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SULIVAN MOTA

O voluntário da saúde

O médico e professor Sulivan Mota assumiu em fevereiro de 2006 a direção do Iprede. De lá para cá, suas atividades se voltaram mais à instituição. Ampliou o atendimento e não se cansa de mostrar as melhorias


25 Jun 2007 - 02h22min

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(Foto: Lia de Paula)
Encontrar um horário na agenda lotada do médico e professor Francisco Sulivan Bastos Mota não é uma tarefa fácil. Diariamente, ele divide seu tempo entre atividades no Instituto de Prevenção à Desnutrição e à Excepcionalidade (Iprede), no Núcleo de Tratamento e Estimulção Precoce (Nutep), em aulas na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e no doutorado da Escola Paulista de Medicina. E o consultório? Cada vez menos pacientes, diz o médico e professor. "Cada vez menos prestigiado", brinca.

Depois de tanto marcar e desmarcar consultas por necessidade das demais atividades, conta, o horário no consultório diminuiu muito. "Há muitos profissionais que podem atender pessoas com planos ou que paguem consultas particulares. Para o Iprede, nem sempre há médicos. É preciso estar presente", diz.

Ao assumir a direção do Iprede, em fevereiro de 2006, suas ações se voltaram para ampliar o serviço de atendimento e abrir novas perspectivas para as pessoas que, diz ele, são invisíveis à maioria das pessoas. Orgulhoso, mostra que o Iprede ultrapassou a fase só de assistencialismo, que reafirma ser importante para uma faixa da população que não tem acesso à alimentação. Mas conta que hoje ele oferece outros tipos de atendimentos que envolvem as famílias.

Formado desde 1976, fez residência e mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sulivan Mota foi um dos fundadores do Nutep, que atende atualmente 350 crianças com necessidades especiais. Ajudou na criação de diversos serviços como o da assistência ao recém-nascido da unidade neonatal da Maternidade Escola, a UTI, o primeiro banco de leite do Norte e Nordeste na UFC. Ajudou a repensar o papel do líder da saúde ou comunitário, que depois virou o agente da saúde, institucionalizado no primeiro governo Tasso Jereissati.


O POVO - A queda na taxa da mortalidade infantil no Brasil é reflexo de medidas governamentais ou de ações de instituições não-governamentais?
Sulivan Mota - É reflexo das duas coisas. É verdade que a oferta na área da saúde melhorou muito nos últimos 20 anos. O SUS (Sistema Único de Saúde) tem melhorado o atendimento básico, de média e de alta complexidade. Temos o posto de saúde funcionando nos três turnos. Temos postos de especialização e convênios de alta complexidade, como o Iprede que está inserido junto ao SUS. Você tem a Casa da Esperança, o Nutep. Todos estes esforços se traduzem em melhorias. Mas a necessidade de atendimentos de saúde é ilimitada. Quando você sobe um degrau, logo outro degrau aparece. Por outro lado, nós temos outros fatores que contribuíram para a redução da mortalidade infantil. O conhecimento, a globalização, a busca de uma nutrição adequada pela população. O abandono de certos vícios, como o do fumo e do álcool. O processo de crescimento humano é lento, mas ele é concreto. Há melhorias nas medidas governamentais adotadas e há melhorias sociais.

OP - O papel do Estado na área da saúde responde às necessidades do brasileiro?
Sulivan Mota - O atendimento especializado ainda é precário. Mas, você pode perguntar: a atenção básica está toda atendida? Na realidade, se você for ver ações básicas como uma consulta de um pediatra, de um ginecologista para um pré-natal, de um clínico. Por exemplo, o trabalho de imunização tem sido muito bom. Veja o resultado da vacinação contra a gripe. Fortaleza teve um dos melhores resultados de cobertura do País. Isso está sendo atendido. Tem algumas especialidades ou métodos de diagnóstico que a demanda jamais será atendida.

OP - O senhor poderia citar um exemplo?
Sulivan Mota - Para uma consulta no otorrinolaringologista, temos uma fila com mais de 10 mil pessoas esperando. Temos uma fila de 5 mil pessoas esperando para tirar um eletroencefalograma. Um exame antigo e simples. Na saúde, a tecnologia não barateia o exame, como aconteceu com o avanço tecnológico na área de telecomunicações... Quantos anos existe o celular e quantos anos existe o Raio X, o eletroencefalograma, é incomparável. Em poucos anos, o celular chegou ao alcance de todos. E ações de saúde básica e simples ainda não está ao alcance da sociedade.

