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Mares do Sertão

MARES DO SERTÃO

Lugar dos esquecidos

Demitri Túlio e Rafael Luis - Textos
Fco Fontenele - Fotos

Muita água no "mar" do Banabuiú não é sinônimo de qualidade de vida. Falta infra-estrutura...


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29/08/2007 22:47

(Foto: Fco Fontenele)
(Foto: Fco Fontenele)

Às 8h15min, finalmente, o barco ganha o "mar" do Banabuiú. Há 15 minutos, os braços franzinos de Francisco Antonio da Silva insistiam sopapeando a manivela do motor a diesel. O esforço e o vento frio da manhã desmascararam a gripe mal curada do barqueiro. Ele tosse e escarra, seguidamente, nas águas verdes do terceiro maior reservatório do Ceará. No ofício há dois anos, Antonio se acostumou a comandar a embarcação todas as vezes que o patrão Zé Domingos não está. Nosso destino é a ilha do Governo II, há uma hora e pouco de viagem do município de Banabuiú.

Quando não está no leme, Francisco Antonio corre para o meio do barco e retira, na lata, a água que mina dos vãos da madeira encharcada. De rabo de olho, o navegador orienta Valdir Soares - motorista do O POVO, nos atalhos do açude sem fiscalização e salva-vidas. Cuidado. O Banabuiú tem pedras traiçoeiras e uma marola, aparentemente inofensiva, pode mudar o rumo da embarcação. Após a ilha do Jumento (que desapareceu na cheia de 2004), avistamos a ilha do Ivan, o Capão do Maxixe, o Valha Me Deus e. Depois de uma hora e 15 minutos surge o torrão, árido, quente e desmatado do Governo II. Não existem sombras de árvores e os pés-de-plantas que resistem estão cinzas de tanto sol, mesmo com tanta água ao redor.

O Banabuiú, a exemplo do Castanhão e do Orós, tem um cotidiano de contradições. Quem também pensa assim é José Ariston Queiroz, 58, funcionário do Dnocs e administrador do açude. Ele é cicerone na ilha onde mora o povo acolhedor e conformado do comerciante Francisco Pereira Aprígio Filho, 57, e mais 55 famílias que vivem da pesca ou agricultura de subsistência. "A vida aqui é boa", diz sem titubear.

No entanto falta luz elétrica, geladeira, televisão (tem uma à bateria na ilha do Ivan), posto de saúde, água tratada, aterro sanitário, saneamento básico, fossa, escola, computador, praça, novela, automóveis e caminhos de pedra... "Mas não tem violência, tem sossego. Querendo dormir, a qualquer hora, pode deixar a porta aberta. Aqui é perigoso pra ladrão. Todo mundo se conhece", contra-ataca o homem franzino (e engelhado de sol) que veio de Quixadá, com o pai pescador, e sentou praça ali em 1970. Hoje, depois que os velhos (86 e 74 anos) arribaram pra Banabuiú, ele e mais quatro irmãos dividem dez hectares de terra que não pertencem ao Dnocs.

A Copa do Mundo do México foi na base do ouvido no rádio. Desse tempo até a Copa da Alemanha, no ano passado, nasceram e viraram adultos sete filhos de seu Chico Aprígio. "Gritamos quando o goleiro faz uma linda defesa. Mesmo sem ver, comentamos a jogada bonita!", ri Antonio Marcos, terceiro rebento da família Oliveira Pereira. "Só ganhei dois filhos no Banabuiú. Cinco deles descansei com uma parteira aqui na ilha. Só não mostro a casa porque a cheia de 2004 levou ela", conta Maria de Fátima Oliveira Pereira, esposa de seu Chico e gasta para 50 anos de idade.

Antonio Marcos (que nasceu na ilha há 27 anos, que não tem emprego nem renda definida, que casou com a nativa Raimunda Nonata, 23, que está grávida do terceiro filho e que não tem parte da dentadura de cima) reforça que a vida na ilha é pra se "morrer com 95 ou 100 anos". Mesmo que lá seja comum a mocidade não ter a maior parte dos dentes na boca e, que se precise levar a esposa pra fazer o pré-natal na sede de Banabuiú - a seis léguas dali ou 36 quilômetros.


QUEM POLUI O AÇUDE (*)

Banabuiú, Boa Viagem, Madalena, Mombaça, Monsenhor Tabosa, Pedra Branca, Piquet Carneiro, Quixeramobim e Senador Pompeu

(*) Milhã, Morada Nova e Quixadá, que também fazem parte da bacia, poluem o rio Banabuiú à jusante do açude

Fonte: Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh)

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