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REPÓRTER DO SÉCULO

Contador de boas histórias

Cláudio Ribeiro, Demitri Túlio e Thiago Cafardo
da Redação

Com 52 anos de profissão, o jornalista e escritor José Hamilton Ribeiro venceu o prêmio Esso sete vezes - é recordista no País. Há 40 anos, perdeu a perna esquerda enquanto cobria a guerra do Vietnã. Hoje, com simplicidade e bom humor, dedica-se a contar as histórias da vida no campo


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14/07/2008 00:05

(Foto: FCO FONTENELE)
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(Foto: FCO FONTENELE)

O título do último livro de José Hamilton Ribeiro ilustra bem a sua importância para o jornalismo brasileiro: O Repórter do Século. Mas a história não termina aí. Aos 72 anos de idade - 52 de profissão -, ele continua em plena atividade, contando boas histórias sobre a vida do homem do campo no programa Globo Rural, da TV Globo. E ainda nem pensa em se aposentar. "Parar de contar histórias? Acho que ainda não", diz, cheio de energia. José Hamilton é repórter na essência, como mesmo gosta de frisar. Daqueles que fuça, investiga e conversa com todos ao seu redor.

Mas é impossível falar de José Hamilton Ribeiro e não lembrar do Vietnã. Convocado para cobrir a guerra pela extinta revista Realidade, em 1968, acabou perdendo a perna esquerda ao pisar em um campo minado. Durante os 15 dias em que foi correspondente de guerra passou por explosões, hospitais e quatro cirurgias. "Foram momentos de dor, morfina e náuseas", relata em seu livro. Hoje, 40 anos depois, Hamilton fala com tranqüilidade sobre o Vietnã.

Diz que não ficou traumatizado, mas conta que preferia não comentar o assunto quando voltou ao Brasil. "Não queria ficar conhecido como repórter de uma nota só", diz. Mas engana-se quem pensa que a guerra foi o momento de maior medo em sua carreira. "Que nada. Uma vez subi em um Jequitibá de 40 metros de altura. Foi o maior medo que passei na profissão", conta.

José Hamilton Ribeiro é alegre, humilde e cativante. Como bem resumiu o escritor Hugo Almeida no prefácio do livro O Repórter do Século, o jornalista vencedor de sete prêmios Esso - e tantos outros - é simples na mesma proporção em que é brilhante. Tão simples quanto o sertanejo que abre toda semana as portas de sua casa para contar mais uma história do campo.

E o que era para ser uma entrevista com a equipe do O POVO acabou se transformando num delicioso bate-papo. Os próprios repórteres, quando se deram conta, tratavam José Hamilton Ribeiro apenas como "Zé". Como se fossem conhecidos de longa data.

Zé, você gosta de dar entrevistas? Ou dar entrevista é o carma de todo jornalista?
(Risos) Eu me sinto um pouco apertado. Tenho medo às vezes de, no embalo, fazer alguma injustiça. Perguntar é mais fácil. Eu acho que pergunta boa é aquela que tem resposta. Não adianta nada você me perguntar sobre a bolsa de Chicago (risos). Outro dia encontrei no cinema o Eduardo Coutinho (documentarista), na estréia do filme dele. Trabalhamos juntos no Globo Repórter. Ele era produtor do programa. Não era conhecido pelo público. Aí eu disse para ele: "Hoje você é um nome nacional, conhecido. Por que isso?". E ele respondeu: "Ah! Zé Hamilton. É porque nós estamos durando muito (risos)". Na nossa profissão é muito normal o sujeito começar e, depois, vislumbrar uma oportunidade em outra área e sair do jornalismo.

Quando a revista Realidade lhe chamou para ir ao Vietnã você já tinha uma carreira. Mas depois disso é que ela começou a esquentar. Você foi ao Vietnã, perdeu uma perna e ganhou a carreira. Você já parou pra pensar se valeu a pena?
Acho que minha carreira teria uma trajetória completamente diferente. Agora, se eu iria para o Vietnã é uma pergunta complicada, pois eu teria que voltar à minha idade na época (32 anos). Era uma revista muito vibrante, muito ativa. A gente acreditava que poderia fazer algo importante no jornalismo, de ajudar a mudar o Brasil. Em 1968, quando o mundo se abriu o Brasil fechou. O Brasil anda sempre na contramão da história. É um país meio retardado mental. As coisas acontecem sempre com 50, 60 anos de atraso...

