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FURTO AO BC
"O crime não compensou"
O chefe da investigação sobre o furto milionário ao Banco Central, delegado Antônio Celso dos Santos, diz que os vazamentos de informação atrapalharam o trabalho da PF nos dois anos e meio de caso. Para ele, o golpe fracassou
Cláudio Ribeiro, Demitri Túlio e Rafael Luis
da Redação
24 Mar 2008 - 02h04min
Certeza de que viria trabalheira grande pela frente, para identificar e prender os acusados, a direção geral da Polícia Federal definiu que seria obrigatório recuperar o máximo possível do que fora surrupiado. Para que outras ações criminosas não passassem a ser financiadas a partir daquele golpe. O furto ao BC precisaria ser um marco no modo de agir contra o crime. Desde então, já são dois anos e meio no caso. Um trabalho sorrateiro, meticuloso, paciente, silencioso. Como foi a estratégia usada pela quadrilha.
Enquanto todos deram a ação como espetacular, astuciosa, cinematográfica, irrepreensível, e realmente cabiam tais descrições ao crime, a PF levou a investigação num ritmo disciplinado e discreto. Para que as coisas ocorressem sem atropelos. Mesmo assim, o delegado admite que sua equipe chegou a ser muito prejudicada por vazamentos, seqüestros, prisões antes da hora, notícias que iam para a imprensa e atrapalhavam.
Na linguagem de pescador, se diz que a Federal liberou a linha e o anzol para só fisgar os peixões no melhor momento. E todos foram sendo fisgados. Já são 68 pessoas processadas, 17 sentenciadas. O mais recente capturado pela PF foi justamente um dos peixões, o cearense Antônio Jussivan Alves dos Santos, 41, o "Alemão".
Ao ser preso no final do mês passado em Taguatinga, no Distrito Federal, bem perto do QG da PF, o cearense curtia a vida e os milhões recebidos na partilha. A PF acredita que Alemão tenha levado R$ 10 milhões, ele só admitiu a metade. O delegado chegou a visitar uma casa adquirida por Alemão, em Mato Grosso, como falso comprador. O cearense é apontado como o grande mentor do megafurto.
O delegado exalta o feito. “Estamos mostrando nessa investigação que mesmo eles tendo roubado esse valor todo, o crime não compensou. Está quase todo mundo preso, quase todos em penitenciária de segurança máxima, a prova foi sólida o suficiente para justificar uma condenação alta”. Antes de ser condenado a 49 anos, Alemão depôs, mas não entregou ninguém. Nem a pessoa de dentro do banco que passou as informações privilegiadas - à exceção de um ex-vigilante que já estava fora do BC desde 2000. Para o delegado, a prisão desse informante e de outros envolvidos, como o misterioso "Paulo Sérgio" também exigem paciência. Ocorrerá em questão de dias. Quantos forem necessários.
O POVO - O caso Banco Central é o mais importante na sua carreira?
Antônio Celso - Foi mais um. Na realidade, tivemos alguns casos que, pela repercussão, tiveram certa importância para a Polícia Federal. O assalto ao avião da Vasp, em Brasília (julho de 2000), foi a primeira investigação de grande porte que fizemos. Teve uma antes, sobre carros importados, em que pessoas da alta society de Brasília, juntas com meliantes do Paraguai, Uruguai e São Paulo, roubavam carros de luxo em outros países e traziam para o Brasil. Uma das primeiras vezes que fui ao Ceará, inclusive, foi para apreender um carro de luxo. Conseguimos apreender 52 dos 53 carros. Isso foi quatro meses depois que tive posse. Depois surgiu o caso do aeroporto de Brasília, em que homens atiraram com fuzil num avião da Vasp e roubaram quase 100 quilos de ouro. A quadrilha era a do Marcelo Borelli. Prendemos a quadrilha toda, com exceção de um, que morreu num embate. Boa parte do fruto do roubo foi recuperado, em ouro, dinheiro ou bens.
OP - Por que a investigação no caso do BC evoluiu pouco no início?
Celso - Na realidade, num caso grande como esse, é necessário fazer primeiramente toda uma fase processual. Você ouvir o pessoal do Banco, as testemunhas, pessoas que tiveram contato. Depois que a poeira baixa, um mês depois, é que se tem condições de já fazer planejamento futuro para localizar os assaltantes.
OP - A informação que a gente teve, na fase inicial, é que teria havido uma intervenção da direção da PF para que o caso não tivesse vazamentos. Isso ocorreu?
