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FAZENDA ESPERANÇA

O fazendeiro de Deus

Fundador da Fazenda Esperança, o frei alemão Hans Stapel fala sobre o trabalho desenvolvido na recuperação de jovens dependentes químicos, que é realizado atualmente em oito países. A base da terapia, segundo o religioso, é o seguimento do Evangelho

Lisiane Mossmann e Ricardo Moura
da Redação

23 Jul 2007 - 03h26min

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"Reza e trabalha". O lema de São Bento pode ser perfeitamente aplicado ao frade franciscano alemão Hans Stapel, 61. Desde 1972 no Brasil, há 24 anos ele trabalha na recuperação de jovens dependentes químicos, com a sua Fazenda da Esperança. A experiência inspira-se nos ensinamentos do Evangelho, no trabalho e já está presente em oito países, como Argentina e Rússia.

Embora lide com jovens de culturas diferentes, frei Hans diz que há algo de comum em todas eles: a busca pela felicidade. "A droga também é uma forma de querer encontrar a felicidade, de comprar a felicidade. Mas ela não se compra, ela se doa. Se eu faço você feliz, eu vou ser feliz. Isso eles têm de aprender. Isso é igual em todo os países", ensina.

Por causa do seu trabalho, em maio deste ano, a primeira Fazenda da Esperança, localizada em Guaratinguetá (SP), foi visitada pelo papa Bento XVI e ganhou ainda mais projeção internacional. Depois de tanta exposição, afirma, os telefonemas não param. Já há 30 ofertas de sítios e fazendas para a instalação de novas unidades.

No Ceará, a Fazenda da Esperança possui duas representações: a Fazenda da Esperança Sagrada Família, em Fortaleza, e a Fazenda da Esperança São José, em Pacatuba. A primeira unidade surgiu depois que uma senhora viu uma entrevista dele na TV Rede Vida, católica. O religioso aguarda, para o segundo semestre deste ano, o início das obras de um hospital destinado à realização de operações corretivas de lábio leporino em crianças.(Colaborou Rita Célia Faheina)


O que mudou na Fazenda Esperança depois da visita do papa Bento XVI?
A visita trouxe uma grande alegria, devolveu a dignidade aos jovens, que se sentiram muito amados, muito orgulhosos pela vinda dele. E também trouxe responsabilidade, pelo fato de ele dizer aos jovens para serem mensageiros e embaixadores da esperança. Eles levaram muito a sério. Muitos me diziam: "O papa confia em nós, o papa acredita em nós, o papa realmente pede que nós ajudemos a criar esse mundo novo". Para eles, foi muito bom. Na parte externa, o telefone não pára mais (risos). Só no dia em que eu saí (para vir a Fortaleza), foram 83 telefonemas. Já temos mais de dez mil. Não sabemos mais o que fazer.

E como atender a demanda desses jovens?
A demanda é muito grande, muito grande. Estamos lutando para poder construir mais casas, estamos tentando abrir mais fazendas. Temos muitas ofertas de fazenda, isso não falta. Agora, estamos vendo como fazer para funcionar. Para a fazenda funcionar, tem de investir. Tem de criar infra-estrutura de morar, de trabalhar. Estamos lutando para conseguir abrir mais fazendas e, naquelas que já existem, colocar mais casas para poder atender os jovens.

O Vaticano contribuiu financeiramente quando o papa esteve lá. Ele vai continuar contribuindo?
Não. O papa deu 100 mil dólares. Foi um gesto que ele fez para dizer: "Vou apoiar esse trabalho". Mas esse dinheiro já foi todo embora, com tanta despesa ...

Frei, antes da fazenda receber o papa, foram investidos R$ 2 milhões em melhorias...
Foi muito mais. Foram investidos R$ 6,5 milhões, mais ou menos ... Conseguimos uma parte de fora, do exterior, uma parte aqui, do governo e de particulares, e ficaram R$ 2 milhões para pagar ainda.

Pois é. Em termos simbólicos, para os jovens, a visita do papa foi um grande passo, um marco. Em termos de doações, o senhor já conseguiu recuperar parte desse dinheiro que foi investido?

