Flávia Marreiro
da Folhapress
03/07/2008 01:19
Ao libertar Ingrid Betancourt sem disparar um tiro, o presidente colombiano, Álvaro Uribe, triunfa em várias frentes. Impõe uma humilhante derrota militar e moral às Farc, livra-se da pressão de líderes da região e da Europa que preferiam uma saída negociada pela paz com a guerrilha e, não menos relevante, ofusca seus problemas políticos internos.
"Essa notícia valida a política de segurança democrática de Uribe. Manda a mensagem: as Farc estão derrotadas e não há nada que negociar. Mais que militar, foi uma vitória moral sobre a guerrilha", diz Ariel Ávila, coordenador do Observatório do Conflito Armado mantido pela colombiana Fundação Novo Arco Íris.
"Esse foi um xeque-mate nas Farc, é indiscutível", comemorou o comandante do Exército da Colômbia, Mario Montoya. O nome da operação foi Xeque. Depois de anos de apelos -de líderes mundiais a familiares dos reféns- para que Bogotá não tentasse resgatar os seqüestrados, Uribe, com ajuda direta americana, segundo o jornal The New York Times, exibiu o preparo de seus militares e a eficácia de sua política linha-dura, co-financiada pelos EUA.
"Até onde se sabe, parece uma operação brilhante", diz, desde Bogotá, Markus Schultze-Kraft, diretor para a América Latina do centro de estudos International Crisis Group. Schultze-Kraft lembra que não foi um resgate militar -opção que temiam pelo risco-, mas uma operação de inteligência. "Em 2003, eles tentaram um resgate e acabou com morte dos reféns. Essa operação foi diferente".
Também ressaltando o êxito dos militares colombianos, Ariel Ávila questiona a descrição da operação divulgada por Bogotá, segundo a qual os dirigentes guerrilheiros foram enganados. "Parece-me estranho que juntassem os reféns para levá-los ao novo chefe, Alfonso Cano, já que os próprios militares dizem que ele está em uma área de intenso combate". Continua: "Mais do que inteligência, parece fruto de uma negociação entre o guerrilheiro Cesar (o responsável pelos reféns) e os militares. De todo modo, é uma derrota moral. A Frente 1 era a mais importante das Farc", continua Ávila, cuja fundação acompanha o conflito armado desde 1994.
Sem os três americanos e sem Ingrid, as Farc ficam sem sua principal fonte de pressão para negociar com Bogotá, depois de já haver perdido três integrantes da sua cúpula -incluindo o líder máximo e fundador, Manuel Marulanda.
Leia mais sobre esse assunto