concluído a obra. A situação hoje é de dificuldade. Jaguaribara é hoje um dos municípios em maior dificuldade. Porque os projetos de reassentamento, que deviam estar produzindo, ficaram praticamente abandonados. Não é possível conceber que uma barragem como o Castanhão tenha em torno dela 19 comunidades que moram a três, quatro, cinco quilômetros, e bebe água de carro-pipa. Um mundo daquele de água! Por decisão do Lula estão sendo construídas 19 adutoras para levar água tratada a cada uma delas. Essa coisa de recuperação do patrimônio foi fundamental, não só no Dnocs.

OP - O senhor pretende chegar ao novo século do Dnocs à frente do órgão?
Eudoro - Não sou eu que decido. Eu gostaria de permanecer, nem precisaria todo o segundo mandato do presidente Lula. Mas pelo menos para consolidar algumas mudanças de projeto, de visão. Eu disputei até para ir para o Dnocs, porque queriam que eu fosse para a área da reforma agrária, que aparentemente é a área que eu mais entendo. Mas eu sempre sonhei em dar uma constribuição ao Dnocs. Porque eu acho que o Dnocs é uma das instituições do Nordeste de maior potencial, e eu disse isso ao Lula, que não foi usado ainda. O maior patrimônio que ele tem são mais de 20 bilhões de metros cúbicos de capacidade de estocar água. Esse é um patrimônio fantástico para que ele possa dar ao semi-árido uma contribuição bem maior do que já deu ao restante do Nordeste durante esse século que praticamente já está concluindo.

OP - O senhor é um caso raro na esquerda de alguém que teve várias passagens pelo Executivo, como diretor do Incra no Ceará (1985-1986) no governo José Sarney e como secretário da Agricultura (1987-89) no primeiro governo Tasso. Como foram aquelas duas passagens pelo governo?
Eudoro - A nova República, com o (José) Sarney teve já uma abertura. Foi feito o primeiro Plano Nacional de Reforma Agrária. O MST nasceu nessa época. Sempre dei apoio, mesmo sendo secretário ou mesmo sendo diretor. Nunca botei polícia contra trabalhador, nem nas ocupações da secretaria, nem nas ocupações do Incra. Inclusive eu tenho conversado com o Cid (Gomes, governador eleito) que o Ciro (Gomes, deputado federal eleito e ex-governador, entre 1991 e 1994) foi um governador diferente até do Tasso, porque não botou a polícia contra os trabalhadores. E eu, como opositor a ele (Ciro) que fui, sempre reconheci isso. Tenho absoluta certeza que, com os avanços que nós tivemos, com a consciência, e sendo o Cid uma pessoa bastante tranqüila, ele vai ter uma relação importante com os movimentos sociais. Ouvir os movimentos sociais. É impossível atender tudo. Mas dialogar até onde pode chegar. Se as pessoas estiverem esclarecidas de que a realidade é aquela, é muito mais fácil você convencê-las a aceitar uma outra alternativa e construir com elas outras saídas. Se é tudo trancado, tudo hermético, só bota a polícia, ninguém diz, leva a conflito. Acho que nós vamos ter avanço, em razão do próprio exemplo do governo federal. E hoje um governo estadual que vai se instalar em janeiro perfeitamente irmanado com o governo federal, com a Prefeitura de Fortaleza. Se nós não avançarmos, é por incompetência.

OP - Como foi a experiência posterior, como secretário do governo Tasso?
Eudoro - Eu acreditei e participei do Pró-Mudanças. Todo o movimento que à época surgiu, uma das coisas mais importantes que o Ceará teve, que levou à eleição do Tasso. Como poderia ter sido do Mauro Benevides (deputado federal do PMDB, então senador e presidente do partido no Ceará) à época. E qualquer um que tivesse sido candidato teria sido eleito. Porque era a quebra do ciclo dos coronéis. Nesse processo, o Tasso, que não me conhecia, me conheceu durante a campanha. Eu andei com ele mais de 50 municípios. E ele me convidou, logo após a eleição, para participar de um grupo para organizar o governo. E no final me chamou, como chamou o Ariosto (Holanda, deputado federal pelo PSB, à época Secretário da Indústria e Comércio, e, já no segundo mandato de Tasso, da Ciência e Tecnologia) e outros tantos que participaram do Pró-Mudança, para ser secretário. Durante dois anos, criamos o programa "Arrancada da Produção" e começamos a tentar avançar no processo da reforma agrária e dos investimentos no campo. Quando eu senti que não havia recurso para isso. Aí tinham programas para indústria, apoio às empresas que vinham de fora, tinha dinheiro para a indústria, mas não tinha para a agricultura. Chegou a um ponto em que vi que não dava para ficar, porque estava indo de encontro a tudo que eu sonhei. E renunciei por uma discordância política, num momento em que eu vinha já com problema. Mas no momento em que ele decidiu apoiar o Collor de Mello (então candidato à Presidência, em 1989), que eu conhecia a sua história, eu fui contra, achava que era um absurdo. Achava que o Color não tinha quadros, e que a gente iria dominar a coisa e fazer dentro da nossa visão. Eu, sabendo que isso não aconteceria, sai.