Sim. Fizemos um jantar em São Paulo com muitos empresários, o senhor governador (José Serra) estava presente, e muitos já se comprometeram em dar uma cota de R$ 100 mil cada um. Estamos tentando pagar tudo. Acho que logo, logo, vamos pagar, sem dúvida.

Como foi o feito o anúncio de que o papa iria visitar a Fazenda Esperança?
A imprensa escreveu muita coisa que não tem nada a ver. Falaram que eu estudei com ele, que éramos da mesma terra ou que éramos amigos. Nada disso. Eu falei uma vez com ele, quando ele era cardeal de Roma. Li muitos livros dele, gosto do jeito dele, mas nunca tive essa ligação. Quando soube que ele vinha para o Brasil, eu senti aqui dentro "puxa, tão perto, seria bom que ele viesse!". Mas, para saber se era vontade de Deus ou a minha vontade, eu fiquei alguns dias rezando e pensando. Depois, perguntei ao Nélson (um dos fundadores da Fazenda Esperança, ao lado de frei Hans). Ele achou interessante. Depois, falei com um outro bispo, que disse achar interessante. Então comecei a falar com os bispos amigos, cardeais e disse: "Vocês podem me escrever uma carta, para eu mandar para o papa, dizendo que é bom que o santo padre visite essa obra, por causa disso e disso?" Cada um escreveu o que quis. Foram feitas mais de 80 cartas, que eu juntei. Nessa hora, fui convidado para falar no congresso que houve antes do lançamento da primeira encíclica (escrita por Bento XVI). Algumas pessoas do mundo inteiro foram convidadas para dar seu testemunho. Aqueles que falaram no congresso e os cardeais foram recebidos pessoalmente pelo papa. Na ocasião, eu falei para ele um pouquinho sobre a obra, rapidinho, e depois lhe disse: "Santo padre, posso contar com sua presença no meio dos jovens que estão experimentando um inferno na terra e precisam encontrar o senhor como pai, como essa misericórdia de Deus? Posso contar com sua presença?". Ele disse "Jawoll", que (em alemão) significa sem dúvida. Isso deixou para mim uma grande alegria. Eu senti que existia uma possibilidade. Depois, houve vários contatos, várias cartas. Comecei logo a construir (reformar a fazenda), mas ninguém acreditou acreditou que ele viesse. Eu acreditei, comecei e realmente ele foi.

O senhor disse que há muitas ofertas de fazendas. Como é o processo de surgimento das fazendas em diversos pontos do Brasil e do mundo?
Nós recebemos ofertas, seja de pessoas particulares, seja da Igreja, de bispos e outros, e também do governo. Hoje temos mais de 30 fazendas oferecidas. Uma boa parte delas já visitei. Vejo se o bispo está de acordo, se tem comunidade, se tem pessoas que podem ajudar, se tem infra- estrutura para se manter. Quando sinto que realmente é (adequada), então ela entra na lista e nós vamos preparar jovens que possam ser responsáveis por ela. Todos tem de ser consagrados, porque não temos funcionários. É com eles que começa.

Há pessoas que estiveram na fazenda, que se recuperaram e, de repente, estão dentro desse trabalho?
Sem dúvida. Metade da Fazenda Esperança são de jovens consagrados, que doaram sua vida a Deus, e metade são ex (dependentes) e outros que nunca tiveram problema com drogas, mas querem se doar e ajudar os outros.

A Fazenda Esperança atende jovens de oito países. Há alguma diferença no método adotado, por causa da cultura de cada país?
O método é o mesmo. Mas, quando se trata do trabalho, tem de ver o que se consegue produzir naquele local, naquele país. Nas Filipinas, nos tornamos um grande produtor de arroz e temos leite também. Em cada país, a gente tenta se adaptar. Naturalmente, existe a cultura, que pode se manifestar na comida. Nas Filipinas, eles gostam muito de carne de cachorro. Então, tem de se fazer isso. Eu não posso dizer "ah, eu não gosto". Eles gostam. É a cultura deles. E a gente vai se adaptando às coisas externas. Mas a filosofia - que é nada mais que viver para outro, viver o evangelho - é a base para todos. Todos são feitos da mesma matéria-prima. Todos são feitos à imagem de Deus. Não tem motivo para ser diferente. Cada um quando ama, vai se realizar e sai da droga. Mas a pessoa também tem de lutar contra esse egoísmo, que quer aparecer, que quer ter, os prazeres, querer ser melhor que o outro. A droga também é uma forma de querer encontrar a felicidade, de comprar a felicidade. Mas ela não se compra, ela se doa. Se eu faço você feliz, eu vou ser feliz. Isso eles têm de aprender. Isso é igual em todo os países.

