Vera de Abreu P. Araújo
Maria da Penha, excepcional caráter, não pensou somente nela. Escreveu um livro comovente sobre sua vida, alertando as mulheres. Sua sensibilidade levou-a a abraçar a causa das muitas sofredoras, buscando leis que amparassem essas criaturas frágeis
28/06/2008 00:24

Não sei que estranha força me encorajou a adentrar na casa vizinha, ao amanhecer daquele dia de domingo. Na calçada alguns curiosos se aproximavam, mas, temerosos, ali aguardavam o desenrolar dos acontecimentos. Não sei realmente o que me impulsionou, só sei que de repente, me vi na sala de jantar da residência, onde o criminoso compunha o cenário de seu "teatrinho" improvisado. Como um crucificado, os braços abertos presos a grossas cordas, ele insultava a si mesmo, repetindo aos gritos: "eu fui um burro". Não me detive, nem procurei entender, procurava Maria da Penha. Encontrei-a na cama sem nenhum vestígio aparente de violência. Porém, com voz quase inaudível, pediu para levá-la ao Hospital. Ela foi socorrida a tempo, mas travou ferrenho duelo com a própria morte. Vencedora dessa primeira batalha, outras se sucederam. Lutou, sofreu, mas guerreira como é jamais desanimou nem desistiu de seu objetivo maior: livrar a sociedade do responsável por esse monstruoso crime. Em seu caminho encontrou mil obstáculos, mas conseguiu transpô-los. Com determinação e coragem cuidou da educação e do futuro das filhas, naquele momento, ainda tão pequenas.
Maria da Penha, excepcional caráter, não pensou somente nela. Escreveu um livro comovente sobre sua vida, alertando as mulheres. Sua sensibilidade levou-a a abraçar a causa das muitas sofredoras, buscando leis que amparassem essas criaturas frágeis, que antes dessa luta vitoriosa, viviam à mercê da própria sorte, abandonadas à sanha de companheiros covardes, animalescos, condutores de sinais evidentes de atavismo resistente, resquício dos senhores de engenho que escravizavam e humilhavam sem dó nem piedade suas mulheres, lhes confiscando a liberdade, aprisionando seus sentimentos, sonhos e desejos, deixando-lhes profundas cicatrizes na alma sofrida.
Maria da Penha tem na lei Nº. 11.340 o seu nome; a lei que protege, que coloca a mulher em lugar de igualdade, que lhe dá merecido valor. Um homem de verdade, o meu avô, dizia: "em mulher não se bate nem com uma flor". Há muitos homens que pensam e agem dessa forma. Mas a lei Maria da Penha existe para os que transgridem, para os desumanos, para os covardes. E é unanimidade nacional. Inspirou canção popular de sucesso e se expandiu. Depois dela a sociedade se movimentou, associações em defesa da mulher foram criadas. A instalação da Delegacia da Mulher e mais recentemente do Juizado da Violência Doméstica e Familiar inibe de certa forma os agressores, apesar do ainda expressivo número de queixas registradas.
Hoje, o chamado sexo frágil está forte, já se sente mais seguro, não precisa escutar palavras ofensivas e difamatórias, nem suportar maltrato. Adquiriu dignidade. Há um órgão que o apóia e defende. Maria da Penha tem recebido muitas homenagens, mas ainda é muito pouco em vista dos benefícios advindos de sua luta pela libertação da mulher brasileira, que agora não tolera mais a violência nem a opressão de seus companheiros. É cidadã e como tal tem seus direitos garantidos por Lei.
Uma estátua para Maria da Penha!