Celso - Recebemos uma determinação do diretor geral para que acompanhássemos o início das investigações e depois assumíssemos os trabalhos. A determinação foi a seguinte: descubra quem foi e recupere o máximo possível do que foi roubado. Acompanhamos desde o dia seguinte ao furto, chegamos no dia 9. Os colegas fizeram bem a perícia e nem interferimos muito. Na fase de assumirmos, montamos uma equipe e pedi quatro agentes que já trabalhavam comigo.
OP - Qual foi o primeiro rastro que a quadrilha deixou?
Celso - Foram duas coisas. O primeiro rastro, levantado pelo pessoal do Ceará, foi a compra de passagens aéreas, pagas em notas de R$ 50, num vôo da TAM. A lista de passageiros nos foi passada e fizemos o contato com colegas de São Paulo para que levantassem algum envolvimento em crimes. Para nossa grata surpresa, vários tinham habilitação falsa tirada naqueles nomes. A habilitação nos permitiu ver a foto. Vários conhecidos nossos. Com os nomes, investigamos os parceiros. A segunda pista foi um cartão telefônico, noticiada na época, inclusive nem era para ter sido. Obtivemos diversas informações que poderam nos ajudar a adiantar as investigações.
OP - Como surgiu o nome do Alemão no trabalho?
Celso - Quando a gente levantou os primeiros nomes da relação de passageiros, o Alemão já estava entre os 10 primeiros investigados. Passamos a nos perguntar: quem é ligado a eles em outros crimes? Aí, soubemos que anteriormente houve outros assaltos e com participação de alguns. Quando interceptamos um caminhão cegonha em Minas Gerais, vimos que estava nele o Charles de Moraes, irmão do Marcos Rogério, parceiro do Alemão. Isso tudo vira informação.
OP - Por que a PF interceptou tão cedo o caminhão cegonha?
Celso - Era a primeira idéia, mas vazou a informação. Foi um dos motivos pelos quais a direção (da PF) teve que intervir. Nossa idéia era chegar lá, pegar o pessoal e confirmar se tinha dinheiro na carreta. Tendo dinheiro, eles iriam seguir e as pessoas que estivessem esperando seriam presas - essa era a nossa missão. Se tivesse sido tudo conforme planejado, essas pessoas já estariam presas há muito tempo.
OP - Quem vazou a informação?
Celso - Essa é uma grande incógnita. Quando estávamos prestes a abordar a carreta, por volta das oito da noite, ficamos sabendo que o Jornal Nacional tinha informado que a PF já tinha interceptado a carreta. Quando soube, pensei “não é possível”. Depois soubemos que teria sido uma fonte do Ceará, mas a gente não tem certeza. Antes de abordar a carreta, o motorista jogou o caminhão para dentro de um posto da Polícia Rodoviária Federal. Aí, a gente disse para os agentes que estavam atrás “deixa a carreta seguir, porque é esse o plano”. Quando os agentes chegaram, o motorista já tinha falado para um cara da Rodoviária que talvez tivessdinheiro no caminhão.
OP - Houve vez em que a polícia atrapalhou a polícia?
Celso - Várias ocasiões. Por exemplo, em São Paulo, algumas pessoas que a gente acompanhava mais de perto eram investigadas também pela Polícia Civil, que não sabia que elas estavam envolvidos com o furto. Por isso, eles acabavam sumindo. Outras vezes a gente ficava sabendo por meio de informantes em favelas que os assaltantes eram extorquidos por policiais, que sabiam das investigações, e acabavam sumindo novamente. Chegamos a pedir prisão de policiais. A gente estava acompanhando o Neto (Raimundo Laurindo Barbosa Neto, cearense, acusado) e, de repente, o camarada seqüestra o bandido para roubar dinheiro dele. Isso fez com que a gente regridisse alguns dias nas investigações.
OP - No caso do túnel do Banrisul, também havia medo de que houvesse vazamento?
