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Mares do Sertão

MARES DO SERTÃO

Multiplicação dos peixes

Demitri Túlio e Rafael Luis - Textos
Fco Fontenele - Foto

Um grupo de pequenos agricultores de Orós conseguiu financiamento para abertura de associação de piscicultura


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29/08/2007 22:47


Água era um bem distante para Edileusa em São José do Belmonte, no sertão pernambucano. Quando se pega admirando o mundão azul do açude Orós, ela custa a acreditar o quanto sua vida mudou em tão pouco tempo. Há dois anos, a mulher partiu para Orós, a 416 quilômetros de Fortaleza, na região Centro-Sul do Estado, seguindo a mãe, que havia se divorciado do pai e migrado para o Ceará, na década passada. Nos telefonemas, sempre ouvia histórias sobre um mar em pleno semi-árido. Cansada da eterna estiagem, Edileusa Oliveira, 34, largou tudo em busca do oásis e, assim, escreveu novo destino para uma vida que parecia fadada ao sofrimento.

"Em São José do Belmonte a gente tinha seca todo ano e quase o ano inteiro. A água era tão pouca que, às vezes, não dava nem para cozinhar feijão. Quando vejo toda essa riqueza, agradeço a Deus", diz a pernambucana, que em Orós casou com o agricultor Manuel Rodrigues Filho, 40. Nem todas as preces de Edileusa, porém, teriam o mesmo resultado do empurrão terreno que recebeu. Graças a um vizinho que ficou sabendo do Programa Nacional de Geração de Emprego e Renda (Pronager), do Governo Federal, o casal se juntou a 13 moradores do bairro São Geraldo e fundou a Associação de Aqüicultores do Sítio Cedro, ao lado do Orós.

O grupo de agricultores que plantavam para subsistência recebeu financiamento de R$ 45 mil do Banco do Brasil para abertura de empresa de criação de peixes em tanques-rede, uma das dez que conseguiram autorização do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs), órgão que administra o açude, para atuar com piscicultura superintensiva. O dinheiro serviu para compra de alevinos (filhotes) de tilápia, de 90 gaiolas e construção de casa para armazenagem de ração e peixes. "Para quem não tinha nada, foi uma fortuna", relata Manuel.

Como a maioria nunca tinha pescado, o grupo recebeu aulas do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Um ano e meio depois, o negócio engrenou e a associação já possui 150 gaiolas e produz 5,5 toneladas de tilápia por mês. Vendida por R$ 3,50 o quilo, a produção abastece Orós, Icó e Iguatu. Com faturamento mensal de R$ 20 mil, eles já quitaram o financiamento e planejam a construção de casas para suas famílias ao lado do açude.

Por enquanto, o grupo continua morando no São Geraldo, a 2 quilômetros do Orós, e se reveza em duplas na alimentação dos peixes e vigilância das gaiolas. "Precisamos de R$ 30 mil para construir as casas. Dentro de um ano teremos esse dinheiro", estima Manuel. Infra-estrutura, pelo menos, a associação já possui. A água consumida é puxada do açude, por meio de bombas. Já a energia foi garantida pelo programa Luz para Todos, do Governo Federal.

"Duvido que a gente chegasse onde chegou se não tivesse recebido ajuda financeira e orientações técnicas. Quando lembro dos tempos difíceis em Pernambuco, às vezes nem acredito que minha vida esteja tão boa", reflete Edileusa. No imaginário dos 15 integrantes da associação Sítio Cedro, o açude Orós é mais do que a garantia de água para beber durante a fase de estiagem. É a origem do pão de cada dia e, principalmente, fonte de recursos que os transformou, de pequenos agricultores, em empresários de um negócio com potencial.


DICIONÁRIO

Piscicultura extensiva - Quando um açude, reservatório ou lagoa recebe determinada quantidade de peixes para a atividade da pesca das populações de seu entorno.

Piscicultura semi-intensiva - Consiste em maximizar a produção de alimentos naturais num pequeno viveiro (reservatório) para servir como principal fonte de alimentação de peixes.

Piscicultura intensiva - Quando um pequeno viveiro (reservatório) é utilizado com alta densidade populacional de peixes e a alimentação é feita à base de ração.

Piscicultura superintensiva - Quando uma grande quantidade de peixes é cultivada em tanques-rede colocados em açudes, com alta densidade populacional e alimentação à base de ração.


PISCICULTURA

Na primeira fase da piscicultura, cinco mil peixes ficam em cada tanque-rede e são alimentados oito vezes por dia. Na segunda fase, os peixes são alimentados seis vezes por dia. No fim, são reunidos 600 a 800 peixes numa gaiola, com quatro refeições ao dia.

TANQUES
Os tanques-rede possuem, quase sempre, dimensão de 2x2 metros, com 1,2m de profundidade. Eles são revestidos com rede que impede a fuga dos peixes, mas permite passagem da água.

RAÇÃO
A Associação de Aqüicultores do Sítio Cedro utiliza 450kg de ração por dia para alimentação dos peixes nos 150 tanques-rede.


PROJETOS DE PISCICULTURA NO ORÓS

Sítio Jurema - Três projetos beneficiam 30 famílias.

Sítio Pereiro das Pedras (Pereiro II) - Dois projetos com benefício de 20 famílias.

Pão de Açúcar - Dois projetos e benefício de 20 famílias.

Comunidade sede do Orós - Dois projetos que beneficiam 20 famílias

- Os projetos com cativeiros de tilápias foram iniciados em 2003. Durante seis meses as "gaiolas" servem de lugar para engorda dos alevinos de carás. No açude, segundo o Dnocs, pesca-se apaiari, beiru, camarão, curimatã, pescada, piaba, piau, pirambeba, sardinha, tilápia, traíra e tucunaré.

- Segundo a prefeita Maria de Fátima Maciel (PP) são mais de mil "gaiolas" assistidas pelo projeto Produzir. Parceria da Prefeitura e Ministério da Integração. O peixe produzido, além de ser comercializado, é uma alternativa de merenda escolar na rede pública de ensino de Orós.

- Recursos hídricos do município de Orós: açude Orós (bacia do Alto Jaguaribe), rio Jaguaribe e 28 poços.


Fonte: Dnocs e Prefeitura do Orós


TILÁPIA

As perdas no cultivo de tilápia são de cerca de 40%, com morte de peixes ou crescimento abaixo do esperado. Os alevinos são comprados com peso entre 0,5g e 1g e, após seis meses, os peixes pesam entre 600g e 800g.

POLUIDORES
23 municípios poluem o açude Orós e prejudicam a qualidade da água: Acopiara, Aiuaba, Altaneira, Antonina do Norte, Araripe, Arneiroz, Assaré, Campos Sales, Cariús, Catarina, Farias Brito, Iguatu, Jucás, Nova Olinda, Orós, Parambu, Potengi, Quixelô, Saboeiro, Salitre, Santana do Cariri, Tarrafas e Tauá.


Fonte: Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh)


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