Prof. José Borzacchiello da Silva
19/07/2008 14:13
Nunca tivemos tanta necessidade de planejamento. As eleições se aproximam e aquecem o debate político. A cidade é posta em questão e os candidatos fazem leituras de seus problemas mais prementes. Se tivermos a pachorra de levantar o que já foi prometido, descobriremos que Fortaleza deveria ser perfeita tal a quantidade de obras e serviços prometidos. A utopia de cidade ou o sonho da cidade ideal está presente na cabeça da maioria das pessoas, inclusive nas dos candidatos e de seus assessores. Uma enorme distância separa a cidade ideal da cidade real. Sabe-se que são inúmeros os limites impostos à gestão urbana.
Diante de incertezas quando se relaciona receita e despesa surgem dúvidas, muitas dúvidas. O que fazer? A que custo? Como estabelecer prioridades mantendo o espírito de justiça social característico das sociedades democráticas? O momento político é oportuno à discussão de programas de governo de nossos candidatos. O que fazer com Fortaleza? De que forma pensar a cidade na perspectiva de se produzir um espaço urbano constituído de territórios e lugares marcados pela solidariedade típica de uma sociedade construída nos pressupostos dos direitos sociais básicos? Não conheço nada melhor que planejamento. Fortaleza é uma cidade peculiar.
Assentada em região plana, seu sítio não criou nenhuma dificuldade para que ela se expandisse. Entretanto, essa expansão foi avassaladora na perspectiva da exclusão social, e arrasadora no que tange à relação com a natureza. A proximidade entre ricos e pobres gerou uma espécie de acomodação que perpassa a lógica dominante do planejamento da cidade. O crescimento pós anos setenta do século passado foi desastroso. Fortaleza só foi pensada sob a ótica do físico territorial, quando planejar era confundido com abertura de novas vias, desconsiderando totalmente a realidade social. Política de remoção de favelas afastava os pobres de áreas que rapidamente se urbanizavam. Data desse período vários conjuntos habitacionais precários construídos na longínqua periferia. A cidade cresceu, chegou até eles.
Quem lá estava apartado e segregado, “incomoda” novamente. Quem poderia imaginar que imensos areiais e lagoas do entorno da cidade ficariam tão valorizados com a especulação imobiliária? Não há melhor exemplo que a grande Água Fria que rapidamente se transformou com longas avenidas, residências de luxo e comércio de grande porte. O mesmo ocorreu com o Pirambu. A luta histórica de seu povo é um exemplo de movimento de resistência. Tráz à lembrança a figura de padre Hélio e revela que não há mais lotes disponíveis no litoral norte da cidade.
E o Planejamento, o que ele faz? Antes de ser aplicado sob uma perspectiva de gestão científica no sentido de gerenciamento e de administração, ele foi antecedido por várias abordagens, sendo a dos utopistas aquela que permitiu a fusão de uma visão idealista do urbano. Sua eclosão liga-se às precárias condições vividas pelas cidades no início do século XIX. Muitos dos problemas contemporâneos que nos afligem como questões ligadas ao saneamento básico foram discutidos na Europa e nos Estados Unidos há muito tempo atrás.
Em Paris, a epidemia do cólera, de 1832, provocou uma grande discussão sobre as condições sanitárias nas cidades e, principalmente os problemas coletivos de higiene. Longe de se discutir o planejamento urbano, o ideal da cidade perfeita, era concebido e construído pelos homens alimentando sonhos e devaneios. Na Inglaterra, Thomas More propôs A ilha da Utopia, em 15l6. Sua cidade idealizada continha um conjunto de cinqüenta e quatro cidades grandes, bonitas e parecidas - verdadeiro espaço de práticas comunitárias, de ajuda mútua, de fartura e de felicidade.
No Brasil, o planejamento urbano decorre da constatação do tamanho desmesurado que as cidades assumiram nos últimos anos. Esse crescimento inédito constatado no interstício de 1950/2000 favoreceu a emergência de um urbanismo apressado, na perspectiva de mudança radical da forma urbana, associando práticas racionalistas e utópicas. Os candidatos não devem esquecer que o urbanismo emergiu como instrumento do Estado, para controle do caos das cidades. Cabe mesclar suas utopias com o cotidiano contido na cidade real. No calor do debate, é aconselhável que nossos candidatos não negligenciem o peso do Estado no estabelecimento de políticas de controle e reestruturação do espaço da cidade.
Prof. José Borzacchiello da Silva - Geógrafo e Professor da UFC
borza@secrel.com.br
Devemos lembrar que a política do PSDB para o interior, nesses 20 anos que governou o Ceará, foi desastrosa. Nesse tempo, a cidade passou de UM MILHÂO para quase DOIS MILHÕES E MEIO de habitantes, para um território de 330 km2. É difícil se fazer planejamento urbano com a cidade recebendo 45 mil novos moradores todo ano, sendo que a grande maioria é de "retirante", demandando por habitação, saúde, escola, transporte, etc.
Francisco Mendes