Celso - Quando seguíamos o Neto, num determinado dia um dos contatos dele viajou para o Rio Grande do Sul. Um agente nosso foi junto ver o que ele iria fazer lá. Aí o agente viu que, em Porto Alegre, estavam outras pessoas investigadas. Depois, esse pessoal voltou para São Paulo e, simultaneamente, começaram a haver viagens para Maceió e Porto Alegre. Mandamos acompanhar nas duas cidades. Pedimos apoio, até descobrirmos que eles estavam planejando um túnel. Compraram um prédio. Conseguimos instalar câmeras e, em Brasília, eu recebia as filmagens. Os agentes me informavam sobre a existência de madeira, para a escora do túnel, e a ordem era que a gente fosse avisando quando começassem a ver disco diamantado e entulho, pois seria um sinal de que já estariam perto de uma parede de concreto. Deixamos que trabalhassem para que tivéssemos uma confirmação. A questão é que outra força policial começou a passar no local, e a gente tinha medo que isso atrapalhasse, por isso antecipamos em uma semana.
OP - O Paulo Sérgio nunca apareceu nessas investigações?
Celso - É uma pessoa que ainda está sendo investigada. Pegamos todos os outros, vamos chegar nele também. Já temos informações sobre ele, mas não posso te passar nada.
OP - Qual foi o momento exato em que o Alemão foi localizado?
Celso - No dia 15 de janeiro, foi a primeira vez que conseguimos fotografá-lo. Em dezembro de 2007, sabíamos que ele estava em Brasília. No fim de dezembro, descobrimos onde ficava a casa dele. A gente ainda não tinha a certeza de que era ele, porque nunca chegamos bem próximo, até o dia 15. Ele foi para um bar e conseguimos colocar agentes dentro. Uma agente tirou uma foto dele por um celular e nos mandou. Fomos ao bar e confirmamos que era ele mesmo, inclusive vimos a tatuagem que tinha braço. A partir daí começamos a segui-lo mais de perto, até para saber mais informações sobre seus bens e quem andava com ele. Isso seria importante no interrogatório. Acreditamos que ele tenha mais dinheiro escondido em espécie, enterrada, como ainda podem haver outros bens que não localizamos.
OP - Houve risco para prendê-lo?
Celso - Abortamos três vezes a prisão, sempre havia muita gente próxima, poderia haver tiroteio. Numa vez, a gente não estava próximo dele, o que dava tempo para que ele sacasse uma arma. Até que aconteceu o momento em que ele estava fora do carro, num comércio. Não foi preciso nem apontar a arma, bastou encostar e dizer que era polícia.
OP - Por que o senhor o aponta como líder da quadrilha?
Celso - Em dois anos de investigação, ouvimos inúmeras pessoas, checamos informações, analisamos vários indícios de provas e documentos, e tudo isso o apontou como líder.
OP - Uma das pistas sobre a liderança dele foi a informação repassada de dentro do Banco?
Celso - Todas as informações davam conta de que a pessoa que recebeu a informação seria o Alemão, que teria contado com ajuda de uma pessoa ou de várias pessoas, não sabemos ainda.
OP - O Alemão tinha condições intelectuais para articular o furto?
Celso - Tinha sim. Quando a gente imagina esse túnel, pensa que foi de uma complexidade enorme, mas não é. A coisa foi mais simples do que se imagina. Quando você prende uma pessoa, obtém informações em diálogo formal, mas também dá para perceber muita coisa nas entrelinhas. A gente percebe que não houve tanta análise na construção do túnel, tanto que eles erraram em determinado momento, quando chegaram numa galeria subterrânea. O Pedrão (Pedro José da Cruz, condenado pelo caso) nos disse que, para seguirem na direção certa, usaram a intuição, inclusive quando passaram por baixo da avenida perceberam o barulho do trânsito. Mas para encontrar exatamente a parede da caixa-forte, ele disse que já recebeu a informação do Alemão. Aí, foi só cortar o concreto. Provavelmente essa informação partiu de alguém que já conhecia a estrutura.
OP - Eles já sabiam quanto havia na caixa-forte?
Celso - Sabiam que havia muito dinheiro, mas não tinham certeza sobre quanto.
OP - Quem teve a idéia de realizar o furto?
Celso - Foi o Alemão, que recebeu a informação privilegiada sobre o dinheiro e o posicionamento da caixa-forte. Então ele fez o contato com pessoas próximas e depois contactaram outras de São Paulo. Não houve uma pessoa só bancando tudo. Foram várias.
OP - As três toneladas de cédulas saíram mesmo pelo buraco?
