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Mares do Sertão

MARES DO SERTÃO

Vamos navegar

Temos mares no semi-árido. O Sertão não é só chão talhado, carcaça de boi e retirados de seus afetos. É possível acreditar, como profetizou Ezequiel (47 9-12), que em "qualquer parte aonde chegar o 'açude', qualquer ser que por lá se movimente conservará a vida


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29/08/2007 22:47

(Foto: DEMITRI TÚLIO)
(Foto: DEMITRI TÚLIO)

Temos mares no semi-árido. O Sertão não é só chão talhado, carcaça de boi e retirados de seus afetos. É possível acreditar, como profetizou Ezequiel (47 9-12), que em "qualquer parte aonde chegar o 'açude', qualquer ser que por lá se movimente conservará a vida. Haverá grande quantidade de peixes, pois aonde o 'açude' chega traz saúde, e tudo que entra em contato com ele conservará a vida". Essa idéia da água como sinal de vida é ancestral E futurista também. Nas aventura por outros planetas, a busca pela vida começa pela busca de sinal da água.

Temos mares no sertão do Ceará e ainda titubeamos com a estiagem. Castanhão, Orós, Banabuiú, Araras, Pedras Brancas, Pentecoste e Pacoti. Os sete maiores que, juntos, somam 13.232.670.000 m³ de capacidade - o equivalente a 74,3% da reserva hídrica do Estado. Ainda não aprendemos a conviver no semi-árido e seguimos a política da emergência e dos carros-pipas em 102 municípios.

E porque sobre suas margens e extensões não crescem, mais ou ainda, árvores frutíferas das mais variadas espécies, cujas folhas não murcharão e cujos frutos nunca acabarão? Pé na estrada, os repórteres Cláudio Ribeiro, Demitri Túlio, Luiz Henrique e Rafael Luis, os repórteres-fotográficos Fco. Fontenele e Sebastião Bisneto e mais o motorista Valdir Soares percorreram o semi-árido cearense para procurar caminhos e descaminhos. Mais de cinco mil quilômetros de carro, de barco e a pé.

Existe um mar entre Jaguaribara e Alto Santo que se chama Castanhão. O maior de todos, de fundura de até 50 metros e de haver ondas de até 1,10m. Vida pura e viço azul em pleno semi-árido. Mas floresce pouco em seus arredores. Não era pra menos. Durante quatro anos, constatação do administrador recém-chegado Ulisses de Sousa, o açude passou abandonado e sem administração. Dos projetos de irrigação, piscicultura e pecuária, apenas quatro (com três anos e meio de atraso) começaram a produzir. Muito pouco em meio a 6,7 bilhões de m³ d´água e milhares de necessitados.

Caos administrativo é cantilena por onde passamos. Estado, governo Federal e municípios. O governo do Ceará que emperrou R$ 30 milhões do Castanhão, o Ibama que não fiscaliza, o ribeirinho que desmata, faz coivara (queimadas), constrói fornalhas para fazer carvão e pesca na piracema... Os municípios que mandam lixo e fezes para o Orós (das ilhas dos "doutores") que salvou até Fortaleza de colapso...

O Ceará tem cerca de oito mil açudes, entre públicos e privados, distribuídos em 11 bacias histrográficas. Do total de reservatórios, 126 grandes são adminsitrados pela Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) e pelo Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs). E um alerta: a ONU classifica de 'catatroficamente reduzida' a nossa disponibilidade hídrica por habitnte/ano, que atualmente é de 450m³/hab/ano.

E temos mares no sertão e miudíssima prosperidade. Constatamos. Seca, parafraseando Hypérides Macêdo, é falta de jardins em algumas cabeças. Água, como bem disse Senhorinha da Silva, da Pastoral da Terra, temos muita. Falta abundância de "arvores frutíferas das mais variadas espécies, cujas folhas não murcharão e cujos frutos nunca acabarão; amadurecerão de mês em mês, pois aquelas águas vêm do Santuário. Os frutos servirão de alimento e as folhas de remédio".


DICIONÁRIO

Eutrofização - Processo pelo qual a água se torna mais rica em nutrientes necessários para o crescimento de plantas aquáticas, como algas, podendo ter origem de forma natural ou artificial (por exemplo, por poluição ou efeito de fertilizantes).

Hectare (ha) - Medida equivalente a 10 mil metros quadrados (terreno de 100x100 metros).

Jusante - Dado um ponto num curso d´água, a região para onde a água está indo. No caso de açudes, a região do rio perenizado com água liberada pela válvula dispersora.

Metro cúbico (m³) - Medida que equivale a 1.000 litros.

Montante - Dado um ponto num curso d´água, a região de onde a água está vindo. No caso de açudes, a região no entorno do reservatório, localizada acima do nível da água.

Parede - Barramento artificial que represa a água, construído com areia, pedra e/ou concreto.

Perímetro irrigado - Região de cultivo de agricultura beneficiada com água captada do açude ou do rio perenizado pelo reservatório.

Piscicultura - Cultivo de peixes, pode ser realizado em reservatórios (naturais ou artificiais) e tanques, com os exemplares soltos ou presos em gaiolas.

Rendeiro - Arrendatário que recebeu do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs) a concessão para utilização de terras no entorno do açude. Pelo uso do terreno, de no máximo 30 hectares, o rendeiro paga taxa de R$ 2,69 o hectare por ano.

Sangradouro - Passagem por onde a água transborda para o rio perenizado quando o açude ultrapassa sua capacidade máxima.

