Demitri Túlio e Rafael Luis - Textos
Fco Fontenele - Foto
Comunidades no entorno do Castanhão vivem realidades díspares. Existem cenários de prosperidade e miséria
29/08/2007 22:47

Maturino Alves Nogueira, 44, não se desfaz do sorriso um só minuto. Bom e ruim para o fotógrafo que, no meio da carregada plantação de mamoeiros, tenta colher também uma foto séria do presidente da Entidade Gestora Curupati-II. Estamos em uma das penínsulas do Castanhão, a 63 quilômetros, ou a meia hora de barco, da nova Jaguaribara. Lá, 69 das 144 famílias assentadas no Curupati-Irrigação plantaram e já estão vendendo a primeira safra de mamão formosa. Duzentas toneladas para o Brasil, Portugal, Inglaterra e Alemanha.
Plantaram também goiaba há cinco meses e esperam, daqui a mais ou menos um ano, negociar a primeira safra. "O mamão, a primeira carga, a gente colhe com oito meses", explica Maturino Alves que antes de plantar mamoeiros e goiabeiras, só havia cultivado arroz, feijão, milho e lidado com gado em um sítio que pertencia ao pai na localidade de Aroeira. Lugarejo que foi inundada pelas águas do Castanhão.
As primeiras colheitas de mamão dão sinais que a história no Curupati-Irrigação pode estar começando a mudar. Segundo Maturino Alves, depois de três anos de espera e promessa não cumprida pelo Dnocs e governo do Estado, chegou verba e finalmente trabalho. "Mesmo assim, a coisa começou esquisita. Ano passado, no mês setembro, faltando poucos dias para a eleição a governador, mandaram gente pra filmar a irrigação. Mas não tinha nem planta, nem fruta. Fizeram umas filmagens, fazendo de conta que já estávamos plantando e passaram na propaganda", ri.
Quem não tem muitos motivos para sorrir é o vaqueiro Francisco Pinheiro Fernandes, 57. Assentado do Mandacaru I, ele é um dos 170 chefes de famílias que há três anos e meio espera pela implantação de um projeto de irrigação na área construída pelo governo federal. Seu Chico Pinheiro, que era morador do fazendeiro Renato Diógenes, foi transferido da localidade de Mucambo (hoje debaixo do Castanhão) para o "bairro" do Mandacaru em Jaguaribara. Com a mulher, dois filhos e uma parenta.
Na mudança, feita na madeira de um barco, um susto e mal presságio para o futuro. No meio do Orós, onde a profundidade pode chegar a 50 metros e se tem ondas de 1,10 m (segundo Ulisses Sousa, do Dnocs), a embarcação afundou e quase se afogam ele, um filho e o barqueiro. "A sorte foi os coletes e Deus. Mas perdi porco e garrotas, 16 bichos ao todo. O Dnocs fez um cálculo, me deu um papel, e disse que ia me pagar R$ 3.300,00. Nunca recebi um tostão. Sorte que tinha um dinheiro e comprei 10 vacas. Se não, estava passando necessidade e fome", denuncia.
CURUPATI E MANDACARU
CURUPATI E MANDACARU
No Curupati I e II, na península do Castanhão, não foi construído cemitério. Maturino Alves diz que quando morre alguém é um problema. “Temos que ir de barco ou carro para Jaguaribara. Fica a 63 quilômetros daqui”. Não existe em Curupati aterro. Um lixão está nascendo às margens do açude. Falta rede de esgoto e calçamento. Igreja no Curupati, só a católica, que recebe uma vez por mês um padre. Não existe templo evangélico.
RENDA
Segundo o tecnólogo Francisco Ronaldo Rodrigues, cada um dos 144 irrigantes do Curupati recebeu uma casa e um lote de 3 hectares. 1,5 é para a plantação de mamão. A outra metade, goiaba. A previsão de lucro para cada família vai variar de R$ 1.000,00 a R$ 1.800,00/mês.
PECUÁRIA
No Mandacaru I e II o projeto, que está atrasado há 3 anos e meio, inicialmente era de irrigação. Por decisão da Associação dos Moradores mudou para pecuária. A maior parte dos assentados trabalhava com o gado antes de ser transferido pra lá.
PIRARUCU
A estação de piscicultura do Dnocs no Castanhão começou este ano criação de pirarucu, que virará alternativa à tilápia. Serão produzidos alevinos (filhotes) para a venda para criatórios de todo o estado.
POTENCIAL
O pirarucu é um dos peixes mais promissores da aqüicultura, pois rende 57% de carne pura, contra 32% da tilápia. Além disso, a taxa de aproveitamento do pirarucu é de quase 100%.
PREÇO
Outra vantagem na migração da cultura da tilápia para o pirarucu é o preço. Enquanto o quilo do primeiro é vendido entre R$ 3 e R$ 4, o preço do pirarucu fica entre R$ 6 e R$ 8. As matrizes de pirarucu da estação de piscicultura do Dnocs no Castanhão pesam cerca de 40 quilos. O maior pirarucu já pescado tinha 305 quilos e foi encontrado em Belém.
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