Demitri Túlio e Rafael Luis - Textos
Fco Fontenele - Foto
Nas 131 ilhas do açude Orós, pescadores humildes convivem ao lado de mansões até com heliponto
29/08/2007 22:47

Difícil imaginar, mas em pleno semi-árido cearense existem ilhas em meio a mares d´água. De dentro da embarcação, Pedro Vieira da Silva, 52, barqueiro há 16 anos nas "estradas" do açude do Orós, vai esquadrinhando no mapa alguns dos "donos" das 131 porções de terra rodeadas pela imensidão de água doce. Onde a vista alcança: torrões arborizados, casas de luxo, pousada e hotel. Histórias de como esse ou aquele "doutor" conseguiu transportar material para a construção do casarão e do dia em que desceu até helicóptero em uma das ilhas particulares.
É o Orós em uma de suas facetas. No segundo maior açude público do Ceará, tanta água (atualmente 73,63% de sua capacidade, cerca de 1,42 bilhões de m³) não é garantia da divisão de prosperidade. Em seu entorno, nas margens, ilhas e penínsulas encontramos situações diversas. Gente que faz das águas lugar de veraneio ou meio de vida. Que vive da pesca, da agricultura, pecuária, do comércio, da prestação de serviços ribeirinhos ou que, apesar de estar nas biqueiras do Orós, sobrevive de maneira modesta.
"Tem mais pobre aqui do que rico. Quarenta por cento das ilhas é dos homens que têm dinheiro. Médicos, advogados, ex-prefeito e do Fagner que é uma pessoa sensacional. Tem ilha também de morar famílias pobres. Mas se não fosse o Orós do presidente Juscelino (Kubitschek) não existia rico, nem pobre. Não tinha nada, nem cidade", avalia e profetiza o barqueiro Pedro da Silva.
Ele, a exemplo habitantes do semi-árido, é um dos que usam o açude para sustentar a mulher e dois filhos adultos. Cada viagem de barco, dependendo da distância, número de pessoas e do tempo de duração varia de R$ 10,00 a R$ 20,00. "Tem dia ou semana que não ganho nada e sábado e domingo que apuro R$ 35,00 ou R$ 40,00".
O Orós, que em 1993 salvou Fortaleza de um colapso no abastecimento d´água pontável, é explorado oficialmente por 1.580 rendeiros. São famílias que receberam a concessão do Governo Federal para morar e trabalhar em extensões de terra (até 30 hectares) beneficiadas pelas águas do açude, inaugurado em 1960.
Anualmente, por cada hectare, o concessionário paga R$ 2,69 à União. "Mesmo assim, existem inadimplentes. Dos 1.580 rendeiros, 140 deixaram de pagar pelo uso", contabiliza Raimundo Nonato de Sousa, 45, funcionário do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs) há 23 anos. Ele, que é encarregado pelo Setor de Pesca no Orós, revela que o sucateamento administrativo do órgão favorece o calote.
Francisco Germano Moreira, 51, responsável pela unidade do Dnocs no Orós, reforça a denúncia e relaciona alguns entraves. No órgão, que tem 13 funcionários, existe apenas uma moto, ano 2004, para resolver problemas burocráticos da instituição e também servir de veículo para fiscalização dos lotes. As distâncias, garante Germano, não são pequenas e existem lugares onde a motocicleta não consegue chegar. "Por mês recebemos uma cota de 20 litros de gasolina. Na prática, necessitamos de 100 litros".
Os percursos poderiam ser feitos no próprio açude através de embarcação. O Dnocs, no Orós, possui uma lancha. No entanto, conta Germano Moreira, o "barco" motorizado ficou sem motor durante três anos. "Em 2006 ganhamos uma nova lancha, mas falta combustível".
ORÓS
Localização: Centro-Sul do Ceará (microrregião do Iguatu)
Distância de Fortaleza: 354,1 km
Tempo estimado de viagem: 5h9min
Vias de acesso: BR-116 e CE-282/153
Municípios limítrofes: Icó, Iguatu, Jaguaribe, Quixelô e Solonópole
Fonte: Anuário do Ceará/2007
PERFIL:
AÇUDE ORÓS
Nome: Juscelino Kubitschek
Inauguração: 11/1/1961
Localização: Orós (a 416km de Fortaleza), no Centro-Sul do Estado
Bacia: Alto Jaguaribe
Capacidade total: 1,94 bilhão de m³
Capacidade atual (*): 1,39 milhões de m³ (72%)
Última vez que sangrou: 2004
Vazão: 3,5 m³ liberado pela válvula dispersora, 3,5 m³ para irrigação e abastecimento de Orós e 0,5 m³ utilizado pelas comunidades à montante
Rio barrado: Jaguaribe
Atende a quê: Perenização do rio Jaguaribe, irrigação das sub-bacias do Médio e Baixo Jaguaribe, piscicultura, culturas agrícolas na área de montante e turismo
(*) Em agosto/2007
Fonte: Cogerh
PRAGAS
Um problema curioso está na lista de entraves do dia-a-dia do Dnocs no Orós. Os 13 funcionários do órgão foram expulsos de suas salas de trabalho por “cerca de mil morcegos”. Eles fizeram do forro do prédio antigo (de 10 cômodos), lugar de morada e reprodução. Os servidores se apertam (entre máquinas, computadores, estantes e birôs velhos) em um compartimento nos fundos da edificação. O odor é insuportável e as paredes acumulam fezes e urina dos bichos.
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Boa tarde!Sou aluna do curso de geografia da Universidade Estadual do Ceara.Fiquei muito interessada no especial "Mares do Sertão", logo que desenvolvo pesquisa acerca dos açudes públicos do Ceará.Como fazer pra conseguir este caderno especial? Tereza Sandra Loiola Vasconcelos-terezaegageo@yahoo.com.br
Tereza Sandra Loiola Vasconcelos