Eleuda de Carvalho
da Redação
Antonio Olinto esteve na cidade para o lançamento da biografia sobre o poeta Gerardo Mello Mourão, de quem foi amigo. O escritor foi adido cultural do Brasil na Nigéria, experiência que marcou sua produção romanesca. Escreve poesia, faz crítica literária e está, há dez anos, na Academia Brasileira de Letras. Mineiro de Ubá, Olinto é cidadão do mundo
07/05/2007 01:01

O primeiro contato com Antonio Olinto foi por telefone. O escritor aceitou, mui gentilmente, escrever um artigo sobre o poeta Gerardo Mello Mourão, para caderno especial em sua memória, publicado em março. No final de abril, ele esteve em Fortaleza, para apresentar o livro A Saga de Gerardo: um Mello Mourão, biografia escrita por José Luís Lira. Um dia antes, recebeu o Vida & Arte. Disse: "Estou muito honrado em vir aqui, para o lançamento deste livro, feito por um cearense, ótimo escritor, em quem Rachel de Queiroz acreditava muito - foi ela quem mo trouxe, pra falar de modo clássico! E o Lira está agora escrevendo um livro sobre mim, o escritor Antonio Olinto, o seu amigo Antonio Olinto". Olhos azuis, em contraste com as sobrancelhas espessas e negras, o poeta, romancista, crítico literário e artista naãf fala de maneira envolvente, mesclando uma linguagem simples a alguns vocábulos rebuscados. Nada de pedantismo. Talvez, o vezo da infância e adolescência de aluno interno em seminário.
Na contramão de tanta gente ilustre (ou não) que acrescenta letras exóticas ao nome, ele facilitou o seu. Do extenso Antonio Olyntho Marques da Rocha, nascido na cidadezinha mineira de Ubá, em 1919, ficou apenas o prenome duplo. Ao sair do seminário, Olinto foi ganhar a vida dando aulas de latim. Depois, o jornalismo entrou na sua história, para não sair mais. Durante 25 anos, ele assinou uma coluna literária diária no jornal O Globo, do Rio de Janeiro. Bem longe de se aposentar (acho que escritores nunca se aposentam), Antonio Olinto escreve, toda terça-feira, um artigo no jornal A Tribuna. E edita o Jornal de Letras, mensal. "Continuo praticando a crítica literária sem parar", diz, sorrindo.
Em 1994, Antonio Olinto recebe o prêmio máximo da literatura brasileira, pelo conjunto da obra - o Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras. Três anos após, ele seria eleito para a cadeira 8, que pertenceu a Antonio Callado. A estréia literária foi com a poesia, quando Olinto contava cerca de 30 anos - e havia carimbado bastante seu passaporte. Depois de Presença, um hiato até a publicação de O Dia da Ira, em 1959, quando ele já havia encontrado sua alma gêmea - a escritora, dramaturga e jornalista Zora Seljan. Com ela, viveu três anos na Nigéria e mais duas décadas em Londres. Enquanto morou no exterior, Antonio Olinto foi, por conta própria, uma espécie de embaixador da nossa literatura. E mesmo do nosso país. Ele criou um tipo de conferência, em que sua fala era ilustrada com um grande mapa do Brasil.
Além da literatura, a crítica e o ensaio estão presentes na escrita de Antonio Olinto, autor de uma espécie de manual sobre estética e informação, o livro Jornalismo e Literatura, editado a primeira vez em 1955. Outros ensaios significativos são Para onde vai o Brasil?, publicado em 1977, e Brasileiros na África, este de 1964, retratando a experiência dele e Zora no continente africano. Ainda no âmbito do ensaio, destacam-se Literatura Brasileira, publicado em 1994, e o volume de crítica literária A Invenção da Verdade. Ele escreveu também um livrinho voltado ao público infantil, e ainda sob o influxo de sua vivência como adido cultural na Nigéria, Ainá no Reino do Baobá.
Mas foi no romance em que Antonio Olinto expressou, de maneira mais total, a experiência radical em terras africanas, com a trilogia formada por A Casa da Água (primeira edição em 1969 e publicado em mais de 15 idiomas), O Rei de Keto (1980) e Trono de Vidro (1987). A novela Os móveis da bailarina, a partir de uma história familiar, teve edição especial em cinco línguas, fora o português, em um só volume: inglês, francês, italiano, alemão e romeno. Um dos seus livros mais recentes é Ave Zora Ave Aurora, editado em 2006, em memória de sua mulher, a quem dedicou todos os livros que escreveu. Profundamente católico, coincidiu de Antonio Olinto estar aqui no exato dia em que se completou um ano da morte de Zora, para quem mandou celebrar missa em Fortaleza.
