Viviane Lima
da Redação
Aos 76 anos, Narcélio Limaverde se orgulha de ainda estar em atividade. Nos 54 anos de carreira, ele já passou pelas maiores rádios AM do Estado e também teve experiências em jornais e na televisão. Narcélio é referência ainda quando o assunto é a Fortaleza de sua infância, de um tempo de cordialidades e de mais solidariedade
30/06/2008 02:20

Narcélio Sobreira Limaverde, de 76 anos, é um homem apaixonado. Seu primeiro amor foi pela cidade em que nasceu. Da Fortaleza de sua infância guarda lembranças quase tangíveis para quem o ouve contá-las. Quase se experimenta as brincadeiras de infância, a macaca (amarelinha), a arraia, o castelo, o futebol de campo. Do tempo de rapazinho, as memórias dos cinemas de bairro, oportunidade para embalar as primeiras paixões das moças e rapazes da redondeza da rua Imperador, no Centro.
Memorialista, Narcélio não se cansa de recordar do bairro então cheio de efervescência onde famílias mais abastadas e mais humildes compartilhavam em harmonia o dia-a-dia. Gosta de lembrar das bodegas e mercearias e dos personagens que passaram por lá. Memória de um tempo em que as pessoas tinham identidade com o local em que viviam.
Foi também nesse tempo que Narcélio foi seduzido por uma nova paixão. Na verdade, um amor que nasceu em casa. Filho do radialista José Limaverde Sobrinho, Narcélio já nasceu embalado pelas ondas da rádio AM. Mas não foi o pai quem o incentivou a seguir a trilha. Fez concurso para a Ceará Rádio Clube, passou em terceiro lugar e esperou uma vaga. Assim, ela veio e hoje são 54 anos de romance. Hoje, orgulha-se de ser um dos radialistas mais antigos em atividade. "Coisa pra entrar no Guiness Book", gaba-se. Sua trajetória passa pelas principais rádios AM do Ceará, por canais de TV e hoje está inclusive em uma FM (Assembléia), coisa que antes parecia impensável. A popularidade ganha o seduziu e o levou a mais um amor arrebatador. Mas que, dessa vez, não teve um final feliz.
Candidato a vice-prefeito em 1985, a chapa de Narcélio perdeu a eleição. Mas seu nome já tinha apelo eleitoral e resolveu tentar sozinho a trajetória. Candidato a deputado estadual, foi eleito com mais de 30 mil votos. Mas na reeleição, ironia do destino ou não, levou o fora das urnas. Recebeu pouco mais de 10% dos votos da primeira eleição. Narcélio não esconde que se decepcionou com a política. Assume seus erros e não se envergonha de dizer que não se enveredaria novamente nessa paixão. Arriscada demais e "pra quem tem jogo de cintura", mas não era desses tipos. Hoje, no rádio, seu vício como bem assume, e fora dele, ao lado da esposa Helenira, dos quatro filhos e netos, continua se apaixonando pela vida.
O senhor morou muito tempo no Centro, na rua do Imperador, e o senhor fala muito dessa época...
Eu falo muito na rua do Imperador porque lá nós moramos em dois locais. Um que hoje em dia é o (colégio) 7 de Setembro, na rua do Imperador, entre as avenidas Clarindo de Queiróz e Duque de Caxias. O número da casa é 1.055. E a outra 1.164, mesmo defronte à antiga Igreja de São Benedito. Então a minha infância toda aconteceu na Imperador.
E o senhor nasceu lá também?
Não, nasci na rua 24 de maio, também no Centro. Uma rua residencial mas com algumas bodegas e mercearias. Bem próximo das ruas Duque de Caxias, Imperador, Tristão Gonçalves, 24 de maio, Princesa Isabel.
Quais são as lembranças mais fortes da sua infância?