Celso - Essa é a teoria da conspiração. Quando iniciamos a investigação, estávamos abertos a todas as possibilidades. No decorrer dos trabalhos, descobrimos que saíram com o dinheiro em tonéis cortados ao meio, puxados por corda pelo pessoal de dentro da casa. A perícia fez os testes. Hoje, sabemos que eles iniciaram a retirada às nove da noite e saíram às seis da manhã seguinte. Todos descrevem a ação de forma muito similar. A gente tinha as mesmas curiosidades de vocês e perguntava. Eles disseram que em cada saco tinha R$ 500 mil. Na parede havia riscos referentes a cada viagem. Eles não iriam montar um cenário tão perfeito para sair por outro canto.
OP - O senhor entrou no túnel?
Celso - Entrei pelo Banco e fui até o ponto onde o túnel se fechava um pouco. Era muito apertado, então foi um colega menorzinho até a casa.
OP - Foi o senhor que achou o cartão telefônico?
Celso - Foi o agente que estava comigo. Achamos dentro do túnel. Mexendo na terra, ele disse “o que é isso aqui?”. Vimos que era um cartão. Foi por acaso.
OP - A denúncia diz que a ação teve quatro líderes...
Celso - Pelo que levantamos, na verdade foram três grupos. O do Alemão, o do "Fernandinho" (Luiz Fernando Ribeiro, morto) e o do Moisés (Teixeira da Silva, foragido). O dinheiro foi repartido entre os três.
OP - Foram parcelas iguais? Cada grupo ficou com R$ 55 milhões, aproximadamente?
Celso - É. E todos eles contam a mesma história. Perguntei como contaram esse dinheiro, pra gente saber a veracidade do que estavam dizendo. Todos disseram “doutor, cada saco daqueles tinha R$ 500 mil”. Aí ficava fácil, dez sacos tinham R$ 5 milhões. Pô, mas o saco cabia mais de R$ 500 mil. Eles disseram: “a gente já fez desse jeito, já foi acertado para facilitar a conta, porque ninguém ia ter muito tempo para contar o dinheiro”. Ficaram na dúvida se no saco iam colocar R$ 1 milhão ou R$ 500 mil. Se colocassem R$ 1 milhão, não daria para amarrar direito. Então decidiram colocar um pouco menos, o saco não ficava tão cheio e dava para amarrar. Ficou fácil contar.
OP - Qual foi o momento mais complicado da investigação?
Celso - Foram alguns. Um deles, que nos deixou muito chateados, foi o vazamento da informação da carreta, logo no começo. Ali efetivamente estragou toda uma estratégia. Tivemos que praticamente começar do zero de novo. Houve situações menores, mas que também causaram chateação. Por exemplo, saiu num jornal, não sei de São Paulo ou do Ceará, a foto de vários dos investigados que a gente estava mapeando. Estávamos chegando próximo. A partir dali, sumiu todo mundo. Começou tudo do zero de novo. Sucessivos vazamentos que não poderiam ocorrer naquele momento. Depois, outro momento chato foi lá em São Paulo, no seqüestro do Fernandinho. A gente já estava chegando muito próximo, quando ele foi seqüestrado e apareceu morto.
OP - Numa investigação como essa, o que é imprescindível para o trabalho policial ir bem?
Celso - Você tem que ter, primeiro, uma equipe totalmente voltada para aquilo, que não seja muito grande. Com muita gente, fica difícil se organizar e resguardar as informações. Uma coisa que foi mais essencial nesse caso que qualquer outra, foi ter uma resposta célere e eficaz do Judiciário. Porque quando você investiga esse tipo de organização criminosa, eles têm um poder de movimentação, de deslocamento e aquisição de meios muito grande. No caso específico do Banco Central, o diferencial que nos facilitou muito a investigação foi essa velocidade com que conseguíamos que nossos pleitos fossem analisados e que as medidas fossem efetivadas.
OP - Hoje, o que está faltando para encerrar o caso? Parece ser uma investigação interminável.
Celso - Uma novela mexicana. Vou abrir um parêntese: por que uma investigação é demorada desse jeito, já com dois anos e meio? É porque o foco da investigação foi mudado. Se fosse simplesmente para identificar e prender os responsáveis, com um mês de investigação já tínhamos quase todo mundo identificado. Com dois meses, bastaria pedir a prisão de todos, juntar as provas suficientes, e distribuir aqueles cartazes de “Procura-se” pelo Brasil. Que nem se fazia no Velho Oeste. Mas qual seria o problema? Nada do dinheiro seria recuperado.
OP - O foco passou a ser recuperar o dinheiro?