O POVO - Começo perguntando sobre o amor de sua vida. Zora, Aurora, em croata, pra quem você fez o livro Ave Zora Ave Aurora. Como você a conheceu?
Antonio Olinto - Eu tinha uma vida mais ou menos intensa, já fazia uma coluna literária diária para o jornal O Globo, tinha sido convidado pra ir a Suécia, aos 50 anos do Prêmio Nobel, já tinha feito conferências nos Estados Unidos, na França, Suíça, em Portugal. Tudo isso, entre os 18 e os 30 anos, quando conheci a Zora. Tive um outro casamento rápido, que nem foi casamento direito. Estava sozinho no mundo, em 1955, com 35 anos de idade. Mas, dez anos antes, em 1945, eu estava no Vermelhinho, que era o café dos poetas, dos boêmios. Alguns nem eram tão boêmios, como o Jorge de Lima, o Carlos Drummond de Andrade. Eu ia lá para conversar com os poetas. De repente, um amigo meu, Luciano, que era pintor, acenou para uma moça que passou do outro lado da rua, ele fez assim pra ela, a moça fez assim pra ele, sacudiu o braço. Perguntei, quem é? - É Zora Braga. Porque ela tinha sido casada com Rubem Braga. Olhei assim, vi aquela moça, ela deu uma volta, a saia dela rodou também, achei aquilo bonito. E ela dobrou a esquina. Nunca mais vi. Dez anos depois, o José Condé, que era meu colega no jornal, me disse, você não quer ir a uma festa de escritores no sábado? - Aonde? - Na casa de Zora. Ela, todos os sábados, reúne escritores na casa dela, em Copacabana, é muito agradável. Disse, eu vou, com todo prazer. E lá fui eu, com o José Condé. Tinha muitos jornalistas de esquerda e eu era do O Globo, um jornal reacionário. Quando entrei na festa, vi uma porção de jovens esquerdistas, eles me olharam assim meio espantados. Naquele tempo, um repórter do O Globo não ia a uma festa de esquerda. Não ficava bem. Pensei, ih, o negócio tá ruim... Mas Zora me tratou muito bem. Tinha um toca-discos, ela botou uma música, me tirou pra dançar. Porque ela não admitia que na casa dela um hóspede fosse maltratado. Começou aí. Daí marquei pra nos encontrarmos na praia, domingo, onde se namorava. Ainda hoje se namora lá, em Copacabana, mas naquele tempo namorava-se mais. Hoje, os lugares para namorar são mais diversificados. Como ela tinha sido casada no civil só, eu também, então procurei Dom Hélder Câmara, o padre e bispo mais famoso da época e meu amigo. - Ô, Dom Hélder, quero me casar no religioso agora. Sou católico, minha primeira mulher era protestante. E Zora também não se casou porque o ex-marido não quis. Então, somos catolicamente virgens. O que o senhor acha? Ele disse, não vão fazer uma coisa muito pública não. O bispo de Niterói vai casar vocês. E lá fomos nós, de barco. O casamento durou 52 anos. A partir daí, tivemos uma vida em comum, os dois escritores, ela especializada em teatro africano.
OP - Foi através dela sua ligação, seu interesse pela África?
Antonio Olinto - Foi, inteiramente. Ela já tinha vários livros sobre o assunto.
OP - E como foi sua ida para lá, como adido cultural?
Antonio Olinto - O Tancredo Neves era o primeiro ministro, ele me chamou, disse, Antonio, estamos agora com relações com a África, sua mulher já tem livro sobre África. Estou querendo lançar você pra ser adido cultural do Brasil na Nigéria, você aceita? - Com o máximo prazer! Então fomos e ficamos três anos. Nestes três anos, mudei inteiramente a minha vida, não só a filosofia de vida, em contato com o espírito africano, com a filosofia africana, a poesia africana, o modo de viver africano. Encontrei o meu assunto. Já tinha escrito poesia, conto, mas não tinha encontrado o assunto.
OP - Não tinha nenhum romance em mente, antes de chegar a África?
