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CENTRO DA CIDADE

No banco da praça

Há pouco mais de um mês das eleições, quem freqüenta a praça lembra com saudades do tempo em que os governadores tomavam café por lá. Apesar da calmaria eleitoral, as apostas já começaram e prometem esquentar o clima da praça, coisa que os candidatos não conseguiram fazer até agora

Daniel Sampaio
da Redação

28 Ago 2006 - 02h22min

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(Foto: Talita Rocha/Especial para O POVO)
A praça já mudou um bocado. Mas o vento que levantava as anáguas das moçoilas que se encontravam na esquina da Broadway, no fim da década de 1950, ainda existe. A "rapaziada", agora cheia de cabelos brancos ou sem nenhuma cabeleira, continua a espiar as pernas das jovens que passeiam com suas mini-saias. A Farmácia Oswaldo Cruz, inaugurada em 1934, resiste ao tempo. Os bancos, que chegaram a ser de concreto, voltaram a ser de madeira. Os políticos... Bem, os políticos mudaram bastante também.

Os freqüentadores estranham que a um mês e meio da eleição o movimento de caçadores de votos na Praça do Ferreira, que ganhou o sobrenome do boticário Antônio Rodrigues, esteja tão fraco. O logradouro cercado pelas ruas Pedro Borges, Major Facundo, Guilherme Rocha e Floriano Peixoto não ferve tanto como em eleições anteriores.

Os políticos se distanciaram da praça. Candidato, quando vai lá, dá uma volta e vai embora. "A eleição tá fraca que nem caldo de bila. Nunca tinha visto candidatos tão fracos como hoje", reclama Araripe Gomes da Silva, 70. A descrença é grande, mas nem por isso, os que têm a Praça do Ferreira como razão de suas tardes deixaram de discutir política. As lembranças são muitas.

Subir em um dos bancos e apresentar suas propostas é hábito antigo. "Era tempo bom. Agora tem a televisão", observa Araripe. A turma, bem dizer nascida e criada na Praça do Ferreira, anda desacreditada nesse pessoal. "Cansei de ver o governador Raul Barbosa (1951-1954) tomando café aqui", lembrou José Raimundo Mapurunga, 66.

Mas isso faz tempo. É daqueles anos em que ainda existia o Abrigo Central, point de Fortaleza da década de 1950. Quem conta essa história política melhor é Moacir Barroso, 79. "Naquele tempo, o (cine) Majestic era lindo que era danado", conta Moacir. Tinha também a farmácia Pasteur, o Pega-Pinto do Mundico, o Pedão da Bananada, o Hotel Savanah... O último ônibus saía só à meia-noite. Não tinha perigo não, garantem os senhores. Hoje, quando a Coluna da Hora marca seis da tarde, os praceadores começam a se despedir. São as mudanças dos tempos. E da praça.

Transformações que chegaram a esvaziar o local entre 1966 e 1991, quando o prefeito José Walter Cavalcante mandou colocar bancos de concreto e jardins suspensos, o que empatava a visão entre um lado e outro da praça. O Abrigo Central, construído em 1949 e xodó da turma mais antiga, foi dinamitado. A Coluna da Hora, erguida em 1933 no lugar de um coreto, deu adeus.

Na época da reforma era tempo de militar no poder. Há quem recorde com carinho. "Na revolução (1964-1985), o dinheiro dava. O Médici foi o melhor governo", relata José de Anchieta, 71. Outros não. "O pessoal era mais reservado, não conversava mais", reclama Araújo Cavalcante, 58.

Já no começo da década de 1980 a praça voltou a ter voz. A liberdade, por assim dizer, foi voltando. A movimentação melhorou em 1991, quando a praça passou por uma nova reforma. Bancos de madeira reconstruídos, mas nada de discursos em cima deles. A Coluna da Hora também voltou para marcar o tempo.

Em 1992, o Movimento dos Caras-Pintadas encheu a Praça do Ferreira de verde e amarelo. Parecia Copa do Mundo. O jogo era contra o presidente Fernando Collor de Melo, deposto naquele mesmo ano. De lá pra cá, grandes comícios que marcaram a mente do povo foram promovidos ali. O mais recente foi o do então candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

"Era gente chorando, gente gritando, gente de todo o jeito. Mas hoje o povo tá desacreditado na política, você vê pelo clima. Numa época dessa era um movimento de gente e hoje não tem mais", comenta Geralda Bezerra Sousa, 54, conhecida como dona Zilma, há quase 11 anos à frente de uma das bancas que fica na praça. "Acho que não é só a praça que não acredita mais nos políticos, acho que é o Brasil inteiro", analisou. Nessas eleições, nada de grandes atos por enquanto.

