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Mares do Sertão

MARES DO SERTÃO

Drama antes da água

Luiz Henrique Campos - Textos
Sebastião Bisneto - Foto

A história do Araras é dramática. A construção exigiu sacrifícios e muitos morreram em condições terríveis. Morador de Varjosta, o carpinteiro José Gerardo Gomes viveu esses dramas


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29/08/2007 22:47

(Foto: Sebastião Bisneto)
(Foto: Sebastião Bisneto)

Os mais antigos na região contam que ao ser questionado sobre se teria valido a pena a perda de tantas vidas para a construção da Barragem Paulo Sarasate, a 250 Km de Fortaleza, o presidente Juscelino Kubitschek teria respondido: "E quantas vidas as águas desse açude irão salvar?". Se a história é verdadeira ou faz parte do folclore, não há como confirmar. A ser verdadeira, o presidente que governou o Brasil de 1956 a 1961 sabia o que estava dizendo.

O Paulo Sarasate, ou Araras, que nasce na cidade de Monsenhor Tabosa, é responsável pelo abastecimento de água das cidades de Hidrolândia, Pires Ferreira, Ipu e Varjota, perenizando o rio Acaraú em 168 km até o mar, beneficiando no total 14 municípios e aproximadamente 500 mil pessoas. Com a bacia hidrográfica cobrindo uma área de 3.520 km, irriga aproximadamente 14 mil hectares nas várzeas do Acaraú, é capaz de gerar 6 mil wats de energia elétrica, sem contar o aproveitamento para a piscicultura e outras culturas à montante.

Mas o possível questionamento ao presidente Juscelino não teria sido feito em vão. Durante a construção da barragem, iniciada em 1951, como atividade de emergência e assistencial, e concluída em 1958, muitos pereceram. José Gerardo Gomes, 77, morador de Varjota, acompanhou a história de perto. Como carpinteiro do Dnocs, ele conta ter tido dias em que chegou a fazer de 4 a 5 "envelopes" para colocar os corpos dos trabalhadores mortos nas obras.

Memória viva daqueles tempos, José Gerardo sente orgulho de ter participado da construção do açude, mas não esconde os detalhes difíceis que marcaram o período, como os desastres causados pelas máquinas utilizadas na construção. "A carrada de areia tirada pelo trator, quando vinha, derramava cobra, raposa, muito bicho vivo. Mas também pedaço de gente. Eu era doido pra comer cabeça de carneiro, mas quando vi as cabeças de gente esmagadas chegando para eu colocar nos envelopes, nunca mais quis comer aquilo".

Na carpintaria trabalhavam 60 pessoas de dia e de noite, relata José Gerardo. Vizinho, ficava a casa de força, primeiro equipamento instalado no acampamento da construção do Araras. Por ironia do destino, o imóvel pertence hoje ao antigo carpinteiro, morando ao lado. Ao revisitar o local, ele parece ainda visualizar direitinho as máquinas e as ferramentas da época. "Ali (aponta com precisão) ficavam os três motores Caterpillar última geração que vieram para cá". Foram esses mesmos motores que, ao término do Araras, foram transferidos ao acampamento da construção do Orós.

Na atual casa de José Gerardo, onde reside com uma filha, funcionava a cadeia pública. Fato que faz questão de contar, mostrando o imóvel e como era sua distribuição à época. "Aqui, de um lado era a cela dos homens, e do outro, em frente, a das mulheres. Todo mundo antes de entrar levava uma palmatória", diz rindo. No pequeno espaço ficavam até 15 pessoas em cada cela. Como a caixa d´água era localizada sobre as celas, quando o clima esquentava abriam a caixa e molhavam todos os presos, relata em tom de galhofa. Reformada, a antiga cela dos homens é agora o banheiro do seu José.

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