Eu me lembro muito que tinha a fábrica do Tó (abreviação de Antônio) Diogo. Diogo era uma família muito importante e rica. Tó Diogo era filho do Antônio Diogo que deu nome a um distrito de Aracoiaba, onde ainda hoje existe um leprosário mantido pelo Diogo. Então, a fábrica dele tinha uma sirene que apitava às dez e meia da manhã. E isso chamava muita atenção porque nós todos sabíamos, sem termos relógio, que era dez e meia por causa da sirene. E o que também marcou muito a minha infância foi a bodega de seu Gambetá. Era uma loja de secos e molhados que tinha tudo, e os funcionários, praticamente todos, eram sobrinhos ou filhos dele. Seu Gambetá foi o pai do padre Arquimedes Júnior, um religioso muito importante nessa cidade. E também foi pai do Roberto Bruno que era médico e foi jogador de futebol (zagueiro da seleção cearense e do time Maguary Sport Club). Seu Gambetá foi quem inaugurou o doce gelado. O doce gelado eram aquelas pedrinhas de gelo feitas numa fôrma - porque ainda não tinham inventado esse redondo, o chamado picolé. O doce gelado era comprado na caderneta de fiado. Recordo que na minha casa tinha duas pitombeiras. Um tempo a gente inventou de comercializar essas pitombas, lá na bodega... De meia em meia hora, a gente ia lá olhar pra ver se já tinha vendido alguma coisa. Eu sempre fui um péssimo comerciante. Lendo comerciais no rádio até que vendo, mas ao vivo, não.
E das brincadeiras de criança. De que os meninos daquela época brincavam?
colocou "festival de pipa na Praia de Iracema" e eu fiquei chateado. Aqui é arraia não é pipa. Existia também o futebol na calçada que era na calçada da casa do Inácio Parente, dono da Casa Parente, onde hoje funciona o (Colégio) 7 de Setembro, aquele ao lado do Patronato das irmãs de caridade. E também a gente brincava de castelo. Pegávamos uma lata pequena, enchia de sabão pra ficar pesada. No chão, desenhávamos um triângulo. Em cada canto e no meio ficava uma castanha de caju. Ganhava quem acertasse o maior número de castanhas com a lata. Agora o futebol tinha predominância.
E o senhor era um bom jogador?
Eu fui um bom goleiro, pequenininho, mas um goleiro bom. Eu era um goleiro que tainhava nos pés do jogador. Tainhar é quando o jogador vem com a bola e o cara vai pra cima dele, não fica esperando que ele chute. Mas uma vez me botaram pra jogar de meia-direita e eu era mais goleiro. Foi no campo do Colégio Cearense, onde eu estudava... Aí quando o cara reclamou, o dono do time, que não era técnico, era o dono da bola, que era pra eu buscar a bola lá na defesa, lá atrás. Obedeci e fiz um gol contra. Foi um desastre (risos). Terminei a minha carreira de jogador. (risos)
Hoje, essa convivência entre ricos e pobres é mais difícil, já que a maioria das pessoas de classe mais baixas foram, de certa forma, deslocadas para as regiões periféricas...
O bairro dos ricos naquela época era Jacarecanga, depois a Aldeota... Sabe como é que minha mãe, dona Ledinha, chamava a Aldeota? Cemitério dos vivos. Sabe por quê? Por que não botavam cadeira na calçada.
Então, essa divisão ocorreu por que a cidade cresceu e houve esse espaçamento mesmo ou porque a cidade ficou mais desigual?
Eu acho que ela cresceu e ficou desigual. O negócio está terrível. Hoje a gente tem medo de sair de casa. Quando eu era jovem, a gente ia a pé para o Maguary (Sport Club), que ficava ali perto no 23 BC (Batalhão de Caçadores), na Barão do Rio Branco (hoje fica a Coelce). Aí, no final da festa, sabe o que a gente fazia? Ia eu e um amigo meu. Ele me perguntava: 'Rapaz, a gente vai de sanduíche ou a pé?' Eu respondia: 'De sanduíche'. O sanduíche cai duro era comprado, partia no meio - que a gente só tinha dinheiro pra comprar um sanduíche - e ia a pé. Ele morava no Otávio Bonfim, eu morava na rua Clarindo de Queiroz, já chegando na praça São Sebastião. E era naquela maior escuridão porque não tinha essa iluminação como hoje em dia e nunca aconteceu problema. E não era só uma vez não. Porque não era toda vez que a gente tinha dinheiro pra pegar transporte. Não havia táxi, era carro de corrida. A vida era assim. A cidade era tranqüila. Eu digo que eu sou do tempo que quando você gritava pega o ladrão, o ladrão corria. Então, naquele tempo, até os ladrões eram mais amigos, né?
algumas crônicas que contavam o clima dessa época. Em uma delas, o senhor fala da saudade dos cinemas de bairro. Hoje, eles foram substituídos pelas salas de cinemas nos shoppings. O senhor sente saudade desse tempo?
