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Mares do Sertão

ARTIGO

Do camelo, do açude e do homem que calculava

Hypérides Macedo
Consultor


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29/08/2007 22:47

Açude, palavra de origem árabe, significa reservatório de água para irrigação. A invasão dos povos arábicos que ocuparam principalmente o sul da península Ibérica, incluindo as zonas de Algarve e Alentejo em Portugal, marcadamente difundiu a técnica da açudagem e da construção de cacimba. A colonização do Nordeste por portugueses dessa região sedimentou a cultura do açude na zona do semi-árido.

Pioneiros na utilização do conhecimento grego a partir da Alexandria, inventores que foram do alfabeto, do algarismo e do algorítimo, os árabes criaram a primeira síntese hidrológica da água. O açude é um copo fundo, que guarda a água que chove numa bacia rasa. Pois eles já sabiam, na época, que a evaporação é proporcional à superfície da boca do copo e não ao volume reservado. Somente assim, uma região como a nossa, onde a evaporação anual mede três vezes a chuva média do ano, seria possível dispor de uma reserva de água. Deve-se atentar, ainda, para o fato de que apesar de o espelho d'água do açude, ou bacia hidráulica, ser muito menor do que a área contribuinte para a formação do lago, isto é, a bacia hidrográfica, não se deve fazer açude indiscriminadamente, pois neste caso está-se derramando a água do copo na bacia novamente. Seguramente, dois açudes na mesma bacia rendem menos água do que apenas um de volume equivalente.

Mesmo os espelhos d'água das nossas barragens estratégicas representando, em média, menos de dois por cento da área da bacia hidrográfica, o açude, pela sua geometria em forma de funil, pode perder cerca de 20 a 30 por cento por evaporação. O Canal de Integração perde apenas cerca de um a dois por cento, enquanto a adutora, acondicionando a água em tubo, apresenta perda zero. Assim, é de fundamental importância quando da retirada da água dos açudes, transferi-la por canais e adutoras.

Açude que sangra é mal gerenciado. O açude deve, de forma permanente, vazar ou liberar água pela galeria ou comporta de fundo, e nunca pelo sangradouro. A galeria expele a urina do açude. Se os rins retiram o veneno, os sais e as toxinas do corpo humano, a galeria lança fora os sais, os sedimentos e a matéria orgânica que turvam e apodrecem o corpo d'água. Muita coisa há ainda que se aprender sobre açude, para evitar-se que por ano cerca de dois bilhões do volume das barragens sejam bebidos pela energia do sol. Em nossa cultura sobrevivem muitos preconceitos sobre recursos hídricos. A seca também é falta de um jardim na cabeça das pessoas.

Hypérides Macêdo é consultor em hidráulica, ex-secretário de Recursos Hídricos do Estado e ex-secretário de Política de Recursos Hídricos do Ministério da Integração Nacional

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