OP - E o atendimento de crianças especiais? Como o senhor vê as ações nesta área, como uma pessoa que atua no Nutep e no Iprede? Que tipos de atendimentos faltam no Ceará?
Sulivan Mota - É um drama...Não só a criança, mas o adolescente e o adulto. É uma criança que até pouco tempo era escondida dentro de casa. Quando a gente fala da inclusão escolar, do trabalho, a gente esquece de promover a inclusão dentro da própria família, como se houvesse uma negação. Começa até pela ruptura da estrutura familiar. No nascimento da criança com necessidades especiais, seja por síndrome seja por traumatismo no parto, há uma ruptura familiar. Um levantamento que está sendo feito em Fortaleza pela Universidade Federal do Ceará mostra esta realidade. Geralmente o homem deixa a casa, quer formar outro lar como se negasse aquele filho. Como se dizesse para a mulher: "Fica com teu castigo que não é meu" e sai de casa. A mulher que é a grande viga mestre da família. Ela realmente abraça a criança. Estou falando isso em termos de maioria, mas temos exemplos belíssimos da participação paterna, que tem sido crescente. Mas na assistência a essa criança temos um número muito restrito de entidades. Em Fortaleza, para uma assistência holística, globalizada...temos o Nutep, da Universidade Federal do Ceara, o Nami (Núcleo de Atenção Médica Integrada), da Unifor, temos a Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), a ABCR (Associação Beneficente Cearense de Reabilitação), com algumas limitações. Tem sempre lista de espera. A assistência de forma ideal, embora tenha grande parte das ações necessárias, ainda não tem as totalitárias, como as de intervenção, que não são as de mediações, pois a criança já tem um déficit. Essa intervenção deve ser feita de forma transdisciplinar. Nós já tivemos a intervenção multiprofissional, interdisciplinar e hoje compreendemos que ela deve ser transdisciplinar.

OP - Como se dá essa intervenção transdisciplinar?
Sulivan Mota - A ação transdiciplinar é o trabalho de profissioanis de áreas diferentes de saúde trabalhando o déficit na promoção do desenvovimento adequado, mas não de forma isolada. O fonoaudiólogo trabalha a linguagem, posicólogo trabalha o emocional. Há um trabalho único, mas feito em conjunto. Como acontece no Nutep e no Iprede. Hoje, o Iprede não trabalha mais somente com a ação de recuperar peso. Toda criança que tem um déficit de peso, que leva à desnutrição, também tem um déficit no desenvolvimento em um dos três níveis: motor, cognitivo ou sensorial. Temos uma avaliação do estado nutricional para ver que nível de desnutrição a criança se encontra, como temos também uma avaliação do desenvolvimento. Essa avaliação é classificada com o déficit estabelecido e a criança encaminhada para a intervenção. A intervenção é exercida por 12 profissionais num trabalho transdiciplinar que é feito pelo Nutep, que trabalha há três anos no Iprede. Se ela não apresenta um déficit, a criança é considerada de risco, então passa a receber atenção, que é chamada de mediação na promoção do desenvolvimento.

OP - Como é feita essa mediação?
Sulivan Mota - A mediação hoje é exercida por cinco profissionais da saúde: psicólogo, terapeuta ocupacional, fonaudiólogo, fisioterapeuta e pedagogo. São cinco profissões que procuram ver qual é o ponto de risco, qual é fator de risco da criança. No Iprede, por exemplo, o fator de risco maior é a indiferença que existe no binômio mãe e filho. Nosso trabalho de mediação é basicamente no estímulo do afeto, do apego, do carinho, do amor entre mãe e filho.

