Paula Lima
da Redação
Da reportagem policial para tevê, onde completa agora três décadas de atuação, com o lançamento de um livro. Mote é o que não falta para uma boa conversa com Aguinaldo Silva, o autor de grandes sucessos do horário nobre da Rede Globo
26/02/2007 01:37

Atire a primeira pedra quem nunca acompanhou, mesmo que eventualmente, uma telenovela. Ter que esperar até o dia seguinte para ver se a mocinha beija ou não o mocinho, se a vilã é desmascarada em flagrante ou se mais uma peça do misterioso assassinato é revelada, é, para cerca de 40 milhões de brasileiros, uma tortura (e um prazer). Esse público que normalmente acompanha as telenovelas no País é quem mais entende do assunto, garante Aguinaldo Silva, autor de históricos sucessos da teledramaturgia, como Senhora do Destino e Fera Ferida.
Conhecedor como poucos do métier e bastidores folhetinescos, Aguinaldo comemora três décadas de carreira este ano com a estréia de uma nova novela em horário nobre (Duas Caras, na Rede Globo) e lançando um livro que classifica como sua “auto-biografia ficcional”, 98 Tiros de Audiência.
Pernambucano, ativista do movimento gay nos anos de repressão, jornalista e escritor, Aguinaldo revela nesta entrevista que nunca deixou de se sentir testemunha da informação e que faz da obrigação de contar (documental ou ficcionalmente) os fatos que presenciou o seu dever de ofício. “Embora eu esteja na televisão, continuo me considerando jornalista, sempre fui testemunha dos acontecimentos e achava que um dia iria escrever sobre esses fatos que presenciei, que testemunhei ou sobre os quais ouvi falar”.
Durante os 30 anos de carreira na televisão o que não faltou a Aguinaldo Silva foram boas histórias para ver e ouvir. Na véspera de uma viagem a trabalho para Portugal, onde está ministrando um workshop para 10 roteiristas, o autor conversou por telefone durante mais de uma hora com O POVO e contou sobre muitas dessas histórias, comentou os bastidores das telenovelas, admitiu que adiou mais uma vez a sua sonhada aposentadoria, analisou os reality shows, a diversificação na produção de telenovelas no Brasil e disse que não vê sucessores para sua geração de noveleiros.
O POVO - Depois de saborear sucessos históricos na teledramaturgia brasileira, o que você apontaria como os ingredientes de uma boa história de televisão?
Aguinaldo Silva - Uma coisa que eu aprendi depois de 13 novelas é que não existe uma fórmula. Porque a novela depende muito do momento, de você acertar o que as pessoas estão querendo ver, o que elas estão querendo discutir, e essa vontade popular ela muda constantemente. Vamos dar um exemplo prático: a história do mensalão, há um ano todo mundo só queria falar disso, e até antes mesmo da eleição ninguém mais queria tocar nesse assunto. Infelizmente, claro. Então o autor de novela tem que estar muito antenado para saber o que naquele momento da novela dele as pessoas estarão querendo ver. Quando ele acerta isso, é a fórmula do sucesso. Quando não acerta, a novela existe, mas não provoca aquele burburinho.
OP - O que vale e o que não vale para aumentar o Ibope de uma novela?
Aguinaldo - Não vale você ser desonesto com o telespectador, você tentar enganá-lo. Por exemplo, aconteceu esses dias aquela história terrível com uma criança no Rio de Janeiro, o João Hélio. Eu acho que seria muito desonesto se amanhã um autor de novela, aproveitando-se da notoriedade do fato, usar esse fato na trama, entendeu? Ele vai dizer que está querendo discutir a violência, mentira! Ele está querendo provocar o público e alcançar um alto índice de audiência. Isso não é honesto, não é legal, é manipulação e é um erro. Na busca do Ibope, você tem que saber que existem limites, você não pode transpor esses limites, porque aí você vira um canalha.
OP - Você tem planos de se aposentar da Globo, parar de escrever novela e se dedicar à literatura...
Aguinaldo - (Risos) Eu realmente já falei isso, o grande problema é que eu adoro escrever novela, o ato de escrever, o resto, ou seja, toda a responsabilidade que resulta disso, eu acho muito estressante.
OP - Que tipo de estresse é esse tão preocupante?