No Brasil, a gente vê que o consumo de crack entre os jovens está aumentando. Em outros países, há diferenças no consumo de entorpecentes?
Na Europa, estão usando demais a heroína. Em outros países são outras drogas. O crack, naturalmente, estraga muito mais a psique, a cabeça. Tem mais perigos que a maconha. Mas todas as drogas levam o homem a ser dependente e a perder sua liberdade. Isso é grave. Por isso, sou contrário à liberação da maconha. Não pode liberar. Hoje, ele fuma maconha. Amanhã, não satisfaz mais. Ele precisa ter mais, mais. Para comprar, precisa ter e se não tem, tem de roubar. Então, não podemos liberar. Precisamos devolver aos jovens o motivo pelo qual eles nasceram: a dignidade e a liberdade.

O senhor esperava que a Fazenda Esperança atingisse essa magnitude que é hoje?
Nunca, nunca planejei. Eu pensei :"Eu quero amar aquele que Deus coloca do meu lado". Eu era pároco e via aquele povo, via as mães e os pais chorarem dizendo "meu filho é drogado" . Então acolhi um, acolhi outro. Era, para mim, viver o evangelho lá onde Deus me colocou. Depois (a fazenda) cresceu, cresceu e não pára de crescer. Mas, hoje, eu vejo que Deus tem pressa, porque ele ama os seus filhos e quer que todo mundo seja salvo. Então, Ele quer tirar os jovens do inferno das drogas e (confortar ) as mães que sofrem tanto. Hoje digo com alegria que a obra é dele, porque Ele é quem faz. Quem sou eu para fazer, em tão poucos anos, uma obra tão grande? São 43 fazendas em oito países e estão crescendo sempre mais, até o ponto em que o papa visitou. Eu tenho consciência de que não somos nós, como pessoas, que fundamos. É Deus que tem pressa e quer salvar muitos jovens. Então devemos sempre ser atentos para colaborar com Ele.

Como o senhor chegou a esse modelo de terapía que é adotado nas fazendas, de duração de doze meses, com três meses sem contato direto com a família, apenas por carta?
Pela experiência. Nós acolhíamos e os parentes podiam visitar aos domingos. E muitos foram embora, porque batia a saudade. Então dissemos: "Vamos ficar um mês sem visita". Mas muitos ainda iam embora. Então dissemos: "Vamos ficar dois meses". Aí já melhorou, mas ainda foram embora. Então tentamos três meses. E ninguém mais saiu depois da visita. Então vimos que era o tempo necessário para curar as feridas, criar raízes e se sentir bem, para depois enfrentar a família sem ter saudade e querer ir embora. Foi pela práxis. Por exemplo, o trabalho. Eu pensei "se eles são dependentes da droga, agora vão ser dependentes do Estado ou da família para pagar (suas despesas) ?". Desse jeito, eles continuam a ser dependentes, não experimentam a liberdade. A Bíblia sempre me ajudou, me orientou. A Bíblia tem um lugar especial em minha vida. Ela diz que você deve ajudar órfãos e viúvas, e não homens fortes. São Paulo fala que quem não trabalha não come. Então pensei "não é possível! Um grupo de homens fortes não pode se manter?". Não somos burros. Deus nos deu inteligência e força. Deus nos deu tudo: você planta e sai coisa. Para que essa dependência de um lugar e de outro? Então começamos a trabalhar e eu vi que esse trabalho fazia um bem enorme. Eles começam a ficar orgulhosos. Aqui no Brasil tem um pouco a visão de que trabalho é coisa dos escravos. O pobre tem de trabalhar. Quem tem um pouco mais tem empregado, tem motorista e não trabalha. Mas o trabalho é fonte de realização. Quem não trabalha parece não ter prazer de viver. Com 14 anos, vesti um macacão e trabalhei em uma fábrica, me tornei gráfico. E toda minha curiosidade foi em cima das máquinas. Eu fiquei encantado de ver que poderia produzir.