OP - O que leva o fator de risco ser a indiferença da mãe em relação ao filho?
Sulivan Mota - Hoje nós sabemos que o ser humano formata sua base emocional e sua base biólogica nos primeiro seis anos. Sua base emocional, principalmente nos três primeiros anos. Se a criança não for ter carinho, afeto, cuidado adequado, ele jamais vai pensar bem, agir bem e caminha para delinqüência...Isso está provado. Esse cuidar está desde o olhar, está no sorriso e está no atender às necessidades da criança, entre elas, a da nutrição e da higiene. Atendemos mães que são mulheres que estão na faixa social abaixo da linha da pobreza. São mulheres que estão na miséria, que incorporam a miséria. Jamais recebem um afeto, um elogio, e ela jamais vai saber como transmitir isso para a criança. Hoje nós sabemos porque o ser humano é o animal mais dependente. O pinto em pouco tempo está ciscando, o pato tá nadando...e o ser humano é o animal que mais tempo precisa de cuidado na sua higiene, na sua locomoção, na sua defesa. Por que isso? Para o desenvolvimento desta base emocional. Para ele ter um olhar sobre si, ele ter abraço, para ter o afeto. Quando se pega uma criança, a primeira coisa que se faz é se voltar para o rosto da criança e dar um sorriso. A mãe que está no estado de miséria não tem esta inter-relação, ela pega a criança sempre de lado.

OP - O senhor distingue a pobreza da miséria?
Sulivan Mota - Acho que na pobreza se enfrenta grandes dificuldades como na miséria. Mas na pobreza há mais possibilidades de crescimento, as dificuldades são impostas pela própria sociedade, o ambiente. Já na miséria, as dificuldades estão também dentro das pessoas, elas incorporam. Então tirar o ser humano da miséria é mais difícil.

OP - Como se recupera o déficit deixado pela desnutrição? Traz prejuízos? Que tipos de prejuízos?
Sulivan Mota - Todo déficit vem por destruição dos neurônios. Estes neurônios afetados jamais são recuperados. Todo o trabalho durante meses, anos são a partir dos neurônios remanecentes para haver uma compensação daqueles que foram afetados. Estes neurônios remanescentes são estimulados a compensar atividades que deixaram de ser desenvolvidas pelos neurônios afetados.

OP - A gente falou muito sobre a desnutrição até agora. Mas e o problema da obesidade?
Sulivan Mota - É um problema de saúde pública hoje. O professor Lício Campos, da UFC, fez uma pesquisa e constatou que 20% dos alunos da cidade de Fortaleza apresentam sobrepeso ou são obesos. São indicadores de países desenvolvidos como Estados Unidos. Ou seja é um problema de saúde pública. Os trabalhos no Brasil são pequenos, isolados. Mas mesmo estes tipos de trabalho mostra que é uma realidade brasileira. Muitos são conseqüência de uma questão cultural, como no Ceará. As crianças estão acostumadas a uma dieta rica em farinha e massa.

OP - O que mudou no comportamento dos médicos e das mães desde que o senhor começou a clinicar?
Sulivan Mota - O avanço do conhecimento sobre o ser humano. Mas a sua necessidade é a mesma. O médico era a pessoa que dominava, dono do conhecer. Hoje, a gente sabe que é necessário trabalhar em equipe. Nenhum profissional pode se isolar. As mães estão mais preocupadas com a saúde e o pediatra precisa conversar, orientar, principalmente na primeira gravidez. Todo cuidado com a criança está dentro do contexto, não existe uma regra, está dentro do lógico e muda de uma criança para outra. Um dos cuidados é como vestir. A gente copiava muito. As crianças saiam da maternidade e se você não olhasse para o sol parecia que a gente estava em Bariloche porque a criança era toda enrolada em lã: luvas, gorros... Hoje já se sabe que dentro do útero a temperatura é elevada, o ambiente é apertado e aconchegante. Por isso, na primeira semana, as crianças são enroladas como charutinhos, mas com roupas de algodão. Depois de sete dias, a criança tem calor como qualquer pessoa. É só olhar para si e ver como está vestido e se é confortável e fazer o mesmo com a criança. Hoje a participação da mulher e, sejamos justos, do pai, tem aumentado muito. Não só por uma necessidade financeira, mas também o de formar vínculos mais fortes dentro da família da criança com seus pais. Antes, a criança era entregue às babás e a mãe era somente uma fonte de alimentação.

OP - A formação do pediatra oferecida pela universidade consegue responder às necessidades do Brasil?
Sulivan Mota - Não responde, principalmente na relação médico-paciente. Mas o que nos alegra é que já existe esta preocupação. Foi lançado um livro recentemente por três professores, Álvaro Madeiro Leite, João Macedo e Andrea Caparra, que trata sobre o assunto.

OP - Quais as dificuldades que o pediatra recém-formado enfrenta?
Sulivan Mota - De compreender a necessidade da clientela que temos. O médico precisa se relacionar com seres humanos e não com doentes. O médico sai da universidade com uma formação muito voltada para a doença.

