Jesus Rocha
28/06/2008 00:24
Certo domingo desses, apertando o controle da televisão no afã de encontrar algo para assistir, já que a nossa programação televisiva é horrível e nos finais de semana fica mais horrorosa ainda, dei de cara com o meu ídolo desde a adolescência.
Nosso conterrâneo Raimundo Fagner no programa Raul Gil, ouvindo lengalenga e tendo que aceitar um bando de jovens gasguitos e empavonados, deturpando as belas canções que por ele são interpretadas.
Confesso que aquilo doeu nas mais profundas entranhas.
Raimundo Fagner, o homem que gravou tudo, diria que o maior intérprete da MPB dos anos 70 para cá, tendo que recorrer a tão cruel artifício para divulgar seu novo trabalho e ainda por cima, anunciando mediocridades do tipo Jorge Vecilo como coisa boa para o seu CD e se oferecendo para marionetes da mídia, como Ivete Sangalo, para gravar com ele.
Até que ponto teve que chegar nossos grandes artistas. Naquela cadeira do Raul Gil, que a meu ver significa “entreguei os pontos”, já vi outras dimensões como Toquinho, Erasmo Carlos, Dominguinhos enfim, muita gente boa que o apresentador usa para projetar suas crias e obviamente encher suas burras.
Nosso Fagner dos “Canteiros”, de Fausto Nilo, Florbela Espanca, Patativa, Luis Vieira, de Ferreira Goulart, de onde talvez saiu sua mais bela interpretação, traduz-se, agora sujeito a este procedimento. E logo ele, que sempre foi craque em difusão, pois se não me engano, gravou até com a Xuxa. Tendo que, como diz a juventude, “pagar mico” na busca de um espaço tão paupérrimo nos meios de comunicação.
Quero ver Raimundo Fagner de novo como no começo dos anos 80, quando estudávamos para entrar na faculdade, pelo programa de rádio “Vestibular no ar” e no meio de uma aula de física ou matemática ele entrava adoçando nossos corações: “Quem me levará sou eu, quem regressará sou eu. Não diga que eu não levo a guia de quem souber me amar”.