Ah, eu ia ao cinema segunda-feira e de tanto comparecer já conhecia as vozes dos artistas. Tinha o Charles Boyer, que tinha a voz muito grave, o Hunfrey Bogart, o astro de Casablanca. Conhecia todos pela voz. Às vezes, os colegas perguntavam: - E agora, Narcélio? Eu dizia é fulano de tal, é fulano, é Dorothy Lamour, que eu era apaixonado por ela. E quem não era? Ia muito ao cinema. Eu ia muito no Cine Centro, na Tristão Gonçalves com Duque de Caxias, que uma empresa que vende material de construção demoliu. Achei um absurdo. Vejo que as grandes lojas aproveitam o arcabouço de uma coisa antiga e modernizam dentro. Infelizmente, o Centro foi destruído. Esse era o cinema que a gente mais freqüentava. Filmes mexicanos, brasileiros e série (filmes em capítulos, como as novelas de hoje), a fila arrodeava o quarteirão. E a partir da tabuleta que era colocada na esquina do seu Gambetá, a gente sabia qual era o filme do dia. E um deles foi um escândalo. Nunca houve uma mulher como Gilda, com a Rita Hayworth. E todos nós nos apaixonamos por ela. Naquele tempo você mandava buscar retrato de artista e vinha: 'To Narcélio, sincerely, fulano de tal'. Elas mandavam pra gente (risos). E o cinema era também um refúgio dos namorados. Eu me lembro que nesse tempo, as moças, as namoradas da gente, ou iam escondidas ou com o irmão menor. O irmão menor, a gente comprava com bombom, guloseimas ou chocolate. Mas quando era irmão maior, a gente não comprava de jeito nenhum. (risos)
O senhor acha que nessa Fortaleza as pessoas eram mais cordiais, viviam mais em comunidade?
Eu moro num prédio de apartamentos e eu ainda me encontro com a minha vizinha. Não vejo costumeiramente os outros moradores. Então esse convívio diminuiu. Antes a gente ia nas casas e não precisava nem ligar avisando. Hoje em dia, se você vai na casa de alguém, tem que avisar. Na Europa, nem um filho vai na casa do pai sem avisar. Nós estamos quase chegando a essa situação. Eu acho que isso também se deve à velocidade do tempo... As pessoas não têm mais tempo.
Quando sua família morava no Centro, vocês viviam no mesmo bairro de famílias mais ricas, mas vocês não eram ricos. Como era esse convívio?
Minha família não era miserável, mas também não tinha folga. Na minha rua, tinha gente rica. Tinha o dono de grandes empresas, a Cidao, cujos donos eram da família Moreira, de Iguatu. Tinha um empresário de uma grande loja de tintas, Pedro Américo. O vizinho, seu Gadelha, dono de plantação de cera de carnaúba, a grande riqueza da época. Sabíamos que era surdo e falava muito alto. Porque a nossa rua era de classe média alta, com algumas pessoas ricas. Mas, por exemplo, meu pai era bancário e radialista. Depois ele deixou o banco e acabou sendo funcionário da Cenorte (Companhia Elétrica do Norte), uma empresa de eletricidade. Quando meu pai morreu em 71, morreu mais novo que eu, num domingo, ele tinha trabalhado até tarde no sábado.
O seu pai apresentava um programa na rádio chamado Bazar de Música...
