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São Bento e vida beneditina

Dom Antônio Fernando Saburido, OSB


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19/07/2008 00:12

Dia 11 de julho, toda a Igreja celebrou a memória do grande Patriarca do Ocidente, São Bento. Italiano, nasceu em Núrcia, na Úmbria, em 480. Era estudante de Direito em Roma, durante o tempo das invasões dos bárbaros, que se espalhavam pela Europa inteira, quando se sentiu chamado a dedicar toda sua vida ao serviço do Senhor. Resolveu refugiar-se em uma gruta nas montanhas de Subiaco, região escolhida por várias monges, para experiências eremíticas. Naquele lugar de silêncio e oração, teve as devidas condições de compreender a missão para a qual Deus o chamava. De Subiaco partir para Montecassino e, ali, erigiu um Mosteiro, onde iniciou vida cenobítica, tornando-se Abade de um grupo de monges para os quais escreveu a famosa Regra beneditina. Criou, então, o monaquismo ocidental, fixo à sua abadia pelo voto de estabilidade e, fixando todas as condições para o monge poder, em relativa calma, doar-se ao trabalho, ao ofício divino e à contemplação. São Bento teve a sabedoria de saber dosar uma vida ascética bastante rigorosa, porém, com a devida moderação, evitando os excessos. Morreu em 547, com fama de santidade, cercado pela comunidade monástica, na capela do Mosteiro.

Além da Regra de São Bento que deixa transparecer muito da sua vocação e personalidade, tudo o que se sabe a seu respeito, tem como fonte o livro dos Diálogos, de autoria de São Gregório Magno - Papa. Nele, encontramos a história de um santo homem inteiramente disposto a fazer a vontade de Deus. Por graça divina, teve oportunidade de realizar numerosos milagres e, sobretudo, iniciar uma obra que não ficou restrita a Montecassino, mas logo se espalhou pelos cinco continentes. A milenar ordem beneditina tem dado grande contribuição à Igreja, ao longo da história. Dentre os filhos de S. Bento, foram escolhidos mais de “40 papas e 150 cardeais e não menos de 20.000 bispos. Temos também, aproximadamente, 15.700 importantes escritores e literatos, que muito têm ajudado na formação doutrinal e catequética” (Dic. de termos religiosos e afins - Áquilino de Pedro).

O carisma beneditino continua sendo bastante motivador, contestador e atual, num mundo voltado para os valores temporais, onde o consumismo e o individualismo encontram bastante espaço. Diferentemente, o monge é convidado a renunciar a tudo, inclusive sua própria vontade, e viver em comunidade sob a presidência de um Abade que, no Mosteiro, faz às vezes do Cristo. Quem decide entrar no Mosteiro o faz para procurar, verdadeiramente, a Deus, através do caminho da santidade, pela oração e o trabalho. (ora et labora).

Os beneditinos estabeleceram-se, definitivamente no Brasil em 1581, quando o Padre Fr. Antônio Ventura do Latrão e alguns monges da Congregação Beneditina de Portugal fundaram a Abadia de São Sebastião em Salvador-BA, primeiro cenóbio da Ordem de São Bento no continente americano. Posteriormente foram fundadas a Abadia de Nossa Senhora do Montserrat do Rio de Janeiro, provavelmente em 1586, a Abadia de São Bento de Olinda em 1590 ou 1592, o extinto Mosteiro na Paraíba do Norte, atual João Pessoa em 1596 e a Abadia de Nossa Senhora da Assunção da cidade de São Paulo, em 1598, além de outros pequenos mosteiros no século XVII. Em virtude do bom acolhimento recebido pelos monges, bem como pelo desenvolvimento de suas fundações, a partir de 1596 os mosteiros passaram a formar a Província Beneditina do Brasil, dependente da Congregação Beneditina de Portugal, filha da Congregação de Valladolid, na Espanha, que, por sua vez, provinha da Congregação de Santa Justina, na Itália, atual Congregação Sublacense. Em 1827, o Santo Padre leão XII declarou desmembrados da Congregação Lusitana os Mosteiros do Brasil, tornando-os independentes sob a denominação de Congregação Beneditina Brasileira, através da Bula ‘Inter gravissima’” (site Oblatos - Mosteiro de São Bento de SP).

A Congregação Beneditina do Brasil tem como presidente o Abade Emanuel D’Able do Amaral, do mosteiro de Salvador, e conta com 5 abadias e 5 priorados conventuais, masculinos e 10 abadias e 7 priorados conventuais, femininos. Somam, no presente momento, 218 monges e 305 monjas, num total de 523. Existe também, no Brasil, a presença de outras congregações beneditinas estrangeiras, além de algumas fundações sob a responsabilidade do Bispo Diocesano.

É bastante popular a Medalha de São Bento, difundida no mundo todo desde o século XVII e aprovada pelo papa Bento XIV, em 1742. “Numa face figura o Patriarca São Bento, tendo numa das mãos a Regra que escreveu e na outra a cruz, com a qual operou em sua vida tantos milagres. Na mesma face lêem-se as palavras: “Crux Sancti Patris Benedicti” (Cruz do Santo Pai Bento). Na outra face figura uma Cruz, tendo no braço vertical as letras C.S.S.M.L.e no horizontal as letras N.D.S.M.D., que significam respectivamente: “Crux Sacra sit mihi lux” ( A Cruz sagrada seja minha luz) e “Non draco sit mihi dux” (O dragão não seja o meu chefe). Circulando essa Cruz, em toda a volta da medalha, figuram ainda as letras: V.R.S.N.S.M.V.S.M.Q.L.I V.B., Iniciais da seguinte oração exorcística: “Vade retro satana, nunquam suade mihi vana, sunt mala quae bibas, ipse vevena bibas” (Afasta-te de mim, satanás, não me persuadas de tuas vaidades, o que me ofereces é o mal, bebe tu mesmo teus venenos)” (livro: Vida e Milagres de São Bento - São Gregório Magno).

Dom Antônio Fernando Saburido, OSB, - Bispo da Diocese de Sobral


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