Frei Hans, a gente vê um crescimento muito grande no número de crianças dependentes. Hoje a Fazenda Esperança tem algum trabalho voltado para essa crianças?
Sim. Nós tentamos, mas dependemos do juiz, do conselho tutelar e tanta gente dá palpite que a gente fica com medo de acolher. Tentamos tudo, fazer adoções com famílias que querem ajudar, e vemos maneiras de colocá-las nas escolas. Onde tem possibilidade, temos até sítios com famílias que acolhem crianças, menores de rua. Temos casa da criança, temos creches. Tentamos ficar com eles o dia inteiro para educar, mas a coisa se torna um pouco difícil por falta de apoio estrutural, de leis que possam apoiar para a gente atuar melhor.

Como o senhor avalia as políticas antidrogas do Governo? Eles estão atingindo o foco correto?
Há mil maneiras de você atingir esse problema. Sem dúvida, tem de ter a parte da Polícia para coibir aqueles que já estão atuando na venda da droga e etc. Tem de investir, tem de ter muitas cadeias. Mas eu penso que tem de investir na prevenção e na recuperação como é feita em nossas comunidades. Porque são relativamente baratas, não custam muito e o resultado é melhor. O governo deveria investir mais, mas há muitos interesses também. Há clínicas caríssimas. Há muitas cadeias. Parece que muitos vivem das cadeias. É um jogo muito complicado. A gente não sabe onde começar. Todos os homens de boa vontade tem de se unir se quisermos dar uma resposta séria.

Estima-se que entre 80% e 85% dos dependentes conseguem se recuperar na Fazenda da Esperança. Como é o processo de tratamento e quais são as dificuldades enfrentadas?
A gente tem de deixar bem claro que esse número se refere às pessoas que passam um ano na fazenda. Quem termina, está em nosso computador e fazemos um acompanhamento sistemático. Eu penso que uma das causas desse resultado é que, durante todo o ano, nós trabalhamos com os pais. A gente faz todo um trabalho importantíssimo, inspirado, mais uma vez, pelo evangelho que diz "vinho novo em odres novos". Se um filho se torna novo e os pais não mudarem, fica muito difícil. Aí temos de trabalhar juntos. Depois, esses grupos da esperança viva, onde eles podem ir saindo da fazenda, são muito importantes. Eles continuam tendo esse apoio mútuo, contam as experiências e se um não comparece, o outro pergunta "onde é que você está?". Mesmo se cair ajudam. Eles mesmo se ajudam. Mas o mais importante que eu acho é que não falamos, na fazenda, de drogas, dessas coisas. Falamos da pessoa que cada um tem de encontrar em seu ser, que significa seu eu espiritual. E se alguém começar a descobrir que nasceu para amar, também vai lembrar que não perdoa os pais, que está de mal com os outros e vai começando a fazer as pazes e começa a viver verdadeiramente o amor. E aí ele se recupera por dentro, deixando a droga por conseqüência. Não é que nós tratamos o problema lá em cima das drogas, nós vamos na raiz. E isso demora. Por isso é um ano. Muitos dizem "mas pode se recuperar antes da droga". É lógico. A droga é uma questão química e em pouco tempo você pode se libertar dela e ir embora. Mas se continua egoísta, se continua a querer ter, não sei o quê, volta. Uma vez tratada a raiz e a pessoa descobre que pode amar, que é feita para amar, é outra coisa. Essa pessoa, depois, não volta para a droga. Não só não volta como deixa muitos outros fora dela. Muitos pais dizem: "Agradeço por meu filho ter passado por tudo isso, no bom sentido, e nós aprendemos uma outra vida, que não conhecíamos, esta vida de se doar, de amar". É muito positivo.