Era a festa dos fins de semana. A gente perguntava: - Hoje tem bazar? Aí, ia todo mundo pra esse bazar pra dançar ao som do rádio. E eu achava que porque meu pai era apresentador, aí eu tinha direito de ir. Eu dizia: Olhe meu pai é quem está falando aí dentro, aí eu entrava sem nenhum problema. Curioso também era o Batista. Ele tinha um som, vitrola, picape e bateria. E nela acompanhava as músicas. Eram festas animadíssimas as da bateria do Batista.
Apesar do seu pai ser radialista, o senhor disse, em algumas outras entrevistas, que ele não o incentivou a seguir a carreira. Por que então o senhor escolheu o rádio?
Talvez ele nem quisesse, fosse como eu. Eu tenho um filho chamado Narcélio Lima Verde Filho, mas ele nunca pendeu pra área. Ele é advogado. Naquele tempo, em 1953, eu soube que ia abrir um concurso para a Ceará Rádio Clube. Eu era funcionário da Secretaria do Interior e Justiça, que funcionava no quarto andar do prédio da polícia central, na Praça dos Voluntários, no Centro. Aí, eu soube que ia ter esse concurso, eu fui lá, me candidatei e fiquei em terceiro lugar. E o Paulo Cabral... Paulo Cabral foi um nome famoso do rádio, um dos grandes jogadores dessa terra, foi presidente do Fortaleza... Aí quando terminou, Paulo Cabral (então diretor da Ceará Rádio Clube) e o Dr. Manuelito Eduardo Campos Pinheiro(jornalista falecido no dia 19 de setembro de 2007) disseram: 'Olha, se algum dos três não continuar, você vai ser chamado'. Aí eu fui chamado. Enquanto isso, eu fui me oferecer na Rádio Iracema... Fui tentar, como na época era tudo de graça, ninguém ganhava nada, arrisquei, não estava fazendo nada mesmo. Um dia o diretor me disse que eu não dava pra isso. Foi uma das maiores ofensas da minha vida. Mas eu fiquei tão sem gosto porque de uma certa maneira, ele tinha razão. Quando eu comecei no rádio, um dos grandes nomes do rádio era João Ramos, o Almir Pedreira, o Aderson Braz e Mozar Marinho (já falecidos). Todos tinham voz grave. Eu não tenho voz grave e o meu pai também não tinha essa voz que eu tenho, mas ele tinha mais potência. E aconteceu algo interessante quando eu fui chamado pra Ceará Rádio Clube, depois que eu fui refugado da Rádio Iracema. No dia da estréia, meu pai, quando chegou em casa, disse pra minha mãe... (emociona-se) Ele disse: 'Narcélio nunca vai cansar trabalhando, ele tem um estilo diferente'. Não sei se você já ouviu. Eu converso no rádio. Eu tenho uma linguagem coloquial. É uma linguagem coloquial. Como é assim que eu me sinto à vontade, eu acho que os ouvintes se sentem à vontade também.
Em 1980, você tinha um programa na rádio Verdes Mares em que o senhor ia aos bairros ouvir a população e levar serviços. De onde surgiu essa idéia desse tipo de programa?
Eu fui pra lá em 1970, participar da implantação da TV Verdes Mares, levado pelo Edson Queiroz e Astrolábio de Queiroz (então proprietário e superintendente da Verdes Mares, respectivamente). Mas depois, eu estive poucos meses fora (Narcélio havia saído da rádio Verdes Mares em 1979 para trabalhar na TV Uirapuru, recém implantada) e quando retornei, foi pra lançar um tipo de programação que até 1980 era proibida por causa da ditadura. Foi o tempo da abertura.
E a idéia foi sua?
Foi num encontro que eu falei no assunto, por isso eu credito a todos a idéia do programa. Ao Astrolábio Queiroz, que já morreu, Mansueto Barbosa, que já morreu, e ao Edilmar Norões (diretor do Sistema Verdes Mares de Comunicação e presidente da Associação Cearense de Emissoras de Rádio e Televisão). Mas foi uma forma de inovação, principalmente, porque foi na época em que houve a aproximação do povo com o profissional de rádio.
Nesse tempo, o profissional do rádio era visto pelos ouvintes como um artista, um amigo. Como era a imagem desse profissional junto ao seu público?