Aguinaldo - Deixa eu falar uma coisa pra você, a novela no Brasil, eu não sei se para o bem ou para o mal, se tornou uma coisa importante demais. Como o autor é a única pessoa que sabe o futuro da novela, até onde vai a história que ele está contando, ele acaba sendo o receptáculo de toda essa tensão, essa pressão que a novela provoca. E isso é terrível, há momentos que você acha que não vai suportar. É o público, a emissora, a mídia, é tudo, todo mundo em cima do autor, de olho. Quando você tem uma certa idade, que é o meu caso, você fica pensando: meu Deus vou perder um ano e meio da minha vida! Isso faz você pensar quando é a hora de parar, mas eu não posso nem pensar nisso porque vou começar uma novela agora (risos).
OP - Como você analisa, hoje em dia, os conflitos que viveu em Roque Santeiro com Dias Gomes, em 1986, quando ele quis retomar a novela depois que você alavancou o Ibope?
Aguinaldo - Naquela época eu era um autor praticamente iniciante. Já tinha feito Plantão de Polícia, Lampião e Maria Bonita e em Roque Santeiro o autor consagrado era o Dias, então de nós dois quem podia ser generoso era ele, não eu. Não podia abrir mão do meu trabalho, que era algo importante. Quando ele pediu para eu deixar a novela para que ele escrevesse o fim, uma das exigências que ele fez foi para que eu silenciasse sobre isso. Eu não poderia falar sobre o assunto e eu achei que se eu fizesse isso eu me tornaria sempre um mero colaborador, um autor meio secundário. Aí eu resolvi que não. Aquele trabalho era meu e eu tinha que deixar claro que era meu. E como eu tinha lidado com a imprensa durante todos os meses que a novela esteve no ar, ou seja, era a mim que eles recorriam, foi só eu dizer que saí da novela porque o Dias pediu - pediu não, exigiu -, que se criou um escândalo. Eu aprendi uma lição que foi muito importante: se você quer se realizar no seu trabalho, você não pode fazer concessões. Você tem que ter consciência do seu valor, do seu trabalho e lutar por isso até o fim. Foi isso o que eu fiz e provavelmente não seria o autor de novelas se eu não tivesse lutado pelo valor do meu trabalho em Roque Santeiro.
OP - E de lá pra cá, como você resumiria a trajetória que te levou ao grupo de cinco autores do horário nobre da Rede Globo?
Aguinaldo - O que eu procuro sempre é ser o mais profissional possível. Quando me pedem uma novela, para mim é como se fosse a primeira. Eu tenho que dar tudo por essa novela, porque dela depende meu futuro como autor. E sou até mais radical, cada capítulo da novela que eu escrevo é como se fosse o penúltimo. Talvez por isso tenha chegado a essa posição da qual você falou agora. Eu não sei se sou um dos cinco autores mais talentosos da casa (risos), mas sou seguramente um dos cinco mais profissionais.
OP - Como foi a passagem do jornalismo policial para a teledramaturgia? E das séries para as telenovelas?
Aguinaldo - Deixa eu falar uma coisa pra você, nunca me passou pela cabeça algum dia me tornar autor de televisão. Eu era um autor de livro e era um jornalista, a televisão pra mim era um veículo do qual eu era apenas telespectador. E telespectador eventual, porque como jornalista eu trabalhava à noite, não tinha hora para sair da redação, então nem tempo para assistir eu tinha. Essa passagem do jornalismo para a televisão foi uma coisa que não estava nos meus planos, por isso eu sempre digo eu não sou novelista, estou novelista (risos). O que eu continuo sendo realmente é jornalista.
OP - Então como surgiu a oportunidade de escrever uma novela?
Aguinaldo - Essa história é ainda mais incrível. Porque eu fui para a televisão para escrever Plantão de Polícia, depois as minisséries e novela era uma coisa que realmente não estava nos meus planos. Eu era um mero telespectador. Um belo dia, eu recebi um telefonema do Boni, para ir à sala dele. Quando eu entrei no elevador, ia subindo também uma senhora, que olhou pra mim e disse: “Você é o Aguinaldo Silva? E eu sou a Glória Perez e o Boni me chamou para uma reunião agora”. Eu disse: “Ele também me chamou!”. Quando entramos na sala dele, ele disse: “vocês dois vão escrever juntos uma novela das oito”. Duas pessoas que nunca tinham se visto antes foram escaladas para escrever uma novela juntas! Evidentemente que essa novela não deu certo (risos). Foi Partido Alto, mas aí depois que não deu certo, surpreendentemente a TV Globo resolveu que cada um de nós, à nossa maneira, poderia continuar escrevendo novelas. E estamos até hoje, cada um na sua (risos).