Tanque-rede - Espécie de gaiola utilizada na piscicultura, com a criação de peixes (geralmente tilápia) alimentados com ração.

Válvula dispersora - Cano pelo qual é liberada água para o rio perenizado pelo açude.

Vazante - Terra localizada nas margens do açude, é geralmente utilizada para cultivo de capim usado na engorda de gado.

Vazão - Volume de água liberado continuamente pela válvula dispersora do açude para perenização do rio barrado.


Fonte: Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh)


TESTEMUNHAS

Viagem para o sertão nordestino pra mim significa prazer. Para o sertão cearense, pode multiplicar por mil. Gosto de seus cenários (verde, cinza, azul, amarelo ou vermelho), de seus personagens (que estou ligado por parentesco) e de suas percussões (pássaros, chocalhos, vacas, grilos, falas). Muito me admira, também, fazer tantas matérias sobre secas e descobrir, no meio da estrada, que temos mares no sertão. Temos mesmo. Imagine o azul do céu do semi-árido (e é azul mesmo, às vezes flocados de capuchos de nuvens) se emendar com o azul do Castanhão no horizonte? Deslumbrante! Demitri Túlio, repórter


O estado corre o risco de enfrentar, em menos de 18 anos, um processo de escassez hídrica em virtude da irregularidade das chuvas e do acelerado processo de degradação ambiental. Conheci de perto, na elaboração deste caderno, os açudes Pentecoste, General Sampaio e Araras e pude entender o porquê da possibilidade dessa realidade vir a se confirmar. O Ceará tem água, sim. Mas vivemos um dilema quase insolúvel. De um lado, a disputa pelo uso. Do outro, o mau uso ocasionando o desperdício. Em meio a isso, uma constatação: nossos açudes são ricos em vida e beleza. Navegar por eles, conversar com as pessoas ao redor de suas margens, e ouvir suas histórias, gera a obrigação de pensar em como ajudar a reverter esse quadro. Luiz Henrique Campos, repórter


A idéia deste especial Mares do Sertão surgiu há um ano, da cabeça inquieta e do olhar aguçado do repórter Demitri Túlio. Estávamos contornando o Castanhão, numa outra pauta pelo Interior cearense, quando vimos o mar no meio do sertão. A água descendo a linha do horizonte, a mesma imagem que os pescadores têm quando viajam em suas jangadas. Então, acertado o projeto, fomos navegar. Estivemos em sete mares do Ceará e mais alguns. Voltamos cheios de boas histórias. A conferir nas páginas seguintes e no Portal O POVO.com Cláudio Ribeiro, repórter


Sempre me impressiono com pessoas que, em pleno século 21, vivem como no século 19. Na comunidade do Governo II, numa ilha do açude Banabuiú, fiquei me sentindo mal ao conhecer a família que não tem energia elétrica, telefone, fogão a gás, água encanada e serviço de esgoto. Quando o patriarca me ofereceu café feito com água do açude poluído, de início recusei. Mas lembrei das autoridades que dizem trabalhar pelo povo e nunca pisam em lugares com aquelas condições. Não podia cometer tal desfeita. Tomei o copo de café num gole só. Naquela quinta-feira, a família de Chico Aprígio se sentiu importante. Rafael Luis, repórter


Rota I
Repórteres:
Luiz Henrique Campos e Sebastião Bisneto
Quilômetros percorridos: 700 quilômetros de carro e 5 horas de barco
1. Pentecoste (município de Pentecoste)
2. General Sampaio(General Sampaio)
3. Araras (Varjota)


Rota II
Repórteres:
Demitri Túlio, Rafael Luis e Fco Fontenele
Quilômetros percorridos: 1.400 quilômetros de carro e 11 horas de barco
4. Pedras Brancas (Banabuiú)
5. Banabuiú (Banabuiú)
6. Trussu (Iguatu)
7. Orós (Orós)
8. Castanhão (Alto Santo)


Rota III
Repórteres:
Cláudio Ribeiro, Fco Fontenele e Sebastião Bisneto
Quilômetros percorridos: 90 quilômetros de carro e 7 horas de barco
9. Pacoti (Horizonte)


17.787.269.600 m³
Capacidade Total dos Reservatórios do Ceará

13.232.670.000 m³
Capacidade dos sete maiores açudes (em volume)
o equivalente a 74,3% da reserva hídrica do Ceará


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Paraéns pela reportagem. Solicito ao repórter Dimitri entrar em contato comigo pelo E-mail twlassak@gmail.com para captar material para desenvolver a reportagem DPF Thomas Wlassak

Thomas Wlassak

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Complicado adotar esta matéria como parâmetro para avaliar a real situação das disponibilidades hídricas do Estado. Exemplo: cita 6,7 bilhões de metros cúbicos como atual volume do Castanhão. Porém esta capacidade só será preenchida numa improvável cheia deca-milenar, que como o próprio nome diz acontecem somente a cada 10 mil anos. Talvez tenha faltado embasamento técnico aos escribas.

Julio Henrique Sonsol Gondim

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Luiz Henrique Campos, Sebastião Bisneto, Demitri Túlio, Rafael Luis e Fco Fontenele. Impressinante o relato feito por vocês. Isso é que é sensibilidade jornalística, pegar um tema bastante esquecido pela sociedade, relatá-lo com total domínio da escrita. Aos fotógrafos: Vocês sinceramente tem olhares de um contador de história, isso é que é fotojornalismo. Conseguiram que as fotos soassem poéticas e ao mesmo tempo diretas.

Francisco de Oliveira B. Júnior

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