Um artista. E eu também tive um grave defeito antes de entrar no rádio. Eu achava que os homens de rádio não tinham nada na cabeça, que eles não eram uma pessoa pra escrever seus textos, que eles liam o que os outros escreviam. Quando eu cheguei no rádio, eu tive uma grande surpresa. Encontrei o João Ramos escrevendo. E eu, que era conhecido como um cara tímido e calado, acabei também escrevendo. Porque o Guilherme Neto (cantor e produtor), uma vez me disse: 'Por que é que você mesmo não escreve seu noticiário?' E eu comecei a escrever. Como nós lemos muito, a gente acaba aprendendo escrever. Embora eu não seja um purista da língua. O que eu escrevo é assim... Hoje, eu sou completamente computador. Eu sento e escrevo. Não tenho esse negócio de anotar, não. Eu me sinto muito à vontade em escrever. Tanto é que na abertura do programa da FM Assembléia 96.7 MHz, eu conto uma história sobre Fortaleza. A abertura é uma crônica sobre Fortaleza.
Mas com a projeção que o senhor ganhou nesse programa que era realizado nos bairros, o senhor acabou entrando na política. Eram seus planos?
O Paes de Andrade (ex-embaixador brasileiro em Portugal) ia ser candidato a prefeito. O Edilmar Norões era colunista político (e dirigente da Verdes Mares). O Paes conseguiu, juntamente com o Edilmar, que eu entrasse no assunto (entrar na chapa para ser candidato a vice). Eu não estou dizendo que eles me obrigaram, não, eles me influenciaram. E em determinado momento, o Adauto Bezerra, que era o vice-governador do Gonzaga Mota, lançou o Lúcio Alcântara (ex-governador do Ceará), que na época era do PFL. Aí nesse dia, eu liguei para o Paes de Andrade e disse que não ia mais não. E ele não gostou. Aí ficaram me procurando até que me encontraram. E no dia da reunião, estava a alta cúpula da empresa (do Sistema Verdes Mares) pra me fazer mudar de idéia.
Então, o senhor era da chapa quem era mais popular. O Paes de Andrade não tinha o carisma que o senhor tinha?
. Na época, o Sinfrônio (chargista) fez uma charge comigo carregando o Paes no tum-tum (nas costas) pra você ter uma idéia do que era na época. Mas nós perdermos (Maria Luíza Fontenele, candidata do PT na disputa, ganhou) . E ainda houve um problema muito sério. Foi no Bom Dia Ceará, que eu apresentava (depois da saída do Rui Lima). No dia de entrevistar o Flávio Marcílio (político já falecido), que também foi candidato na época e era presidente da Câmara. Aí, eu fiz a pergunta pra ele: Flávio, seu partido perdeu, não foi?. E ele disse: 'E o seu não perdeu por causa de você'. Aí eu procurei o Edilmar: 'Não posso continuar apresentando o Bom Dia Ceará não. Estão me unindo à política, eu acho que não é interessante profissionalmente'. Ele disse: 'Não, deixe de besteira. Não ligue pra isso'. Mas eu fiquei feliz com isso. Então, isso foi mais um motivo pra eu me candidatar a deputado. Na época, foi um bocado de voto que saiu. Foram 35, 36 mil votos. Não sei ao certo. Mas na minha reeleição, não tive nem 4 mil.
Você tem uma certa mágoa da política, ressentimentos?
Não. Eu acho que a política é muito difícil. Eu não dei para aquilo, não aceitei ser monitorado e eu admito que as pessoas tenham que fazer isso, tentaram fazer comigo, mas eu não aceitei. Eu tive choques por causa das imposições.
O senhor disse uma vez que pra fazer política, tem que ter muito jogo de cintura...
