Ir para a página sobre a Publicidade
Capa O POVO

O POVO Digital

Leia aqui

O POVO Online

RSS - Noticias em Tempo Real

Saiba mais »

Opinião

artigo

Você tem TPM?

Cleto Brasileiro Pontes
16 Ago 2008 - 15h09min

A+ A- Mudar tamanho


A tensão pré-menstrual, como todo fenômeno humano, tem que ser encarada como um fato e esclarecida enquanto conceito. Segundo uma pesquisa realizada pela Unicamp, mais da metade da população feminina padece desde "mal" que, geralmente, se reflete na alteração do humor: irritabilidade, intolerância, impulsividade, enxaqueca são sintomas mais freqüentes, percebido de forma nítida pelas pessoas do convívio, em particular pelo parceiro. Certa feita, numa palestra patrocinada por uma multinacional, em Indianápolis, USA, ouvi de um colega, considerado o maior especialista neste mal, que só os médicos machistas não prescrevem um remédio para o alívio das suas pacientes. A pílula milagrosa era o Prozac, o antidepressivo mais afamado na história da psicofarmacologia contemporânea.

Este fato social exige uma reflexão. Ou seja, a função do conceito é simbolizar o fenômeno. TPM, como fato sociocultural, faz parte da ideologia de uma sociedade de consumo. Por outro lado, a sensibilidade da mulher não poder ser banalizada, muito menos reduzida a uma patologia mental. O mau humor e a intolerância fazem parte da cultura hodierna. Da mesma forma, a dificuldade que se verifica no relacionamento entre nós, humanos. Homem e mulher são complementos naturais e culturalmente amigos e/ou inimigos, competidores natos entre si. Menstruar, a cada vinte e oito dias, é tão natural como as fases da lua, a lua cheia que obedece a este mesmo ciclo. A alteração de humor é fenômeno cultural, refletindo, às vezes, uma luta pelo poder.

Há mais de meio século, chique era parir em casa, parto realizado pelo médico da família e auxiliado por uma parteira de confiança. Cafona, era ir para a maternidade, a não ser que o parto fosse de risco. Com o passar do tempo, foi instituída a moda da dor do parto. A dor que fundamentava a vinda do recém-nascido e, ao mesmo tempo, legitimava o poder de ser mãe, mas o que estava por detrás era, também, o poder hegemônico da Medicina, criando a cultura do parto cesariano, subervertendo a ordem em que o anormal passaria ser o normal, ou o cultural no lugar do natural. Obviamente, que o bom resultado só seria possível numa maternidade.Aliás, terminologia esta inadequada, o certo seria casa de parto, haja vista, que a maternidade é um fenônemo bem mais complexo, que requer muita dedicação por parte da mãe para com o seu bebê. Vale a pena ressaltar que existe etnias, na Polinésia, onde a mulher pode ter vários esposos (poliandria), em que quem sente a dor do parto é pai e não a mãe.

No processo de assentamento dos colonos do Brasil, devido ao escasso número de mulheres brancas, foi instituída uma enfermidade legitimamente nacional: resguardo quebrado. Como o número de matrizes era reduzido, elas tinham que ser "resguardadas".Na casa, o quarto do parto tinha que ser no lado do oitão, parede sem janela para evitar a circulação do ar contaminado (era a teoria miasmática da época). Uma semana sem banho para a parturiente, evitando contaminação por estafilococos, comum em águas poluídas, pois não havia tratamento adequado como a filtração e a pasteurização. Trinta dias de canja de galinha, proteínas valorizadas neste período. O marido não podia levantar "a voz", com o risco de ser responsável pela quebra do resguardo. A sociedade mudou, hoje há mais mulheres do que homens e elas conquistaram, e continuam conquistando, a ampliação do poder real e simbólico, em nível social, abrindo espaço para a afirmação da TPM nessa luta de poder.

Curioso é constatar que os homossexuais, hoje, padecem mais de TPM do que uma mulher bem resolvida sexualmente e em boa situação socioeconômica. "Hoje, estou naqueles dias!". Mesmo sem a ameaça do fluxo menstrual, os gays têm razão em reivindicar não só os seus direitos, mas angariar maior poder na sociedade. Útero vem de hystero (do grego), que também significa matriz. Com tanto "histrionismo", o filósofo Platão deve estar dando boas risadas no seu túmulo, porque ele descrevia o útero feminino como sendo um animal selvagem, migrando no organismo, se fosse para o hipocôndrio, causaria hipocondria, mania de doença e, se subisse para a cabeça, levaria à loucura. TPM é uma manifestação inconsciente pelo desejo de poder.

Cleto Brasileiro Pontes - Psiquiatra, escritor e professor da Faculdade de Medicina da UFC.

Dê sua nota clicando nas estrelas

Espaço dos leitores:

Comentar esta notícia

Seu nome:

Seu e-mail:

Sua cidade:

Comentário:

Importante: Os comentários publicados são de exclusiva responsabilidade de seus autores e as conseqüências derivadas deles podem ser passíveis de sanções legais. O usuário que incluir em suas mensagens algum comentário que viole o regulamento será eliminado e inabilitado para voltar a comentar.

09/10/2008
21:39

meu amigo tenho lido seus artigos.. e tenho percebido que essa solidariedade, chamando para que pessoas comuns, que nem precisando ser SAL...pois tem muito SAL tambem sem sal...que devem acordar, e começar a participar nesse mundo da falação "com cnsistencia".. e aos pouco passarão a entender que quanto mais SALGADA a FALAÇÃO, melhor fica a saude. fisica e mental. E no popular fazendo o rito "BOTAR PRA FORA" com o sucesso de o "BATER NA TESTA", o que ficou escrito com a finalidade de se passar a ser lido e o que for lido passando depois a ser falado... assim vale a pena doar seu tempo tão rico para os desprovidos até de O SAl VIRTUAL. Dizem, faz é tempo, que; O VERBO ERA DEUS

lferraiolo@hotmail.com

Este comentário é inapropriado? Denuncie

Ver todos os comentários

Botao para a página sobre a Publicidade

Indique esta notícia

Seu nome:

Seu e-mail:

Nome do destinatário:

E-mail do destinatário:

Ir para a página sobre a Publicidade

Charge

Ir para a página sobre a Publicidade

© 2008 O POVO - Todos os direitos reservados