OP - Quem você apontaria como seus sucessores, e de onde virão esses autores, já que a Rede Globo não tem mais a Oficina de Autores que formou tanta gente?
Aguinaldo - Olha, eu vou ser direto, não vejo uma nova geração de autores de novela das oito. Porque novela das oito é muito específica, não é que ela seja a mais difícil de escrever. Difícil é a das sete, eu não saberia escrever uma novela das sete, mas a das oito tem um peso maior, é uma novela adulta entre aspas. Eu não vejo quem desses autores talentosos de novelas das seis e das sete poderia escrever para o horário nobre. Realmente não vejo. De onde vão sair os novos autores eu não tenho a menor idéia, eles têm que ser descobertos e formados. Não me parece ser essa a política atual da empresa, o que me preocupa muito, porque eu me sinto como se fosse uma ararinha azul (risos), um animal em extinção. Nós somos cinco apenas, agora. Por isso quando eu escrevo novela estou trabalhando com equipes cada vez maiores, na próxima vou trabalhar com seis pessoas. Porque procuro passar para elas tudo o que eu aprendi, para ver se com o tempo elas possam se tornar um autor de novela das oito e passe a dividir o trabalho comigo. Eu quero trabalhar menos (risos).
OP - Como você avalia o crescimento da produção de telenovelas de outras emissoras?
Aguinaldo - Com muito otimismo, a TV Record entrou num campo muito produtivo, prestigia autores brasileiros, já está colhendo os frutos disso. Enquanto o SBT continua fazendo aquelas novelas mexicanas, a Record seguiu por outro caminho e autores como Tiago Santiago, Marcílio Moraes, Lauro César Muniz já são nomes de peso e o trabalho que está sendo feito é muito bonito. Quanto maior o mercado de trabalho, melhor para todos nós.
OP - Você assiste às novelas? Quais problemas que você apontaria nas produções de outros autores?
Aguinaldo - Não sou noveleiro (risos), mas assisto a capítulos e dou rasantes na novela dos outros (risos). Nas novelas da Record, eu vejo problemas técnicos muito grandes ainda. Problemas de iluminação, de áudio, entende? Coisas que eles vão resolver, claro. O padrão Globo de qualidade não nasceu do nada, e sim da experiência, então se a Record bota três novelas no ar por dia, com o tempo ela vai ter o padrão Record de qualidade.
OP - Como você avalia o advento dos reality shows. Você acha que eles ameaçam a hegemonia da telenovela no imaginário popular?
Aguinaldo - Ah, não. O reality show depende muito de uma conjunção de fatores. Por exemplo, o último Big Brother que funcionou foi o que tinha o Jean Willys, porque havia uma harmonia entre as pessoas lá dentro. As pessoas até assistem, mas não com a sofreguidão que vêem uma novela. E a tendência é a fórmula ficar meio gasta, porque o reality show não conta uma história, ele é sempre a mesma falta de história. Aquelas pessoas lá deitadas, - desculpe a expressão - de bunda pra cima e não saem disso. Eu se fosse diretor de um reality show criaria tarefas para aquelas pessoas. Vamos ver quem lava uma trouxa de roupa mais depressa (risos). Eles não fazem nada lá dentro a não ser beber e falar abobrinha, então não vejo muito futuro.
OP - Qual cena da televisão brasileira você gostaria de ter escrito?
Aguinaldo - Existem aquelas cenas inesquecíveis. A Gabriela no telhado eu gostaria de ter escrito, aliás o Walter George Durst autor de Gabriela, a novela, foi um mestre para todos nós e está totalmente esquecido. A cena da briga das irmãs em Dancing Days (de Gilberto Braga), com a Joana Fomm com a Sônia Braga, é outra maravilhosa. As cenas da Dona Redonda, em Saramandaia (de Dias Gomes), também.
OP - Quais são suas influências literárias e visuais?