Clima político frio, mas as apostas já começaram. Assim que o sol desaparece, os apostadores da Praça do Ferreira começam a tomar conta do banco que fica ao lado da Banca do Bodinho. Pela manhã tem uma turma que também anda apostando por ali. O futebol é o tema preferido, mas quando a campanha começa fica impossível não arriscar uma grana em um dos candidatos.

As apostas lá estão assim: a preferência é Lula vencendo para presidente e Lúcio Alcântara (PSDB) para governador. Mas isso foi antes da pesquisa que mostra a reviravolta de Cid Gomes (PSB) nas pesquisas. Agora é que a bolsa de apostas vai esquentar.

Apesar da preferência pelo candidato tucano, os apostadores dizem que o páreo para governador tá danado. "Para governador a parada é duríssima", afirma Aloízio dos Santos, 43, conhecido como Cabeça, que "joga" na praça desde os 18. Ele arriscou R$ 2 mil na vitória de Cid. Já o corretor de apostas, José Nilo, 34, já arrecadou R$ 50 mil com Lúcio levando a melhor.

O aposentado Laerte Oliveira, 70, desde 1968 arrisca seu dinheiro na praça. Ele é um dos poucos que apostou, nestas eleições, na derrota de Lula. Se o presidente perder, ele ganha R$ 1 mil. "O meu partido é o PMDB, mas como ele tá com o Lula, eu tô fora".

No meio do macharal que vive a falar dos jogos de futebol e de política, o banco das apostas ganhou um toque feminino há três anos. Luiza Araújo, 36, que acompanha seu marido Marcos Mendonça nas apostas, também dá seus pitacos. Ela contou que ganhou R$ 12 mil apostando que a seleção italiana iria ser a campeã da Copa. "É muito difícil eu perder", garante. "Apostei R$ 1 mil como Lúcio ganha." Intuição feminina? Vai saber. Uma coisa é certa: mulher apostando na Praça do Ferreira é novidade. Eis mais uma mudança. E por aí vai.


NOTAS

RETOQUES
A Praça do Ferreira está passando por uma minireforma. Os bancos serão envernizados, a Coluna da Hora recebe reparos e o piso está sendo recolocado em alguns pontos.

DIA DO DINHEIRO
Um candidato com terno amarelo passeava solitário na tarde da última sexta-feira pela praça. Na sua frente, um apoiador empurrando uma espécie de mini-trio com suas propostas pregadas nas laterais. "No Brasil tem dia para tudo. Então irei por (sic) em prática o dia do dinheiro".

MAIS SILÊNCIO
A baixa movimentação de políticos deixa contente quem trabalha diariamente na praça porque o barulho diminuiu. "Tá mais calmo porque político não precisa fazer zuada", declarou José Pires Aguiar, 56, que frenqüenta a Praça desde os oito anos e que há 31 anos trabalha na Farmácia Oswaldo Cruz.

BOTICÁRIO FERREIRA
Natural de Niterói (RJ) e nascido em 1801, o Antônio Rodrigues Ferreira veio para Fortaleza como boticário do cônsul português Antônio Caetano de Gouveia. Foi eleito vereador da capital de 1842 até 1859, ano de sua morte.

A COLUNA
Um coreto no meio da Praça foi derrubado em 1933 para dar lugar à Coluna da Hora. O projeto foi feito pelo arquiteto José Gonçalves Justa, em estilo art-déco, com 13 metros de altura. O relógio de quatro faces era de origem americana, fabricado pela empresa Seth Thomas Clek Co., de Nova Iorque. Derrubada em 1966, com a reforma na administração de José Walter, a Coluna foi reerguida em 1991 com projeto de Fausto Nilo e Delberg Ponce de Leon.

TODOS OS NOMES
Até se chamar Praça do Ferreira, o logradouro já se chamou de Feira-Nova, Pedro II e Praça da Municipalidade. Somente ela 1871 ela ganhou o nome que tem hoje.

CAFÉZINHO
Os intelectuais costumavam discutir política nos cafés que ficavam na Praça e em seu entorno. Até 1920, existiam o Café Elegante, na esquina na Pedro Borges com Floriano Peixoto, o Iracema, na encruzilhada da Pedro Borges com Major Facundo, o Comércio, no cruzamento entre Major Facundo e Guilherme Rocha, e o Java, na esquina da Guilherme Rocha com Floriano Peixoto.

O ABRIGO
Construído em 1949, o Abrigo Central era o ponto de encontro das discussões políticas e encontros da sociedade. Nessa época, funcionavam no abrigo e em seu entorno os cafés Hawaí e o Wel-Can, a lanchonete Pedão da Bananada, a Livraria Alaor, a Banca do Bodinho e outros estabelecimentos comerciais. Em 1966, o abrigo deixou de existir devido a uma reforma.

MULHER EM CASA
O público que procura a Praça do Ferreira para bater papo é essencialmente formado por homens. As mulheres ficam em casa para não tomarem conhecimento.

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