Antonio Olinto - Não, não tinha romance nenhum. Depois dos três anos, escrevi o livro Brasileiros na África, sobre nossa viagem. Mas romance não. Só o romance é capaz de transmitir, em toda a sua integridade, uma mensagem. Escrevi primeiro um romance chamado A Casa da Água. Coloquei uma familiazinha, cinco pessoas, saindo do Piau, em Minas Gerais, pegando o navio na Bahia, de vela. Eram ex-escravos que queriam voltar. Eles trabalhavam, ganhavam dinheiro, pagavam a alforria e iam. Então, foi-se a família toda, levaram seis meses, numa viagem que leva duas semanas, porque faltou vento.
OP - Foi o começo de sua trilogia de tema africano?
Antonio Olinto - Quando fui pra África eu me descobri. Eu era um poeta, fazia muita crítica literária. Mas quando eu cheguei lá, me descobri escritor. E descobri um assunto, o assunto africano. Claro que, desde criança, fui criado no meio, no interior de Minas, onde houve senzalas, com toda aquela população negra perto da gente. Fui criado por uma negra, que me punha no colo, saía pra passear comigo. O Piau, a terra da minha mãe, era um arraial, não era uma cidade. Antes de ir pra África, fui à Bahia, com a Zora, que me ensinou, e eu aprendi, com os candomblés da Bahia. Passei a ser Obá de Xangô, no candomblé de Mãe Senhora. Quando cheguei na África, descobri uma nova civilização. Realmente, é uma nova civilização. Porque o africano pensa diferentemente de nós. O africano não vê a rosa, ele é a rosa que ele vê. Não existe pra ele o sujeito e o objeto separados. Sujeito e objeto se unem. Ele não dança apenas, ele é a dança, ele é a comida que ele come. Nós também somos, mas não sabemos. Este modo africano entrou em mim. Daí os meus romances surgiram disso, os meus personagens agem africanamente. Uma vez, na casa de um africano, eu disse, tem que derrubar esta árvore, sua casa pode cair. Ele olhou pra mim, disse assim, derrubar a árvore? Eu não posso derrubar a árvore. Um deus mora ali. - É só naquela árvore que mora um deus? - Não. Em toda árvore mora um deus. Não há maior defesa da ecologia. Na Amazônia, derrubam florestas. Através disso fui percebendo e vendo a filosofia de vida deles, que é diferente, realmente. Ainda perguntei, mas você pode derrubar aquele galho? - Não! Num galho pode morar um deus menor. Isso foi o que descobri e resolvi mostrar nos meus livros, esta identidade do homem com a natureza. Por isso estamos destruindo a natureza, porque perdemos esta identidade. Isso a África me ensinou. Outra coisa, o modo africano de viver é muito íntimo, de muita amizade. Eles são muito íntimos entre si, embora também briguem. Todo mundo briga. Mas o modo deles sentirem a vida em comunidade é curioso. Tanto que é muito difícil você ver um mendigo na rua. Todo mundo arranja como comer. E os brasileiros que lá chegaram também começavam a se adaptar. Aqueles que tinham perdido o sentimento africano, chegando lá recuperam. Porque eles levaram do Brasil uma coisa diferente, uma coisa que eles também têm mas aqui é fortíssimo: a alegria de viver. Apesar de tudo. E o ex-escravo que saiu daqui levou esta alegria de viver pra África. Levaram o bumba-meu-boi e o carnaval pra lá. Nosso carnaval veio de Veneza, veio da Europa, e aqui misturou-se com a cultura africana. Quando falo de Jorge Amado lá fora, por exemplo, digo que o Jorge Amado é o grande mestre da alegria de viver. Raramente você encontra, nos romances dele, uma falta dessa alegria. Inclusive, na obra dele, o sexo é alegre, não é triste, não sofre. O negro se converteu ao catolicismo e levou seus orixás, São Jorge ele transformou em Ogum. Eles levaram não só os santos, mas gente assim como o Padre Cícero. Também aí é uma religião católica alegre, não é muito preocupada com o pecado não. É preocupada com a alegria. Me lembro, lá no Piau, na terra da minha mãe, quando eu ia à missa de domingo com ela. Olhava pra trás, mais da metade dos que assistiam a missa eram negros, descendentes de escravos, mas inteiramente catolicizados, chamando às vezes a atenção de minha mãe, que era muito católica. Eles ensinavam a ela.
OP - E depois da experiência na África, você não voltou logo ao Brasil...