Aguinaldo - Eu nunca começo uma novela sem antes dar um folheado em Balzac. Todas as novelas estão no Balzac, é só você escolher (risos). Quando eu não faço isso com Balzac, faço com Charles Dickens, que é o pai do folhetim. A novela é uma coisa do século XIX. Então esses dois autores como novelistas são minhas grandes influências. Eu vejo um filme por dia, adoro cinema. Aprendo muito, procuro dar uma linguagem o mais cinematográfica possível às minhas novelas. Gosto de Truffaut, Tom Ford, geralmente filme americano para quem é roterista inspira mais.
OP - O livro 98 Tiros de Audiência, que você acaba de lançar, conta os bastidores de uma novela das oito que é cheio de intrigas. Na receita: uma diva da televisão cheia de probelmas pessoais; o Ibope da trama que começa a despencar; uma veterana das telas frustrada com um papel secundário; um galã irritado com os atrasos das gravações; e um autor que enlouquece. Quanto de verdade existe nessa ficção?
Aguinaldo Silva - Bom deixa eu te falar, eu estou na televisão desde 1978, ou seja, há 30 anos, e antes de trabalhar na televisão eu era jornalista. E em 1974 saí do jornal para ir pra televisão. Então eu sempre tive esse espírito investigativo do jornalista. Então embora eu esteja na televisão eu continuo me considerando jornalista, e sendo fui testemunha dos acontecimentos e achava que um dia iria escrever sobre esses fatos que presenciei, que testemunhei ou sobre os quais ouvi falar. Então o livro é fruto desta minha longa experiência no setor de telenovelas, de ficção televisiva. Todas as histórias são verdadeiras, mas a todas elas eu acrescentei o tempero de ficção, e com isso elas passaram a não ser mais verdadeiras. Por isso que as pessoas identificam personagens, esse aqui é fulano, esse é beltrano, mas na realidade não é. O livro é uma síntese de toda a minha experiência nos bastidores da televisão.
OP - Mas a gente fica tentando identificar mesmo. A Folha de S. Paulo chegou a especular que a Aurora Constanti, protagonista do livro e a tal diva problemática, seria uma mistura de Vera Fischer, Susana Vieira e Regina Duarte. Em algum momento essas atrizes serviram de inspiração para a Aurora?
Aguinaldo - (Risos) Olha, na verdade essas atrizes fazem parte do imaginário popular brasileiro, não é? A Vera Fischer foi durante muitos anos um símbolo sexual e até hoje ela é considerada como tal, embora já seja uma senhora. A Susana e a Regina foram, cada uma à sua maneira, namoradinhas do Brasil. Mas muitas histórias que eu coloco na pele da Aurora Constanti aconteceram com outras atrizes que não essas três. Atrizes até anteriores a essas, como Tônia Carreiro. Na verdade eu misturei tudo. Eu criei uma diva, uma estrela, que é a Aurora Constanti, que é uma síntese de todas essas grandes divas que povoam o universo das telenovelas.
OP - E na realidade quem dessas divas que mais causou problemas nas gravações de novela, assim como a personagem do livro?
Aguinaldo - Primeiro eu tenho que falar de mim mesmo e tenho que falar que nunca tive problemas com atrizes. Tive alguns problemas com atores, mas nada tão terrível. Por exemplo, quando a Vera Fischer fez Riacho Doce, que era uma minissérie minha, as cenas foram gravadas em Fernando de Noronha e tinham instalações bastante precárias, ela realmente sofreu muito com isso, mas foi profissionalíssima. Estava sempre lá, fez tudo, não atrasou nada, não deu nenhum piti. Então, pelo menos dessa vez, ela não foi Aurora Constanti (risos). Agora já tive problemas com atrizes antes de começar a novela, que não querem fazer o personagem, mas aí essas eu descarto.
OP - O livro faz uma crítica à vaidade da fama. Até onde esse tipo de coisa interfere no seu trabalho?
Aguinaldo - Olha, eu sempre procuro trabalhar com atores, que são pessoas bem menos preocupadas com esse tipo de coisa. Eu digo atores de verdade. O ator se expressa através do trabalho dele, não tem essa preocupação de ser uma celebridade a qualquer preço. Agora, quando a pessoa que você escolhe para sua novela não é um ator, é apenas uma celebridade ou uma pessoa “divindida”, como diz o José Wilker (risos), ela só quer aparecer. E o que significa aparecer? É estar em determinados tipos de mídia o tempo inteiro. É sair nas capas de certas revistas. Esse tipo de pessoa não me interessa.