OP - Depois do governo Tasso veio o governo Ciro, a quem o senhor foi opositor, e hoje está aliado.
Eudoro - Quando eu voltei para a Assembléia, depois de ter sido secretário, foi na oposição. Veio o Ciro e eu continuei na oposição. Mas eu, em vários momentos, elogiei. No momento em que houve ocupação que o Ciro não mandou a polícia, eu o elogiei na Assembléia. Quando foi feito o Canal do Trabalhador, que eu acho que por equívoco na época o PT bateu muito contra a obra. Eu, numa visão mais histórica, de que fazer um canal de interligação de bacia, mesmo emergencial, para salvar Fortaleza, era uma confirmação da engenharia para outras transposições, outras interligações. Como hoje estamos fazendo esse canal (Canal da Integração) aí, realmente de concreto, bem feito. Então eu fui favorável ao Canal do trabalhador. Defendi o canal, visitei, inclusive, como parlamentar, até para ver, como engenheiro. Mas nunca deixei de fazer a crítica ao projeto (das Mudanças). Que agora caiu, com a vitória do Cid. Uma construção que já vinha de 2002, pela decadência do projeto e pelo surgimento de uma liderança nova. E pelo próprio desejo do povo. O povo cansa. O Ceará avançou, nós temos que reconhecer, em muita coisa. Modernizou-se, avançou em infra-estrutura, transporte. Mas, na verdade, não podemos, como na época da diotadura, fazer o bolo crescer para depois cortar. Porque às vezes vem um cara que come quase todo e não deixa para ninguém. Infra-estrutura é importante, apoio à Região metropolitana, que é uma fonte para turismo é importante. Mas não podemos descuidar do interior. Um governo que queira recuperar esse credibilidade, e espero que o governo Cid faça isso, tem que se voltar para viabilizar o desenvolvimento do interior. O Estado do Ceará não pode ser considerado moderno quando ainda precisa de 700 a 800 carros-pipa para abastecer comunidades que não têm água. Pode não ser feito em quatro anos, mas pode ser feito em oito ou em 10. Tem que ter uma meta para acabar isso, que é uma vergonha para um Estado que quer ser moderno.

OP - O senhor foi deputado no período desde o primeiro até o último mandato do governo Tasso, no comecinho como aliado e como secretário, e depois, até o fim, como opositor. Qual a avaliação que o senhor faz desse projeto, na visão de quem participou da construção, e depois tornou-se adversário?
Eudoro - O governo Tasso foi um governo empresarial, organizou o Estado, fez o chamado dever de casa na questão do endividamento, da organização das finanças, que era uma esculhambação quando ele assumiu. Eu acho que é um legado importante. O Estado do Ceará hoje é organizado, inclusive do ponto de vista de instrumentos e estrutura. O Estado, com a colaboração do governo federal, avançou muito na área de recursos hídricos. A própria área da cultura, a infra-estrutura de estradas, o Porto do Pecém. Ninguém pode, como crítico ao projeto, dizer que foi um desastre, um fracasso. mas o projeto se equivocou na medida em que se voltou muito mais para dar apoio à indústria, que não respondeu, não aumentou a foerta de emprego na perspectiva que se esperava, a qualidade do emprego é ruim, o próprio Banco Mundial tem um relatório que mostra que o grande erro foi o abandono do interior. Criou-se uma fantasia muito grande em torno da agricultura irrigada, que andou muito pouco. Tanto que o governo Cid que rever. Não podemos condenar, dizer que foi totalmente errado. Ele foi equivocado porque não respondeu ao projeto de diminuição da miséria, que era o projeto fundamental do Tasso, quando ele foi eleito com esse objetivo.

OP - O senhor acha que o Cid será capaz de dar uma guinada, criar um novo projeto?
Eudoro - Eu acho que o Cid vai criar um novo projeto. Acho que ele tem consciência. A visão dele não é de contestação, e acho que qualquer pessoa de esquerda tem que ter consciência. Primeiro, tem que fazer a crítica, como nós sempre fizemos. Mas temos que reconhecer os avanços que ocorreram. Não podemos comparar o Ceará de hoje com o Estado da época dos coronéis, a organização do Estado.

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