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Mares do Sertão

Contrastes entre a fartura e a subsistência


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29/08/2007 22:47

Sábado é dia de deixar as ilhas do Pentecoste para ir à feira vender animais e comprar mantimentos
Sábado é dia de deixar as ilhas do Pentecoste para ir à feira vender animais e comprar mantimentos


O barqueiro desliga o motor e deixa a embarcação deslizar em direção à margem da Malhada de Cima, uma das ilhas do Pentecoste. Logo se avista seu Correia Lima, 67, cuidando do gado. A apresentação dos jornalistas é feita por técnicos da Cogerh que acompanham a equipe. ''Trouxemos essas pessoas aqui para comprar boi fiado´´, dizem eles, ao que seu Correia, sorrindo, responde: ''Aqui não mora besta, não´´

Não demora e a conversa flui naturalmente, enquanto caminhamos conhecendo um pouco da ilha. As casas bastante afastadas umas das outras são características que marcam o lugar. No centro da comunidade, a igreja, a escolinha de 1º grau para 120 alunos e uma quadra de basquete improvisada servem para unir as pessoas ali residentes. À sombra proporcionada pela entrada da escola convida à parada para alguns minutos de conversa. Tempo suficiente para histórias de mistério e lembranças sobre o Pereirão.

Seu Correia tinha 12 anos quando começou a construção do açude. ''Queria trabalhar lá, mas não podia porque era criança´´. Era um tempo difícil. ''Passei muita fome. Com o açude, melhorou muito, não sei nem ovaloá (avaliar). Se antes passava fome, hoje, aqui, só passa fome quem quer. Tem uma besteirinha aqui, outra acolá, e é só querer trabalhar que consegue´´. Na Malhada moram, 60 famílias aproximadamente.

A história de bonança apresentada por seu Correia, porém, não é unanimidade na Malhada de Cima. Água tratada e luz, é verdade, não faltam. O que é incerto são os recursos para custear o pagamento das taxas por esses serviços. A pesca, reclamam os pescadores, tem funcionando apenas para a subsistência. Não é para menos. Por dia, cerca de 200 canoas se distribuem pelo açude em busca do pescado. Quase sempre conseguem apenas o suficiente para aquele dia. Não tão velhos, os pescadores lembram de épocas mais fartas. Nos últimos cinco anos chegaram a pescar peixes de 25 a 30 quilos.

As contradições cercam os moradores da Malhada de Cima. Mesmo à beira dágua, enfrentam dificuldades para obter o pescado. Ao mesmo tempo também reclamam do custo pago pela taxa de água e luz. Dona Maria Jussara, por exemplo, diz ter pago, no último mês, R$ 24,00 de água e luz, mas considera normal pagar R$ 30,00 pelo uso do telefone celular.

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