Mas você não se arrepende de ter ido?
Tem duas histórias que gosto de contar. A revista Realidade tinha uma equipe pequena, de umas 20 pessoas. Quando eu já estava no Vietnã, ferido, aconteceu um fato aqui. Um fotógrafo da redação, Geraldo Mori, fazendo uma reportagem de teatro, num ensaio de uma peça do Paulo Autran, foi subir em um lugar alto do palco e acabou caindo. Ele morreu por causa disso. Então, na estatística da Realidade, fazer reportagem de teatro é mais perigoso do que de guerra (risos). O momento de mais medo que passei na minha profissão não foi na guerra. Foi numa reportagem para o Globo Repórter. Fui subir em um Jequitibá de uns 40 metros de altura. A produção fez um andaime ao longo do tronco para a gente subir. E lá em cima fizeram um tablado no nível da copa da árvore. E esse tablado balançava muito, vacilava. Olha, foi o momento de mais medo que passei na profissão.

Uma matéria aparentemente sem riscos...
Pois é, sobre uma árvore. Outra situação de perigo que passei foi numa reportagem sobre piranhas no rio Paraguai. E para atrair as piranhas a gente tinha jogado metade de um porco na água. Estávamos no barco e, de repente, deu um balanço forte e eu caí na água. Eu e o câmera caímos, um para cada lado. A água era escura. Quando eu boiei, minha perna mecânica soltou. Eu vi minha perna boiando, afastando-se de mim. Eu esqueci a piranha e fui atrás da perna. Cheguei no barco de socorro antes do câmera, que se chamava Cardoso de Almeida. Ele usava uma peruca. Na queda, caiu a peruca dele. Quando ele foi encostar no barco de salvamento deixou a peruca pra trás e veio apressado e com a mão protegendo os "países baixos". Assim que subiu ele disse: "Olha, Zé, rio que tem piranha jacaré nada de costas (risos)". Mas as piranhas devem ter é se assustado com a gente.

É assim que você lida com essas situações de risco, sempre com esse humor, essa leveza?
Procuro não me levar muito a sério (risos). Mas falar sobre um momento de perigo depois é mais fácil.

Você contou em uma palestra da UFC que seu genro (Sérgio D´ávila, da Folha de S. Paulo) foi convidado para ir cobrir a guerra do Iraque. Ele procurou você para se aconselhar?
Procurou. Eu perguntei para ele: "o que você é na Folha?". Ele respondeu que era repórter especial. Eu disse: "Então, na hora do maior assunto jornalístico do mundo você é convidado e não vai? Você é repórter especial de que?". É aquela coisa: se o sujeito está vocacionado, ele está direcionado na gratificação que a profissão traz. Você leva os riscos da profissão como sendo ossos do ofício. Se você se assustar é sinal de que não está vocacionado. Mas também há outras funções dentro do jornalismo que também são importantes e não há riscos como esse.

Zé, quando você descobriu que era um bom contador de histórias?
Olha, foi algo que fui aprendendo com a profissão. Eu presto muita atenção nas pessoas.

Como você foi parar na Realidade, que era uma contadora de histórias?Eu comecei na Folha de S. Paulo. Depois de seis anos fui convidado a ir para a editora Abril, que estava lançando a revista Quatro Rodas. Demorei um ano para aceitar o convite do Mino Carta. Aquele grupo que estava na Quatro Rodas deu origem a duas publicações importantes da década de 60: a Realidade e o Jornal da Tarde. Eu fiquei na Quatro Rodas um tempo ainda. Mas antes mesmo de o primeiro número da Realidade ser publicado o Mino foi me buscar.

Qual você considera sua melhor contação de história no jornalismo?
(Risos) Gosto de algumas histórias. Uma vez, fazendo uma reportagem no sertão da Bahia, com um produtor de leite. Um homem muito simples. Ele disse pra mim: "Olha, José Hamilton, você precisa conhecer minha mulher. Vale a pena conhecê-la". Aí quando terminou o trabalho nós fomos até a casa dele. Quando chegamos na varandinha, a mulher veio conversar com a gente. Era uma loira muito alegre, decotada, expansiva. Ela se jogou pra cima de mim, me deu um abraço apertado. Abraçou o câmera, o motorista. E o marido olhava para ela apaixonado. Quando ela saiu para fazer o café ele se virou e disse: "Olha, Zé Hamilton, você tá vendo minha mulher. Mas não se iluda. Ela é muito alegre, extrovertida, mas é muito séria. Isso é normal, é da criação do mundo. Quando Deus moldou Adão, botou um balde de juízo do lado e jogou na cabeça dele. Aí o Adão saiu por aí e foi comer suas goiabinhas. Depois, Deus foi fazer a mulher e já exagerou nas curvas. Mas quando ele achou que a mulher estava pronta, ela acordou, viu que estava nua e saiu correndo. Mas Deus ainda conseguiu jogar um pouquinho de juízo nela. Só que pegou na cintura. Então, da cintura para baixo a mulher administra muito bem". (Risos)

