Demitri Túlio e Rafael - Luis Textos
Fco Fontenele - Foto
Num ambiente de pouca iniciativa empresarial, o português Afonso de Sousa virou referência com empresa de criação de peixes em tanques-rede no açude Pedras Brancas, em Banabuiú
29/08/2007 22:47

O cenário é tão inóspito que é difícil imaginar que um europeu decida deixar sua terra para arriscar uma nova vida no lugar. No distrito de Pedras Brancas, a 20 quilômetros da sede de Banabuiú, no Sertão Central do Ceará, um empresário português está fazendo dinheiro com piscicultura superintensiva (criação de peixes em tanques-rede), no açude Pedras Brancas. Assim como seus antepassados, que zarpavam para a colônia em busca de oportunidades, Afonso de Sousa, 56, descobriu um nicho de mercado considerado subaproveitado na região.
Sua relação com o Brasil começou há quatro anos, quando viu num jornal de Portugal um anúncio de uma fazenda à venda em Quixadá. Divorciado e com três filhos, ele partiu para a cidade, mas quando chegou viu que não era bem aquilo que imaginava e desistiu do negócio. Pouco tempo depois, no entanto, já em Fortaleza, o português ficou sabendo do potencial dos açudes do Ceará para a pesca e, com isso, voltou para o sertão. No açude Pedras Brancas, no limite entre os municípios de Banabuiú e Quixadá, ele encontrou o local perfeito.
"Sou o único que trabalha com piscicultura no açude", aponta Afonso, antigo paisagista. Favorecido pela queda do pescado nos açudes Pedras Brancas e Banabuiú a partir de 2005, seus peixes criados em tanques-rede viraram solução para atender o mercado da região. "Meu faturamento é de R$ 20 mil por mês. Dentro de dois anos, pretendo tirar o investimento de R$ 100 mil que fiz", conta Afonso, que iniciou a empreitada há dois anos. O português cria tilápias em 50 gaiolas e produz até 150 quilos de tilápia por dia, empregando quatro pessoas.
A empresa recebeu um nome curioso: Súbita Invest. Mais curioso ainda foi a explicação para a origem do nome. "Foi uma homenagem a um jogador que teve morte súbita em campo", explica o português, referindo a Miklos Feher, do Benfica, que sofreu uma parada cardíaca em 2004. "Na época, várias empresas foram abertas em Portugal com o nome súbita", ri Afonso, vangloriando-se da criatividade.
Separado da sede de Banabuiú por uma estrada de piçarra, o distrito de Pedra Branca, com população de cerca de mil pessoas, é um fim de mundo. Para ir a Banabuiú, só mesmo em caminhões pau-de-arara, de saídas e chegadas incertas. "Garantido mesmo só os carros que levam alunos para a escola", diz Eudes Ferreira, que transporta estudantes para a sede. Embora a comunidade more a 30 metros do açude, na região da jusante, a água não tem qualidade para consumo humano. Na estação de tratamento, a água custa 15 centavos o litro.
Numa região de poucas possibilidades, Afonso despertou inveja. Ele não tem muitos amigos e "estranho" é um dos adjetivos pelo qual é lembrado por vizinhos, como indica o administrador do açude, José Roberto Rodrigues. "As pessoas não gostam de mim por causa do meu sucesso, mas a questão é que o povo é acomodado. É mais fácil receber dinheiro do Governo e viver a mesma vidinha de sempre", critica Afonso.
Presidente da colônia de pescadores Z-14, Genival Barreiros concorda com o português e diz que somente a união da categoria os fará superar a entressafra que atingiu os açudes de Banabuiú. "Dos 1.600 pescadores filiados, apenas 30 estão podendo pagar a taxa mensal de R$ 8,00, que garante benefícios como seguro desemprego (pago durante os dois meses da piracema, a fase de reprodução em que a pesca é proibida)", revela. A saída, segundo Genival, seria criar uma cooperativa de piscicultura. "Mas é difícil juntar o dinheiro necessário".
PERFIL
Nome: Pedras Brancas
Inauguração: 1978
Localização: Banabuiú (a 214 km de Fortaleza), no Sertão Central
Bacia: Banabuiú
Capacidade total: 434 milhões de m³
Capacidade atual (*): 144 milhões de m³ (33%)
Última vez que sangrou: 1989
Vazão: 235 litros/s pela válvula dispersora, 95 litros/s para abastecimento de Quixadá e 50 litros/s para uso na montante
Rio barrado: Sitiá
Atende a quê: Abastecimento de Quixadá, oferta de água para a população à montante e perenização do rio Sitiá
(*) Agosto/2007
Fonte: Cogerh
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