OP - O que o levou a trabalhar como voluntário em uma instituição como Iprede?
Sulivan Mota - Foi o local que encontrei, anos atrás, há cerca de 8 anos, para colocar à disposição meu conhecimento. Comecei aqui trazendo estudantes, minhas turmas de aula da UFC. O estudante de medicina é um estudante muito elitizado, a começar pela seleção do vestibular que exige os melhores resultados. Eles desconhecem como vivem a maioria da população, que está dentro da miséria. É a chamada invisibilidade social. Está na nossa frente e não enxergamos. Tenho alunos que perguntavam: "Onde este pessoal estava que eu não conhecia, que não via?". Eu respondia que estava dentro de nossas casas, fazendo a faxina. A partir daí os laços foram aumentando. Fui vendo a necessidade e comecei a contribuir dando plantões de domingo. Depois passei para a direção. Foi um ato de nobreza da direção anterior ao observar que poderia passar o trabalho para as nossas mãos. E que estando em uma universidade, teria mais facilidade de fazer convênios, trazer pessoas de universidades. Houve o gesto de nobreza de conselheiros e diretores de renunciar e passamos a ser responsáveis.


INSTITUIÇÕES

Núcleo de Tratamento e Estimulação Precoce (Nutep)
O Núcleo de Tratamento e Estimulação Precoce (Nutep) é uma instituição sem fins lucrativos, que funciona no Complexo Hospitalar da Faculdade de Medicina da UFC, desde de setembro de 1987. Desenvolve atividades docente-assistenciais na área de desenvolvimento infantil. Funciona como centro de referência no Ceará para o atendimento às crianças que estejam sob o risco de apresentar distúrbios no desenvolvimento neuropsicomotor.
Endereço: rua Papi Júnior, 1.225, Rodolfo Teófilo
Telefone: (85) 3223 4522
www.nutep.com.br

Instituto de Prevenção à Desnutrição e à Excepcionalidade (Iprede)
O Instituto de Prevenção à Desnutrição e à Excepcionalidade (Iprede) é uma referência no tratamento da desnutrição, nas regiões Norte e Nordeste. A instituição, que completou 20 anos de atividades, atua também na assistência em saúde de crianças e adolescentes até 20 anos com distúrbios nutricionais, que inclui não só a desnutrição, mas sobrepeso e obesidade.
Endereço: rua Professor Carlos Lobo, 15, Cidade dos Funcionários
Telefone: (85) 3218 4000
www.iprede.org.br

Núcleo de Atenção Médica Integrada (Nami)
Em 1978, a Universidade de Fortaleza (Unifor) criou o Núcleo de Atenção Médica Integrada (Nami), seu primeiro núcleo de extensão, para atendimento médico de natureza primária e preventiva para a população residente próxima ao campus. Beneficiando diretamente moradores da comunidade do Dendê, mais de 2.000 famílias dessa comunidade estão cadastradas, o equivalente a mais de oito mil pessoas recebendo atenção à saúde, gratuitamente.
Endereço: avenida Desembargador Floriano Benevides, 223
Telefone: (85) 3477 3613
www.unifor.br

Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae)
Trabalha com a inclusão social de pessoas com deficiência, além de promover e articular ações em defesa dos seus direitos. Também representa as pessoas com necessidades especiais junto a organismos nacionais e internacionais para melhoria da qualidade dos serviços.
Endereço: avenida Rogaciano Leite, 2.001, Engenheiro Luciano Cavalcante
Telefone: (085) 4012 1403
www.fortaleza.apaeceara.org.br

Casa da Esperança
Tem serviços de avaliação, diagnóstico e acompanhamento de paciente com autismo, além de atendimento ambulatorial especializado. Para facilitar a inclusão social, educacional e ocupacional de todas as idades, há programas de escolarização, educação profissional, musicalização e vivência terapêutica. Também oferece atendimento para a família.
Endereço: rua Francílio Dourado, 11, bairro Luciano Cavalcante
Telefone: (85) 3081 4873

Associação Beneficente Cearense de Reabilitação (ABCR) - Centro Infantil
Atende crianças com deficiências múltiplas oferece serviços ambulatoriais e de fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia e serviço social. São 16 casas em Fortaleza e quatro no Interior (Aquiraz, Beberibe, Maracanaú e Juazeiro do Norte).
Endereço: rua Caririaçu, 57
Telefones: 3214 0411 ou
3452 6391

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