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MARIA DA PENHA

Uma guerreira

Vera de Abreu P. Araújo

Maria da Penha, excepcional caráter, não pensou somente nela. Escreveu um livro comovente sobre sua vida, alertando as mulheres. Sua sensibilidade levou-a a abraçar a causa das muitas sofredoras, buscando leis que amparassem essas criaturas frágeis


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28/06/2008 00:24

Maria da Penha Maia recebe troféu no 8º Encontro de mulheres Pague Menos, em julho de 2007 (Foto: Evilázio Bezerra)
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Maria da Penha Maia recebe troféu no 8º Encontro de mulheres Pague Menos, em julho de 2007 (Foto: Evilázio Bezerra)

Não sei que estranha força me encorajou a adentrar na casa vizinha, ao amanhecer daquele dia de domingo. Na calçada alguns curiosos se aproximavam, mas, temerosos, ali aguardavam o desenrolar dos acontecimentos. Não sei realmente o que me impulsionou, só sei que de repente, me vi na sala de jantar da residência, onde o criminoso compunha o cenário de seu "teatrinho" improvisado. Como um crucificado, os braços abertos presos a grossas cordas, ele insultava a si mesmo, repetindo aos gritos: "eu fui um burro". Não me detive, nem procurei entender, procurava Maria da Penha. Encontrei-a na cama sem nenhum vestígio aparente de violência. Porém, com voz quase inaudível, pediu para levá-la ao Hospital. Ela foi socorrida a tempo, mas travou ferrenho duelo com a própria morte. Vencedora dessa primeira batalha, outras se sucederam. Lutou, sofreu, mas guerreira como é jamais desanimou nem desistiu de seu objetivo maior: livrar a sociedade do responsável por esse monstruoso crime. Em seu caminho encontrou mil obstáculos, mas conseguiu transpô-los. Com determinação e coragem cuidou da educação e do futuro das filhas, naquele momento, ainda tão pequenas.

Maria da Penha, excepcional caráter, não pensou somente nela. Escreveu um livro comovente sobre sua vida, alertando as mulheres. Sua sensibilidade levou-a a abraçar a causa das muitas sofredoras, buscando leis que amparassem essas criaturas frágeis, que antes dessa luta vitoriosa, viviam à mercê da própria sorte, abandonadas à sanha de companheiros covardes, animalescos, condutores de sinais evidentes de atavismo resistente, resquício dos senhores de engenho que escravizavam e humilhavam sem dó nem piedade suas mulheres, lhes confiscando a liberdade, aprisionando seus sentimentos, sonhos e desejos, deixando-lhes profundas cicatrizes na alma sofrida.

Maria da Penha tem na lei Nº. 11.340 o seu nome; a lei que protege, que coloca a mulher em lugar de igualdade, que lhe dá merecido valor. Um homem de verdade, o meu avô, dizia: "em mulher não se bate nem com uma flor". Há muitos homens que pensam e agem dessa forma. Mas a lei Maria da Penha existe para os que transgridem, para os desumanos, para os covardes. E é unanimidade nacional. Inspirou canção popular de sucesso e se expandiu. Depois dela a sociedade se movimentou, associações em defesa da mulher foram criadas. A instalação da Delegacia da Mulher e mais recentemente do Juizado da Violência Doméstica e Familiar inibe de certa forma os agressores, apesar do ainda expressivo número de queixas registradas.

Hoje, o chamado sexo frágil está forte, já se sente mais seguro, não precisa escutar palavras ofensivas e difamatórias, nem suportar maltrato. Adquiriu dignidade. Há um órgão que o apóia e defende. Maria da Penha tem recebido muitas homenagens, mas ainda é muito pouco em vista dos benefícios advindos de sua luta pela libertação da mulher brasileira, que agora não tolera mais a violência nem a opressão de seus companheiros. É cidadã e como tal tem seus direitos garantidos por Lei.

Uma estátua para Maria da Penha!


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