Antonio Olinto - Depois disso, fui ser adido cultural em Londres. Eu e Zora moramos na Inglaterra 26 anos. Mas fazia conferências na Austrália, na China, no Japão, em toda parte. Era uma vida muito intensa. Inventei uma coisa chamada Literatura com Mapa. Peguei um mapa do Brasil, grande. Quando chegava num país, pra falar sobre literatura brasileira, punha o mapa na parede, dizia, este é o Brasil. Ninguém conhecia o Brasil, hoje pode ser, naquele tempo não. Eu explicava o tamanho do Brasil, é quatro vezes a Austrália. Agora vou falar dos escritores pelas regiões. Aqui é o Amazonas, aqui é o Pará. Temos o Dalcídio Jurandir, falava dele. Aqui temos o Inglês de Souza, falava dele. Oswaldo Orico. Aí passava pro Maranhão, falava desde o tempo de Gonçalves Dias. Depois vinha para o Ceará, Rachel de Queiroz. E falava sobre os produtos. A cana-de-açúcar produziu Zé Lins do Rego. O cacau, Jorge Amado. A seca produziu Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos. E ia até o Rio Grande do Sul. Eu dava uma aula de Brasil, ao mesmo tempo em que dava uma aula de literatura. De vez em quando me ligavam, você não quer vir aqui fazer uma daquelas conferências com o mapa? Até no Brasil é bom, já fiz aqui também. Dá uma idéia geral. E com isso comecei a escrever livros baseado nisso, como a Breve História da Literatura Brasileira. Comecei a estudar o sertão, com o Euclides da Cunha, Guimarães Rosa. Depois o litoral, de Machado de Assis aos outros. Jorge de Lima e a poesia dele, de cultura negra. E isso me deu uma tal propaganda, fui falar na Universidade de Oxford com o mapa. Um inglês se levantou no final da conferência, disse assim, o senhor está falando sobre estes assuntos todos... Mas vocês não estão matando índios lá não? Realmente, já matamos muitos índios, com uma política errada, não só agora mas sob Portugal e Espanha, assim como a Inglaterra e toda a Europa, na África. E hoje tentamos corrigir esta política. Isto criava discussões muito boas. Uma vez, um professor alemão. Eu acabei de falar do Amazonas e da literatura do Amazonas, ele pediu a palavra, disse, o professor fez uma boa conferência mas todo mundo sabe que a realidade é outra. Nós precisamos criar um comitê internacional junto com a ONU para dirigir a Amazônia, o Brasil está jogando a Amazônia fora. Pedi a palavra outra vez. Em primeiro lugar, qualquer idéia de levar estrangeiros pra dominar a Amazônia é guerra. O Brasil entra em guerra, nós vamos brigar, é isso que vocês querem? Vocês não entendem a Amazônia mais do que nós. É uma luta também sobre esta má impressão e sobre o que o Brasil é. Este trabalho continua. Ainda não somos o grande país que queremos ser. Fui à China em 1982. A China tinha passado por Mao Tsé Tung, estava começando a ter um novo governo com Deng Chiao Ping. Pedi uma entrevista a ele, ele me disse, vou mudar tudo na China. - Como, presidente? - Vou investir tudo na educação. - O senhor está certíssimo, é o que todo país deve fazer. O Japão levou duas bombas atômicas pela cara, deixou de existir. Então resolveram: educação. E dentro de 20 anos, um garoto de 14 anos que não passasse no curso ginasial se suicidava, porque não ia ser nada no futuro. Se tornou uma guerra de morte, a educação. Em Londres, eu tinha uma secretária brasileira nissei. Fez curso de letras em Niterói. Ela sabia falar japonês porque os pais eram japoneses, mas nunca tinha aprendido a escrever. Um dia, ela me disse, não conheço a terra dos meus pais, vou passar as férias no Japão. Chegou lá, olhou assim, viu um cartaz muito bonito, perguntou: - O que está escrito ali? Um japonês olhou pra ela, disse assim, a senhora não sabe ler? - Não. Ele saiu, chamou um policial, que prendeu minha secretária. No Japão, um adulto analfabeto é preso. Pra aprender a ler e escrever na prisão. É o que eu, como escritor, venho fazendo, não só com meus livros e minhas conferências, mas lutando pra que se pense nisso. E ninguém está pensando. Se não está todo mundo roubando, claro que não é todo mundo, mas se não é isso, muita gente tola que não sabe nada, que não quer saber de educação. Enquanto não mudarmos essa política, vamos ter que sofrer muito. Na China, estão formando 300 mil engenheiros por ano. Nós não formamos 20 mil. Por acaso falei engenharia, mas pode ser qualquer outra coisa que seja essencial à vida do país. O que o escritor é? Em primeiro lugar, é claro, tem que ter aqueles eflúvios - boa palavra, não é?, que surgem e ele é obrigado a escrever. Mas, além disso, ele tem que fazer com que aquela atividade, de fazer literatura, poesia, romance, crônica, dar aula, de fazer qualquer coisa ligada à palavra, isso faça o Brasil melhorar.