É verdade que vai ser construído um hospital no Centro Espiritual Uirapuru (CEU) para crianças com lábio leporino?
Sim. Vamos nos encontrar com várias construtoras para pedir orçamentos. Em setembro deve começar a construção. A idéia é que, em abril, ele esteja pronto e a partir de maio e junho comecem as operações de crianças aqui no Ceará. É preciso facilitar essas operações. Há muitos médicos nos Estados Unidos e na Europa que estão dispostos a operar gratuitamente, basta um lugar adequado para poder lanchar e ajudar essas crianças, que é uma coisa terrível vê-las desse jeito. Nós não temos limites. Quem precisa tem de ser atendido. É uma obrigação nossa.

Gostaria que o senhor falasse sobre a criação das unidades da Fazenda Esperança no Ceará.
Depois de uma entrevista na TV Rede Vida, no programa Frente-a-Frente, a dona Lúcia Macedo telefonou, entrou em contato conosco e ofereceu todo o espaço onde hoje existe o CEU. Quando eu vi, senti que era um lugar tão privilegiado, no centro geográfico de Fortaleza, que criar uma casa aqui me parecia não ter sentido. Quando em volta, todas as casas estavam apertadas. Então, viemos com muitas pessoas e nasceu a idéia de fazer aqui um condomínio espiritual. Porque ela insistia para que nós aceitássemos essa terra. E hoje, graças a Deus, tudo está indo bem , graças a Deus. Já há 20 entidades diferentes e muitos encontros são realizados lá. O governo ofereceu uma escola agrícola abandonada em Pacatuba.

Em vários momentos o senhor fala sobre o trabalho. Quando o senhor era adolescente, qual era a relação do senhor com o trabalho? E as relação dos seus pais com esse tema?

Eu nasci no fim da Segunda Guerra Mundial, então o país inteiro estava destruído. Todo mundo precisava, além do trabalho que tinha, reconstruir suas casas e plantar para sobreviver. Era normal que nós, quando crianças, fôssemos juntos com o papai quando ele ia para a terra plantar verdura e outras coisas. Era uma alegria. Não era um peso. Ajudamos no trabalho de casa, na limpeza e tudo. Era normal. Tudo era dividido. Terminado os estudos, aprendi uma profissão, que era de gráfico. O trabalho, sempre na minha vida, foi como uma chance que o homem tem para construir esse mundo. Não é algo negativo. É uma realização pessoal. O papai deu um pedaço de terra para cada um dos filhos e disse para plantarmos o que quisermos. Então a gente plantava alfaces e outras coisas. Eu fiquei encantado, porque era algo meu, que nós tínhamos plantado. Isso cresceu no pedaço que eu tinha. Era impressionante como de uma semente saía uma cenourra grande, um repolho, uma couve-flor. Para mim, ver o Brasil com uma multidão de terra e gente passando fome não é possível. Das frutas que existiam, nós aprendemos a colher até a última maçã que tinha na árvore. E minha mãe fazia doces, ou fazia não sei o quê, tudo era aproveitado. Essa coisa de se jogar comida fora aqui para mim, no início, foi um choque. Como podem jogar tanta coisa fora, enquanto outros têm fome. Na minha casa não existia deixar comida no prato. E depois, também, come-se de tudo. "Eu não gosto", isso não existia. Minha mãe dizia que tudo tinha sido dado por Deus. Hoje eu como qualquer coisa em qualquer lugar e não tem mistério. O importante é ter uma mentalidade positiva do trabalho e não (crer) que se é escravo. Quando os nossos jovens começam a suar, aí é que a droga começa a sair. É a mesma coisa com a máquina. Ela te dá um ritmo e te dá disciplina interna. Você a respeita e você a usa para lhe ajudar.