Tem que ter muito jogo de cintura e vou dizer, eu gosto muito de responder, eu gosto de dizer pra pessoa que perguntar o que é isso aqui. É assim, assim, assim. O político, já prestou atenção, não faz isso. Uma vez um cara na Assembléia me abordou dizendo: 'Eu tô sabendo que você foi na casa do Virgílio Távora'. Eu disse: 'Fui'. 'Ah, mas nós não somos do mesmo partido'. Aí eu disse: 'E daí, eu não tenho nada a ver com isso, não. Fui e vou'. Pra mim, Virgílio foi o grande nome da política cearense. Mas aí eu senti que ali era um patrulhamento em cima da gente. Por exemplo, se eu sou um deputado do PMDB, todo mundo do PMDB é bom. Lá dentro, não tem ninguém ruim.
Mas o senhor não entrou sabendo que era assim? Que o senhor teria que obedecer às determinações de seu partido?
Não, mas a minha vontade suplantou a minha preocupação. Eu nunca tive problema em dar a minha opinião. Sabe como eu votava contra o governador na época que era o Tasso (Jereissati, hoje senador pelo PSDB)? Eu mostrava o voto. Vou votar contra porque eu estou convencido que não está correto o que ele está fazendo nesse projeto.
Mas então o senhor entrou na política por acaso? O senhor não tinha pretensões políticas antes ao fazer aquele tipo de programa popular, de levar serviços às comunidades mais pobres?
Não. Tem gente que acha que todos nós que fomos políticos vindos do rádio aproveitamos da nossa profissão. Eu sinto que eu fui impelido, eu fui levado a entrar. Ou eu entrava ou então aparecia como covarde, como um cara que não queria enfrentar.
Mas hoje em dia isso também é comum. Profissionais de comunicação que têm um trabalho com o público, de serviço, entram na política. O senhor acha que isso é um erro?
Eu acho que a pessoa que tem essa vocação, de fazer esse tipo de trabalho, que ajuda, que promove o exercício da cidadania, tem de fazer. Mas se ele se candidatou e foi eleito, ele tem de deixar a profissão. Eu não agüentei deixar a profissão, continuei fazendo tudo, inclusive programa em rádio.
O senhor acha que houve uma orquestração para o senhor não ser reeleito deputado estadual?
Querem atribuir isso a uma pessoa. Mas eu disse que não. Não é possível que uma pessoa de tão alta importância se preocupasse comigo. Talvez como aconteceu com Getúlio Vargas, que os assessores, os guarda-costas, pensavam que ele queria que eles matassem o Carlos Lacerda (Lacerda foi o grande coordenador da oposição à campanha de Getúlio à presidência em 1950 e durante o mandato do presidente até 1954. Sofreu um atentado a bala no dia 5 de agosto de 1954, mas não foi atingido. Vargas pediu a instalação de um Inquérito Policial Militar que comprovou o envolvimento de membros da Guarda Pessoal do Presidente no crime). Aí, no meu caso, a pessoa que acusam, talvez não tenha pensado, mas os que ficam ao redor talvez pensaram que ele gostaria que eu não fosse reeleito.
O senhor não diz quem é?
Não...
Se fosse hoje, o senhor faria a mesma coisa?
Política não. Mas eu admiro e não acho que todo político é desonesto. Você encontra muito político competente e até desprendido. Muitos que deixaram a sua verdadeira profissão e, hoje em dia, são completamente dedicados à política.
Mas você nutria uma vontade de ser prefeito de Fortaleza?
Não, eu tinha medo. Eu sabia que o Paes sendo eleito prefeito, ele sairia no meio do ano para se candidatar a governador e eu assumiria. Então, eu vivia preocupado com isso. Porque é muito difícil a pessoa administrar uma cidade ou um Estado. E eu tinha medo de não ter competência.
O senhor saiu da Assembléia há 18 anos, quando deixou de ser deputado estadual. Hoje, o senhor apresenta um programa de rádio na Casa. Como foi esse retorno ao ambiente parlamentar?
Sou um radialista teimoso, né? (risos). Trabalho com liberdade... Quando um estudante me pergunta: 'E tem censura no rádio?' Eu respondo: 'Tem'. Eles olham assim. Aí eu emendo: 'Depois que a gente já disse quatro vezes'. Porque o rádio é muito imediato. Eu posso de uma hora pra outra dizer algo que não agrada a todo mundo, não posso?