OP - Então, é um compromisso político, em amplo sentido?
Antonio Olinto - E, ao mesmo tempo, condenar, perseguir todos os políticos que não levam a cultura à frente. Perseguir no bom sentido, tem que falar, tem que dizer, o senhor é um imbecil.
OP - E onde entra aí o papel da academia?
Antonio Olinto - A academia começou na França, com o cardeal Richelieu, que fez a academia para chamar a atenção para a cultura francesa. Daí vieram todas as outras. Em 1897, foi a vez do Brasil, há 110 anos, vindo de um grande homem, com um prestígio muito grande, o Machado de Assis. Aqueles fundadores se reuniram ao redor do Machado e resolveram fazer uma academia. Para quê? Primeiro, para defender a língua portuguesa, a nossa língua. Segundo, para defender a literatura brasileira. As duas coisas, a língua e a literatura. A língua, que é nosso meio de transmitir pensamentos. A língua, que é feita para xingar, para amar, para contar histórias, para falar mal dos outros, para falar bem dos outros, esta língua que é a nossa. A academia teve imediatamente um grande êxito. O prestígio de Machado, depois o de Rui Barbosa, logo depois Euclides da Cunha escreveu Os Sertões e entrou na academia. Então, a Academia Brasileira de Letras começou de fato por um grupo de grandes escritores. E os outros foram imitando, mas na Bahia foi três anos antes, em 1894.
OP - A Academia Cearense de Letras também, surgiu em 1894.
Antonio Olinto - Aqui saiu na frente também. Era o momento. Então, vem Machado de Assis, um grande escritor do litoral. Vem o Euclides da Cunha, grande escritor do sertão. Depois vieram outros do litoral, veio Guimarães Rosa, escritor do sertão. Veio Lima Barreto, do povo do Rio de Janeiro. Veio Érico Veríssimo, representando o povo do Rio Grande do Sul. E todos eles começaram a criar um espírito novo. Na academia, o que fazemos e o que queremos? Temos uma reunião, toda quinta-feira, pra discutir os assuntos de língua e a administração da própria academia. Nós não só damos força ao escritor, discutimos a palavra de língua portuguesa. A língua mais falada no mundo hoje é o chinês, um bilhão e 300 milhões de pessoas. Depois vem o russo, o indiano. Das línguas ecumênicas - aquelas faladas em vários países - a maior é o inglês, 500 milhões de pessoas. A segunda é o espanhol, com 300 milhões de falantes, e a terceira é o português, falado por 215 milhões de pessoas. Em quarto lugar é que vem o francês, com 130 milhões. Então, o português é uma língua importante, dentro do panorama cultural. Se a importância da língua tem que ser contada pelo número de pessoas que a falam, então esta língua portuguesa, em terceiro lugar, tem que ser divulgada. E nós não divulgamos! Temos que levar não só produções mas professores pra fora, oficialmente. Os Estados Unidos pagam um grupo de centenas de pessoas pra ir pra fora falar dos Estados Unidos. A Inglaterra faz mais ainda, a Alemanha, todos fazem. O Brasil faz pouquíssimo.
OP - Mas e o Paulo Coelho, imortal da ABL, que faz um sucesso tremendo no exterior?
Antonio Olinto - Este é extraordinário, está com uma vida internacional. Na Rússia, ele tem mais leitores do que no Brasil. De modo que há todo um movimento que o governo se esquece de fazer. Nem vou discutir sobre desonestidade, mensalão. Isto existe mas pode ser derrotado pela educação, só a educação derrota isso. Porque no espírito humano existe um lado mau, existe o ladrão, o assassino. Mas eles não podem prevalecer. Numa sociedade, é preciso que prevaleça o melhor. Somente prevalecendo o melhor, se cria uma grande sociedade. E no Brasil não está prevalecendo o melhor. E temos que lutar por isso. Esta é a missão da Academia Brasileira de Letras, lutar para que prevaleça a inteligência, a língua portuguesa bem falada e bem escrita. Para que prevaleça um Brasil diferente. Que não roube, que não crie um espírito do mal. Agora, sem isso, e sem o amor, nada se faz. Meu livro pra Zora, que faz hoje um ano exato... Depois desses 52 anos, me sentei, fiz um poema pra ela. Em uma semana, fiz 800 poemas, contando a nossa vida e exaltando a pessoa. Depois de fazer isso, um amigo meu, Mauro Salles, a quem eu mostrei, ele leu, me disse, Antonio, você não vai publicar só isso não. Você vai juntar a isso a vida de vocês, contando os livros que vocês publicaram e o que fizeram no exterior. E saiu o livro, mostrando um casal que por acaso deu certo. E que trabalhou em prol da cultura. Com seis anos, eu já escrevia, aprendi a ler com quatro anos.