Como é viver tanto tempo o dia-a-dia da vida no campo?
Eu me sinto muito bem, pois em geral são pessoas muito simples. Mas a gente encontra "nó-cego" também. Principalmente essas lideranças que têm por aí. Mas o homem do campo, o produtor rural, é normalmente muito hospitaleiro, gosta de contar segredos. É uma gente de trato muito fácil.

Você é um jornalista que tem um texto muito bom. Que caminho você percorreu para encontrar um texto assim?
Já li manuais de redação, fui professor universitário, aluno. Mas a coisa mais sintética que vi sobre isso foi do Chico Anísio. Ele acha que a pessoa nasce com um dom de observar bem e contar bem essas histórias. Eu tenho propensão a acreditar nisso.

Você gosta de dar conselhos, de fazer o que os manuais apresentam?
Não. Eu tenho muita dificuldade de fazer isso. Quando algum estudante me pergunta sobre a profissão eu digo que é difícil porque o mercado é muito restrito. E dentro dele a competição é muito grande. Ninguém se iluda que vai vencer com facilidade no jornalismo. Nem as mocinhas bonitas vão vencer com facilidade. É preciso ter talento também. Jornalista, para subir na carreira, tem que arranhar o muro com a unha. Tem que lutar.

Você é um jornalista que se atualizou dentro da profissão. Há muita gente que reluta em aceitar o novo?
A tecnologia eu uso. Mas não sou um propagandista da Internet. Ela é boa, mas pode se tornar uma armadilha para o jornalista. Existem muitas histórias, mas quantas são realmente verdadeiras? É uma ferramenta que você tem, mas deve ser usada com parcimônia. Se você se entregar a ela, quebra a cara. Na TV, hoje já estamos na câmera digital. Você pode editar esse material em casa mesmo.

Depois de tanto tempo de jornalismo, você virou notícia. O que hoje você não gosta mais de responder?
Também não me perguntam tanto assim (risos). Mas não existe pergunta indiscreta. Existe resposta inapropriada. Para uma entrevista ficar boa, depende de o sujeito ter boa resposta. Às vezes, a pessoa por fazer a previsão do tempo fica famosa e dá entrevista sobre qualquer coisa. Tem gente que me pergunta sobre agronegócio. Mas eu não entendo nem de agro, muito menos de negócios (risos).

Depois que você voltou do Vietnã, como foram seus dias aqui no Brasil?No Vietnã eu tive três medos: de morrer, de me tornar incapaz e de me tornar um repórter de uma "nota" só. Após a recuperação, comecei a me esforçar muito. Durante muito tempo me recusei a falar do Vietnã. Não queria que as pessoas só falassem de guerra comigo. Mas hoje deixei esse grilo para trás e falo do Vietnã sem nenhum constrangimento.

Você era muito boêmio?
Eu gostava muito de música, de bar. Mas eu casei cedo, logo tive filho. Então essa parte de boêmio ficou para trás. Infelizmente (risos)...

Como você vê o jornalismo hoje no Brasil?
Acho que o impresso não está num bom momento. O problema é que as empresas se envolveram em negócios fora do jornalismo e se endividaram. Com isso, comprimem no jornalismo, na redação. Não há grandes reportagens. Você não vê isso.

E a televisão, como está?
As televisões de Rio e São Paulo não cobrem o Brasil como deveriam, não conhecem o País. É um jornalismo muito concentrado. E a TV tem essa tendência de cobertura nacional, por causa das redes de afiliadas. Ninguém sabia que nevava em Santa Catarina antes da chegada das afiliadas, por exemplo.

