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Mares do Sertão

MARES DO SERTÃO

Fugindo da seca, o açude

Luiz Henrique Campos - Textos
Sebastião Bisneto - Fotos

As muitas dificuldades de um ano de seca levaram 470 homens a deixar Itaperoaba, em Sobral, e andar três dias a pé à procura de serviço. O destino que os levou a sair em busca de comida acabou lhes reservando um espaço na história ao construírem o açude General Sampaio


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29/08/2007 22:47

(Foto: Sebastião Bisneto)
(Foto: Sebastião Bisneto)

1932. Ano de seca. Na comunidade de Itaperoaba, em Sobral, faltava comida e meios de consegui-la. Nada para fazer. Nada de comer. A saída era aceitar qualquer trabalho que garantisse o sustento. Foi em busca desse objetivo que 470 homens deixaram a cidade para começar a construção do açude General Sampaio. Não sabiam que o destino lhes reservaria parte da história da região.

Entre esses homens estava José Alves Duarte, na época com 18 anos. A primeira viagem, entre veredas e estradas de difícil acesso, foram quase três dias a pé. Na dura lida, coube a ele a função de utilizar a picareta para escavações. Ao final de três anos a barragem virava realidade. Muitos dos trabalhadores, porém, não tiveram o prazer de vê-la pronta. No período, várias mortes ocasionadas pela febre tifóide.

Os homens que fizeram a história do General Sampaio, no entanto, foram muitos mais do que os 470 de Itaperoaba. Para a construção chegou gente de todo o canto do Estado, relatam os antigos. Acidentes aconteceram poucos, apesar de ter sido a primeira obra em que a então Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (Ifocs), hoje Dnocs, utilizou a técnica de compactação mecanizada.

Cangaceiros de lampião ainda encostaram por lá, se infiltraram entre os operários e levaram alguns para o bando. Uns 20 ainda foram. Arrependidos, acabaram voltando. Os que conseguiram chegar até o final da construção admitiram não acreditar, de início, que a obra fosse concluída, que fosse dar no que deu. Entre eles, José Alves Duarte, dos poucos ainda vivos a relatar aquela saga.

Depois da construção do General Sampaio, José Alves não conseguiu mais sair de perto da sua obra, da sua história. A primeira morada foi a quatro léguas (24 Km) do açude. Depois foi se mudando e chegando mais para a cidade. Atualmente mora na área urbana. Trabalhou na agricultura, foi vazanteiro do açude, de onde conhece casos engraçados. Como o dos Pirarucus de 100 quilos e outro 40 quilos, que ele mesmo diz ter pescado. "Como é predador, já tentou virar canoas para tirar os peixes pequenos já pescados", afirma convicto. Quem vai desconfiar?

No dia 1º de março deste ano José Alves foi homenageado pela Prefeitura de General Sampaio com a comenda Prefeito José Feliciano de Carvalho, o primeiro prefeito municipal. Nada mais justo. Na cidade, ao sinal de qualquer necessidade de informação sobre a obra, é sempre indicado o seu nome. O destino fez José Alves escapar da seca, da fome, da febre tifóide, do bando de Lampião e lhe deu oportunidade de fazer história.

Hoje, aos 93 anos, lúcido, José Alves vive recluso em casa na companhia de uma filha e do genro, não se furtando a receber bem e falar sobre a história do açude a quem o procura. É obrigado, porém, a conviver com outra peça do destino. Diabético, descobriu a doença já tarde, e as mesmas pernas que lhe trouxeram de Itaperoaba foram amputadas recentemente.

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