OP - O protagonista da novela do livro diz que quem matou a Aurora foi a mídia. A imprensa é mesmo tão cruel com as celebridades?
Aguinaldo - Não, eu acho que a imprensa é um pouquinho cruel com as pessoas que trabalham em televisão. Porque a mídia desdenha um pouco dessas pessoas. É como se a televisão não fosse uma coisa séria, entende? Veja bem, uma novela de televisão atinge 40 milhões de pessoas. Em qualquer veículo, qualquer coisa que atinja esse público tem que ser encarada com seriedade. Eu acho que a mídia especializada tem uma tendência a considerar a ficção televisiva uma coisa menor. E não é, porque ela atinge um público muito grande. Existe uma crueldade sim, por determinados setores, mas não todos.
OP - Quanto do Everardo Lopes - o autor da novela do livro - tem do Aguinaldo Silva?
Aguinaldo - Tem tudo (risos). Eu sempre digo isso, se eu tivesse que identificar algum personagem do livro eu diria: Everardo Lopes sou eu (risos). Claro que com alguns exageros. Porque veja bem, os personagens de ficção são sempre exacerbados. Na vida real ninguém é como personagem de novela. Na novela as pessoas mal podem respirar porque acontecem coisas o tempo inteiro. Na vida real as pessoas acordam, trabalham, voltam pra casa, de vez em quando acontece uma coisa que a gente diz: sabe o que me aconteceu ontem? (risos). Na novela não, o “sabe o que me aconteceu?” é constante. Então embora o Everardo seja eu, ele foi pintado com as cores fortes da ficção, cores essas que eu realmente não tenho (risos).
OP - Então conta qual a verdadeira sensação de um sucesso de 98 pontos de audiência, que você viveu em Roque Santeiro, porque no livro é uma história engraçada...
Aguinaldo - Na verdade as sensações do Everardo são um pouco as que eu tive. Tentei transformar estas sensações que eu tive na época com Roque Santeiro, em ficção. Mas na verdade o Everardo Lopes é um somatório de todas as virtudes e defeitos de um autor de novela das oito, que é uma pessoa muito poderosa, que tem que ter os pés no chão o tempo inteiro senão ele enlouquece. Eu acho que o Everardo Lopes enlouqueceu (risos).
OP - Por que é tão perigoso não manter os pés no chão, o que o sucesso é capaz de provocar num autor?
Aguinaldo - A gente se sente Deus. É uma sensação muito agradável, mas perigosa, porque a novela é uma coisa vã, que acaba. E quando a novela acaba perde a importância. O que passa a valer é a novela que está começando. Então o autor tem que ter muito cuidado com essas crises de onipotência que sofre. Tem sempre que levar em conta que quando a novela acaba, o poder dele também acaba. Pelo menos até a próxima novela e ele volta a ser uma criatura igual às outras (risos). Mas a sensação de poder que você tem é realmente uma sensação de poder muito grande.
OP - Como foi sua experiência como colaborador do O Lampião, e qual a importância do jornal para o movimento gay de hoje?
Aguinaldo - O Lampião foi muito bom porque foi um jornal sem vergonha. No sentido literal da expressão, ou seja, O Lampião mostrou para as pessoas que elas não precisavam se envergonhar pelo fato de serem diferentes e a diversidade não era um pecado, e sim algo que agregava todas as correntes de pensamento e comportamento. O Lampião foi muito importante porque quando os jornalistas resolveram escancarar n´O Lampião que eram homossexuais, aquilo serviu de alento para muita gente que estava escondida dentro do armário. Hoje temos o Clodovil como um dos deputados mais votados do Brasil, não estou falando de mérito, mas foi uma das primeiras pessoas que O Lampião entrevistou. O Lampião ajudou a quebrar o tabu que existia na época em relação à homossexualidade. Hoje, tem lugar para um jornal desse tipo? Eu acho que não, porque as coisas estão escancaradas, não tem mais sentido fazer um jornal que levante bandeiras. Você é sua própria bandeira (risos).
Leia mais sobre esse assunto