Celso - Tudo com prova consistente o suficiente para que não saíssem. Senão seriam aquelas prisões em que o cara é preso hoje e depois de amanhã tá na rua de novo. E por que recuperar esse dinheiro? Pelo simples valor? Não. Desde o começo da investigação, constatamos que vários dos envolvidos nessa quadrilha eram membros do PCC (Primeiro Comando da Capital). Você já imaginou esse dinheiro todo à disposição de uma agremiação criminosa como o PCC, para poder financiar seqüestro, roubos, homicídios, armas, drogas?
OP - Vocês acreditam que o dinheiro levado possa ter financiado quantas ações criminosas?
Celso - Números? Eu te digo que o túnel de Porto Alegre teve financiamento. O túnel de Alagoas. Compra de armas, direto. Drogas. Paraguai, Bolívia. No túnel descoberto lá no Paraguai, havia três ou quatro participando lá que eram ligados ao pessoal aqui de Fortaleza. Estava financiando uma série de coisas, aliás, ainda deve estar. Por isso a preocupação da gente retirar esse dinheiro do mercado, vamos dizer assim. A gente retirando, quantos outros crimes vamos impedir? Vamos imaginar que não tivesse sido assim. O cara levou R$ 164 milhões, cada um ficou com R$ 5 milhões, R$ 10 milhões. Você colocou o nome dele e a foto no jornal, ele foi preso. Você não teve condições de formar uma prova sólida. Ele vai ser preso, arranjar bom advogado, será muitas vezes absolvido, vai curtir a grana. Vai gastar o dinheiro para financiar outros crimes, viver numa boa e o crime vai compensar. Estamos mostrando nessa investigação que mesmo eles tendo roubado esse valor todo, o crime não compensou. Para você ter uma idéia, está quase todo mundo preso, quase todo mundo em penitenciária de segurança máxima, a prova foi sólida o suficiente para justificar uma condenação alta. Tanto que estão entrando com recursos e em todas as instâncias estão perdendo. Porque a prova foi consolidada, forte.
OP - A PF é criticada por estar sendo midiática demais. O senhor concorda?
Celso - Você sempre vai tendo que fazer ajustamentos. É óbvio, num primeiro momento, não vou te dizer que não houve um equívoco num ou noutro momento. Um exagero, algum excesso, mas isso faz parte da própria natureza humana. Você tem que aprender com seus erros e ir se organizando para cada vez errar menos e fazer um trabalho melhor. Sou um dos críticos dos vazamentos que aconteceram no começo dessa investigação (do BC). Hoje acho que é necessário que a população saiba o que estamos fazendo. Até porque estamos há dois anos e meio nessa investigação, se a gente prende o Alemão e demonstra que não foi difícil chegar lá, “ah, estão sem fazer nada gastando nosso dinheiro dos impostos, de papo pro ar”.
OP - Quanto a PF já gastou na investigação do Banco Central?
Celso - É difícil de mensurar. Para tudo há um custo. Vamos falar de uma coisa mais visível. Vamos supor o jato. O cara foi transferido de Brasília para o Ceará num jato. Quanto se gasta de combustível? Dez mil reais, vamos supor. Mas como é que você vai mensurar o perigo que você exporia vários outros passageiros se fôssemos levá-lo num vôo comercial? E se alguém resolvesse resgatar o Alemão em Brasília? Você exporia centenas, milhares de pessoas a um risco. Esse risco não dá para quantificar. Não se pode pensar como uma empresa privada. Já pensou se o Alemão fosse resgatado, como ficaria o Estado brasileiro?
OP - Pra encerrar, sem querer atrapalhar a investigação, o informante de dentro do BC que ajudou a quadrilha existe de fato? Como o Alemão admitiu para o senhor?
Celso - Existe. A mais inocente das pessoas percebe que não teria como realizar aquela operação sem uma informação privilegiada lá de dentro. Conversando informalmente com o Alemão, perguntei “você me acha 'mané' de acreditar que fez uma parada dessas com uma bola de cristal, sabendo onde estava o contendor, quanto, onde tinha canal cruzado (circuito de TV)”, aí ele riu. “Sabe como é doutor, não posso entregar os outros”. E não disse o nome.
CONTEÚDO EXTRA
Leia a íntegra da entrevista e veja mais fotos exclusivas. Acesse
www.opovo.com.br/conteudoextra
Reveja entrevista do delegado ao programa Domingo Espetacular, da Rede Record (dia 9/3/2008). Acesse o link http://br.youtube.com/watch?v=5vtzUxCHgeo
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