Hoje, Narcélio, como você se atualiza?
Computador de madrugada, até as quatro e meia, cinco horas. Antes de andar, que eu ando pelo menos 50 minutos, 50 minutos pra mim são cinco quilômetros. Agora está mais cedo por conta da rádio da Assembléia. Primeiramente, eu ouço as rádios todinha de madrugada, eu tenho um fone, eu não incomodo nem minha mulher.
Você é viciado em rádio? De fazer e de ouvir?
De ouvir e de fazer. Eu ouço. Eu leio os jornais. Eu leio tudo, muitas vezes eu leio até os anúncios populares. Eu leio tudo, jornal e revista.
O senhor já manifestou, no passado, o seu temor com relação à sobrevivência da rádio AM. Hoje, o senhor acredita que o rádio vai se manter?
O rádio é tão atual, que hoje em dia, qualquer pessoa com um telefone celular pode fazer um programa. É importante o imediatismo do rádio. O rádio é tão íntimo que a gente leva até para o banheiro. (risos)
SERVIÇO
Em 1980, Narcélio começou a fazer um programa na Rádio Verdes Mares no qual ele levava serviços, como retirada de carteira de identidade, atendimento odontológico, atrações, para comunidades mais carentes. O primeiro programa foi na Feira dos Municípios. O segundo programa foi no Conjunto Ceará. Foi nesse tempo que ele ganhou mais popularidade. Tinha ouvintes do Interior que vinham só conhecê-lo.
RÁDIO, TV E JORNAL
Narcélio Limaverde começou a carreira na Ceará Rádio Clube, passou pela Rádio Dragão do Mar, Rádio Verdes Mares, Assunção. Teve experiências em TV e escreveu em jornais. Hoje, ele faz programas na Rádio POVO/CBN e na Rádio FM Assembléia 96.7.
DEPUTADO
Depois de perder as eleições de 1985 na chapa com Paes de Andrade para a Prefeitura de Fortaleza, Narcélio Limaverde foi eleito deputado estadual pelo PMDB em 1986, com os também radialistas Gomes Farias, seu correligionário, e Edson Silva, eleito pelo PDT. Na mesma eleição, Cid Carvalho, que era na época repórter policial, foi eleito senador.
FRASES:
Durante a entrevista, Narcélio Limaverde faz questão de falar da importância de sua mulher, Helenira, com quem está casado há 50 anos, na sua vida profissional. “Ela enfrentou momentos difíceis comigo. Continuo nesta batalha de vida graças a ela”. O radialista também lembra dos filhos Sérgio, Adriana, Vládia e Narcélio Filho, a nora Máurea, os genros Luciano e Nearco e os netos Luciana, Isabela, Marcela, Joana, Natália e Igor.
Narcélio não esconde o orgulho de ainda estar em atividade aos 76 anos. Hoje, ele faz o programa Tarde do Povo, na rádio O POVO/CBN, e o Programa Narcélio Limaverde, na Rádio FM Assembléia 96.7 MHz. Narcélio também é ouvinte assíduo de rádio, inclusive durante as madrugadas.
O radialista é referência hoje quando o assunto é a Fortaleza antiga. Ele é atento e não se esquiva de ligar para O POVO quando alguma matéria comete alguma imprecisão sobre a época.
Narcélio tem um vasto currículo. Além do rádio, ele ajudou na fundação da TV Verdes Mares, TV Canal 8, e ainda participou da Norton Publicidade e trabalhou em relações públicas. Mas ele diz ter a frustração de não ter feito vestibular para comunicação social. Ele chegou a cursar administração, mas desistiu.
Narcélio admite que é viciado em rádio: de fazer e de ouvir. Mas também procura outros meios para se manter informado. “Eu leio tudo, muitas vezes eu leio até os anúncios populares. Eu leio tudo, jornal e revista”.
No rememorar de sua trajetória profissional, Narcélio faz questão de frisar o nome de amigos que trabalharam com ele ou fizeram parte de algum momento de sua vida. Com uma memória prodigiosa, ele lembra de nomes, sobrenomes incluindo de personagens de sua infância.