O senhor está no Brasil desde 1972. Que motivos o levaram a vir para o Brasil e qual a visão do país o senhor tinha?
O motivo foi uma experiência que eu fiz com um irmão meu em Biafra e Nigéria, na África. Naquele tempo, as fotos mostravam as pessoas morrendo de fome nós fomos lá para ajudar. E lá eu experimentei essa profunda tristeza, de um lado, por tanta morte e tantas vidas, mas, também, essa grande paz de poder ajudar. Então lá nasceu o desejo de fazer algo para aqueles que menos tinham. E, depois, pelas circunstâncias - a gente não sabe qual é o plano de Deus - eu consegui chegar ao Brasil e me tornei frade aqui. O que eu esperava do Brasil, sem dúvida, foi totalmente diferente. É um país muito mais complexo do que a gente pensa. Não é um país como nós pensamos, de missão, que se tem um tipo de missão. Aqui você tem mil países dentro de um país só. Você tem a miséria extrema, mas tem também alta tecnologia e coisas modernas, como poucos países têm. Você também tem, aqui, uma mistura de pessoas que permite ao mundo inteiro se sentir bem, pela acolhida, por uma coisa extraordinária. O próprio clima forma um tipo de pessoas que é alegre por natureza e está sempre sorrindo . É um país que a gente se sente bem. Eu, realmente, estou supercontente.


E-MAIS

Em 1979, Frei Hans Stapel chegou em Guaratinguetá (SP). Lá, tornou-se responsável pela paróquia de Nossa Senhora da Glória. O religioso desenvolveu várias ações sociais baseadas na frase do Evangelho: "Tudo o que fizerdes ao menor dos meus irmãos é a mim que fareis".

Quatro anos depois, Nélson Giovanelli, um jovem da paróquia, descobriu um ponto de venda de drogas perto de casa. Ele fez contato com os jovens dependentes e conquistou a amizade deles.

Em pouco tempo, eles decidiram morar juntos em uma casa e seguir o evangelho, sob a supervisão do frade. A experiência era financiada pelo trabalho de cada um. A idéia deu certo e se espalhou para outro estados e para o mundo.

A Fazenda da Esperança contabiliza hoje 30 centros no Brasil (21 masculinos e 9 femininos) e nove no exterior (dois na Alemanha e um no Paraguai, nas Filipinas, no México, na Guatemala, na Rússia, na Argentina e na África).

A Fazenda da Esperança em Guaratinguetá (SP), onde está sediada a obra, atende atualmente a 300 internos. As duas casas no Ceará beneficiam 50 jovens.


MAIS INFORMAÇÕES
size=2>www.fazenda.org.br


Perfil

Frei Hans Stapel nasceu na cidade de Paderborn, na Alemanha, em 1945. O pai era um ex-soldado e a mãe era cozinheira na casa paroquial. Na juventude, entrou em contato com a espiritualidade do Movimento Focolares - criado por Chiara Lubich e que tem como base a comunhão e a unidade - e decidiu seguir à risca os ensinamentos do Evangelho.

Durante a Guerra de Biafra (Nigéria), em 1969, Hans Stapel prestou serviço voluntário levando medicamentos. Em uma noite, ele presenciou um bombardeio e viu um hospital infantil ser destruído. Essa experiência marcou sua vida intensamente. Em 1972, Hans Stapel chega ao Brasil. Ele foi ordenado padre seis anos depois. Em 1978, assume a Paróquia Nossa Senhora da Glória, em Guaratinguetá (SP).

Detalhes
A vontade de ajudar o próximo surgiu quando frei Hans ainda era criança, durante uma visita do padre Werenfried van Straaten, fundador da Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), à sua cidade. Na celebração, o sacerdote relatou o drama das pessoas que haviam perdido tudo na guerra e passou seu chapéu para que as crianças pudessem fazer algum donativo. O menino Hans, então, deu as duas únicas moedas que tinha guardado para comprar um sorvete.

O religioso ainda mantém um forte sotaque alemão, mesmo passados 35 anos de sua vinda ao Brasil. Em Fortaleza, ele visitou as duas fazendas que existem aqui. O trabalho de visitação é constante em todas as unidades do Brasil e do Mundo. Os resultados obtidos são creditados a Deus. "Eu tenho consciência de que não somos nós, como pessoas, que fundamos (a Fazenda da Esperança). É Deus que tem pressa e quer salvar muitos jovens. Então devemos sempre ser atentos para colaborar com Ele", disse.

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