Onde é mais fácil contar boas histórias no jornalismo? Na TV ou no impresso?
Olha, a luta na TV é grande. O problema é o tempo. A maioria das minhas reportagens são cortadas em pelo menos um terço. Então, toda parte mais curiosa acaba sendo sacrificada. E se você tem uma imprensa escrita com vontade de fazer boas reportagens, o espaço não é problema. Há outros problemas, mas não a falta de espaço.

Você já passou pelo rádio?
Quando eu era estudante, precisava ganhar algum dinheiro. E pintou uma vaga de redator na rádio Bandeirantes, da meia-noite às 6 horas. Nas primeiras vezes eu trabalhei a noite toda. Depois, o locutor falou pra mim: "Deixa de ser bobo. Escreve as notícias aí e vai dormir. Se acontecer alguma coisa eu te chamo". (risos)

Como você saiu de Santa Rosa de Viterbo e foi parar em São Paulo?
Saí para estudar mesmo. Era uma cidade muito pequena, de dois mil habitantes. Só tinha o curso primário. Saí com 11 anos para estudar e nunca mais voltei para morar. Só para passar férias.

Quando jovem você tinha essa visão de mudar o mundo, poder fazer as coisas diferentes?
Sim. Uma vez me perguntaram o que leva uma pessoa a trabalhar numa situação de risco. Eu digo que é um pouco de vaidade, um pouco de espírito de aventura, um pouco de ambição de subir na profissão, uma pitada de falta de juízo e uma certa noção romântica. O repórter tem aquele sentimento de testemunhar a história e de denunciar o que vê de errado, os abusos. Tem que denunciar o uso abusivo do poder.

Quando você pensa em se aposentar, Zé?
De parar de contar histórias? Não sei... Acho que ainda não.


Uma parte da entrevista com José Hamilton Ribeiro foi feita no restaurante do hotel onde o jornalista estava hospedado, na Beira Mar. O restante ocorreu dentro do veículo, a caminho do aeroporto Pinto Martins. A equipe do O POVO se encarregou de levar José Hamilton ao aeroporto. Antes do embarque, todos tiraram fotos com o jornalista e ganharam autógrafos na contra-capa do livro O Repórter do Século.

Durante a entrevista, José Hamilton Ribeiro interrompeu o bate-papo várias vezes para atender o telefone celular. A maioria das ligações era de estudantes de comunicação tentando agendar uma conversa com o jornalista. Bem-humorado, Hamilton disse após encerrar uma ligação: "Esses TCCs (Trabalho de Conclusão de Curso) são uma praga", disse ele, emendando uma sonora gargalhada.

José Hamilton Ribeiro tem 52 anos de jornalismo - 72 de vida. Nasceu em 1935, na cidade de Santa Rosa de Viterbo, interior de São Paulo. Formou-se na faculdade Cásper Líbero, de São Paulo. Entrou na Folha de S.Paulo em 1956. Em 1962, transferiu-se para a revista Quatro Rodas. Chegou à revista Realidade em 1966, dois anos antes de cobrir a guerra do Vietnã. Trabalhou, ainda, na revista Veja antes de chegar à TV Globo, em 1981.

O jornalista também é bacharel em Direito, mas não chegou a trabalhar na área. Além de ser "repórter na essência", como ele mesmo gosta de frisar, José Hamilton Ribeiro foi professor universitário das faculdades Cásper Líbero e Faap, além de membro da Comissão de Avaliação da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo (SP).

Com sete prêmios Esso, José Hamilton é recordista no País. Ele conquistou o prêmio em 1963, 1965, 1967, 1968, 1969, 1970 e 1977. Recebeu, em 2005, uma placa comemorativa pelos 50 anos do evento. No autógrafo que deu ao jornalista Demitri Túlio, do O POVO, escreveu: "No aguardo de que, ainda este ano, você chegue ao meu número de Essos. E com a certeza de que só não me passará se o prêmio acabar". Demitri tem seis prêmios, assim como Cláudio Ribeiro.

Os 25 anos de reportagens para o Globo Rural renderam para José Hamilton, além de boas histórias, vários livros relacionados à vida no campo. Um deles, lançado em 2006, reúne as 270 maiores modas da música caipira do País. Ao longo da carreira, o jornalista tem 10 livros publicados.

O livro mais recente escrito por José Hamilton Ribeiro é o "Repórter do Século", que traz as sete reportagens que conquistaram o prêmio Esso, além do texto publicado sobre a guerra do Vietnã na revista Realidade. O jornalista foi eleito a "Personalidade do Ano" na comunicação em 1999.

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