OP - E quem lhe ensinou?
Antonio Olinto - Eu era filho único e tive uma babá. Analfabeta. Uma tia minha pegou a babá, disse assim, vou ensinar você a ler. Eu, no colo da babá. Era um menino quieto, ficava pensando. Ela começou a ensinar. Uns meses depois... - Mas você é muito burra, não tá aprendendo a ler! Quer ver como o Olintinho já sabe ler? E eu li. Por acaso aprendi a ler, foi por acaso. Eu prestava atenção nas coisas, esta era a minha qualidade. A outra foi a minha frequência, ficar no colo da menina, uma menina de 12 anos, eu com quatro. De modo que aprendi a ler assim e comecei a escrever com seis, sete anos, umas coisinhas pequenininhas. Fui pro seminário, estudei pra ser padre. No seminário escrevi muito, aprendi latim, saí de lá e fui ser professor de latim pra ganhar dinheiro. Todos os professores de latim do Brasil eram ex-seminaristas. Um dos meus colegas de seminário foi o Roberto Campos. Saímos quase juntos e fomos ensinar latim no Rio. E conversávamos em latim! Entrei no seminário com 11, saí com 18. Não namorei, não dancei, não vi cinema, não vi teatro. Internado, de batina. Tinha que aprender, não era? Tinha que aprender latim, grego, tudo! Não é muita vantagem, a vida me forneceu os elementos. Saí de lá com 18 anos e era um intelectual, e não sabia que era. Saí de lá com aquelas preocupações, com o idioma, com o poema, com o conto, o romance, com uma aula, o latim, uma tradução, a crítica. Tudo isso foi feito ali. Na realidade, é o que o brasileiro tem que fazer. E como nem todos os brasileiros vão se dedicar a isso, é preciso que aqueles que se dedicam levem a sério. Para ensinar o Brasil a ser Brasil. Uma vez, estava na Suécia, participando de um seminário sobre língua portuguesa. Lá na hora, um menino sueco, de 17 anos, antes de eu começar, pediu a palavra. Perguntou, o que é que nós estamos fazendo aqui, discutindo língua portuguesa? Pra quê? O maior desprezo... Um professor sueco levantou-se, disse, meu caro, vou lhe explicar porquê. O Brasil tem 180 milhões de pessoas; 230 milhões de pessoas no mundo falam o português. A Suécia tem sete milhões de pessoas. Somente sete milhões falam sueco no mundo. A ninguém interessa aprender sueco, não há um curso de sueco no exterior. Uma língua com 230 milhões de pessoas nos interessa, não acha? Deu uma lição. Uma lição que mostra a importância dessa língua de Camões, que hoje é a língua de Machado de Assis, de Euclides da Cunha, de Jorge Amado, Guimarães Rosa, Ariano Suassuna. Eles moldaram esta língua, criaram novas coisas e ela hoje é nossa. E a Suécia, que tem o prêmio Nobel, tem falando sueco menos do que a população do Rio de Janeiro.
OP - E só um escritor de língua portuguesa, o Saramago, ganhou um Nobel de literatura. Mas nenhum escritor brasileiro chegou a receber o prêmio.
Antonio Olinto - O Jorge Amado foi candidato, o Érico Veríssimo e o Gerardo Mello Mourão. Nenhum dos três ganhou. Sabe como é que Portugal ganhou? Durante 12 anos, Portugal convidou membros da academia sueca de letras para visitarem Portugal. Pagando hotel, mostrando tudo, fazendo festas com escritores e tal. Depois deste esforço hercúleo, saiu o prêmio. Alguém no Brasil se preocupou em convidar um sueco pra vir aqui? Porque eles têm de conhecer. São os membros da academia sueca quem dão o prêmio. Quem deveria fazer isso? O governo brasileiro, através do Itamaraty. Pra isso, tem que sentar e fazer uma política. Não fazem as políticas normais de dar salário, vão fazer essa? Não entra na cabeça deles, tem que martelar muito, muito, muito. Dar em cima, re-re-rê!
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