Padre Brendan Coleman Mc Donald
07/07/2007 14:49
O Jornal na edição de 11 de junho de 2007, publicou a matéria "Palavra Gay reúne 3,5 milhões em São Paulo". A 11ª Parada do Orgulho GLBT foi a maior parada de sua história. A edição de 25 de junho do mesmo jornal teve a segunte matéria: "A VIII Parada pela Diversidade Sexual no Ceará reuniu na noite de ontem, na Beira Mar, pelo menos 500 mil pessoas". Até tempos recentes o tema homossexualidade era habitualmente visto como algo que não deve ser discutido em público. Hoje, quando a homossexualidade é mais aberta como uma questão política-social, é tempo de abordá-la do ponto de vista pastoral.
Os homossexuais que são católicos têm as mesmas necessidades sacramentais e religiosas e os mesmos direitos que os demais membros da Igreja Católica. Parece seguro afirmar, embora esta porcentagem seja contestada, que é idêntica a proporção de homossexuais no Brasil e em muitos outros países, isto é, entre 5% a 10% da população total.
A Igreja Católica reconhece a dignidade de todas as pessoas, e não as define nem rotula segundo sua orientação sexual. A pessoa humana, "feita à imagem e semelhança de Deus", dificilmente pode ser descrita adequadamente através de uma referência redutiva à sua orientação sexual.
A Igreja Católica considera todas as pessoas (heterossexuais ou homossexuais) como criaturas de Deus e, por sua graça, seus filhos e filhas e herdeiros da vida eterna. Ao afirmar a dignidade de pessoas que são homossexuais, a Igreja Católica está sendo coerente com seus ensinamentos.
Em matéria do sexo, há dois princípios fundamentais que orientam o ensinamento da Igreja. O primeiro é que a Igreja "sempre ensinou que a expressão sexual (genital) do amor, conforme o plano criador de Deus, tem seu lugar exclusivamente dentro do casamento entre um homem e uma mulher". O segundo princípio é que "a expressão sexual (genital) do amor tem que ser aberta à possível transmissão de nova vida".
Por estas razões, a Igreja Católica não aprova atos genitais homossexuais. Quando a "Carta sobre o Acompanhamento Pastoral das Pessoas Homossexuais", da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, publicada em 1986, afirma que tais atos são "intrinsecamente desordenados", a Sagrada Congregação está simplesmente afirmando que estes atos ferem os dois princípios fundamentais acima mencionados.
A homossexualidade não é uma doença física e, desde o 15 de dezembro de 1973, a American Psychiatric Association eliminou a homossexualidade da lista das desordens mentais.
A Igreja Católica insiste na importância de distinguir entre a inclinação sexual e a prática sexual (genital), seja heterossexual ou homossexual.
A orientação ou inclinação em si, seja homossexual ou heterossexual, não leva inevitavelmente à prática de atividade sexual genital. É importante lembrar que a orientação sexual ou disposição específica da pessoa homossexual em si, não é eticamente boa ou má: são os atos genitais homossexuais que a Igreja católica não aprova.
A Igreja não considera a personalidade e o caráter do homossexual em si "desordenados" e insiste que a pessoa homossexual tem que ser aceita e respeitada pela sociedade, independentemente de suas tendências sexuais serem aprovadas ou condenadas. Aceitar não equivale a justificar ou incentivar. Um dever da religião em geral, e do catolicismo em particular, é estender a mão àqueles que se sentem marginalizados.
Espiritualmente, muitos homossexuais (católicos praticantes ou membros de igrejas evangélicas) ficam angustiados com a maneira em que certos textos bíblicos são usados para condenar a homossexualidade. A aplicação da Palavra de Deus é importante nas vidas dessas pessoas. O uso da Sagrada Escritura é notoriamente difícil na teologia moral e o caso particular da homossexualidade evidencia isso. Certas passagens da Escritura que usualmente foram empregados como comentários à homossexualidade são hoje tidas como relativas a outros assuntos.
Devemos ser cautelosos ao usar textos bíblicos na análise moral, porque uma deficiência de apreciação de todo o contexto nos deixaria dentro de um fundamentalismo ingênuo. Católicos devem aguardar nesta área a orientação do magistério da Igreja.
Espiritualmente falando, há inúmeros homossexuais, assim como heterossexuais, dando um belo exemplo de amizade e da arte de amar com castidade. Para a Igreja Católica, amor e amizade são dons de Deus. Uma forma de amar é algo absolutamente necessário para uma pessoa sadia. É importante não confundir ou deturpar o conceito de amizade com o pleno envolvimento sexual físico com outra pessoa. Uma amizade profunda e duradoura pode existir sem que as pessoas estejam genitalmente envolvidas.
Portanto, a resposta pastoral da Igreja a pessoas homossexuais sempre deve incluir uma atitude de grande respeito e compreensão da sua situação, além de um convite para participar na vida da Igreja, rezar, assistir a Santa Missa, receber os sacramentos, participar ativamente nas seguintes pastorais da Igreja: batismo, crisma, saúde, juventude, carcerária, comunicação, idosos, migrantes, liturgia, urbana, indígenas etc. Também há possibilidades de participar em atividades da Igreja como: recuperação de drogados, defesa da vida, Aids, ecumenismo, Justiça e Paz etc. Ainda pode ingressar num movimento carismático, comunidade eclesial, grupos de oração, grupos de música sacra etc. O importante é lembrar que o homossexual, assim como o heterossexual, é filho de Deus e, por sua graça herdeiro da vida eterna.
Finalmente, nunca devemos esquecer que o amor que Deus tem por cada pessoa, qualquer que seja sua orientação sexual, é maior do que qualquer amor que uma pessoa humana possa oferecer.
PADRE BRENDAN COLEMAN Mc DONALD é redentorista, doutor em Psicologia, Teologia e Educação e professor-titular na UFC.