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ARTIGO
Domingo na praça
Ângela Bessa
24 Mar 2007 - 15h48min
A tarde por trás da neblina ia a meio. Do doce tom de azul que se via ao longe, vinha uma luminosidade sutil que parecia pousar no ar. Descendo os olhos, se via crianças fazendo malabarismos de circo - artistas da fome, essa arte trôpega das esquinas, a sinalizar o ensino de Emmanuel, por Chico Xavier: "Antes que o olhar se nos fixe nos mundos brilhantes, que evoluem mais alto no campo da Universalidade Divina, lembra a Terra amorosa que te acolhe e bendiz. (...) Espinheiros e flores se misturam. Pedra e lama impedem a sementeira digna em vastas regiões que se fazem inóspitas. Vermes e plantas venenosas perturbam grandes linhas da paisagem. Esta é a casa de trabalho que Deus te confiou".
Era fim de semana e eu estava em uma praça da periferia, arrumando livros espíritas para expor sob uma lona, segura com treliças de madeira (no Domingo Espírita na Praça), quando uma moça aproximou-se e, entre algum alvoroço e queixumes que foram se amainando, como uma praia após torrentes de chuva e tormenta, contou:
"- O que é o amor? Eu me perguntava isso sempre: e buscava entre rostos diversos algum encanto que pausasse minha procura. Estava a ler uma trilogia de Ivonne Pereira, onde ela conta de suas existências, reencarnação a reencarnação - Ruth-Carolina, Berthe, Andréa - . Foi então que vi que eu, como também a médium que eu lia, trazíamos um coração extenuado de tantas procuras afetivas".
"Certamente os romances espíritas são como toda obra de arte: nelas, a gente viaja por nossos afetos, com os rostos alheios - dos personagens, quero dizer. Ainda, os livros espíritas trazem a visão do que se passa nos dois planos da vida; e com as explanações das leis espirituais que desvendam a relação entre nossos aprendizados, nas reencarnações sucessivas. Eu me espelhava no texto e o que eu via? Que me punha a estabelecer condições para amar a vida; trazia em mim uma espécie de revolta com as situações reencarnatórias que eu encontrava. Por que eu não me sentia sujeito (mas objeto) das situações de agora? Por que essa dificuldade imensa de assumir como escolhas minhas, as experiências do presente? Eu estou a aprender que nos contextos de vivências do presente, trago plantios feitos por mim, ao longo das reencarnações. Meu mesmo espírito, com corpos diversos e personas vividas nas situações históricas várias, viaja com seus dilemas, suas sombras, a aprender".
Eu refletia: a persona não é uma entidade separada que vive em nós, nem se reduz a ser o pólo negativo do ser - ela representa o estágio evolutivo primitivo, ela nos aponta onde estamos a nos apartar da realidade infinita de nosso ser destinado à perfeição. As máscaras sociais (as personas), mostram-nos não a necessidade de nos desvincularmos do mundo, mas a de transformando-nos, transformá-lo, na direção crística. (A moça, vendo que a chuva chegara mais forte, saiu rápida, dizendo: vou tomar um chocolate quente e volto.)
Nessa horas de chuvarada, eu procurava pianos na tarde. Sempre fora assim. As canções passeavam seus arabescos em mim, quando já a moça estava novamente defronte aos livros, folheando-os e "arrematando", como ela disse, a conversa.
"- Parece que os processos difíceis que a gente passa precisam se extremar, para que a gente os veja... Depois que minha mãe foi para o outro plano da vida, como digo agora, me senti uma princesa destronada. O seu olhar sempre terno, ensinante, eu gostava de dizer rindo, me constituía como... como vou dizer? Me constituía. Pronto. Eu não podia quebrar esse espelho mais. Podia... conversar com ele... a partir de vê-lo, a esse olhar, quero dizer. Foi então que quase tive câncer - e o médico me perguntou porque eu estava brigando com a vida desse jeito, por meio de meu corpo. Não era por causa de seus olhos, esse pranto - é que os olhos de minha mãe que se fora me dividiam em duas: e uma se punha de través estranhando aquela que eu fora até ali. (Olhei para a tarde de luz molhada, chuviscando vermelhos aqui e ali. No meio de uma página enxuta a moça lia por sobre lágrimas. Mas insistia. Amor é bicho instruído, disse uma vez Drummond; e era).
"- Abrace as situações reencarnatórias", ouvi dizer no centro espírita. "Você pode e deve transformar o que é preciso nelas, mas a partir de aceitá-las", eu ouvia. (Ela ouvia.) Ora, era isso mesmo que eu estava entendendo dos livros espíritas que eu lia: me senti confirmada nisso. Mas... minha sede é maior... Eu sempre quis muito, como diz a música do Caetano Veloso (e cantarolou um trecho). Queria encontrar um amor já feito - com sabor de fruta madura, cantarolou a moça de novo (agora era Djavan). Essa idéia de reconstruir coisas que trazemos, de construir o novo a partir das dificuldades no tempo de agora... é muito mais rica, agora eu vejo... Eu não sabia. Os desafios da nova reencarnação não vêm a nós por acaso: são exatas lições que precisamos aprender. Aprender transformando..."
A moça era sagaz. Era de catar a lua nas noites mais duras - pensei.
Nós sabemos que o Paradigma do Espírito, que se vai ficando mais perto de nós com a revolução conceitual que o espiritismo vai tecendo, aclara o cristianismo. Espinosa, como mostra Chauí, já dizia que o sobrenatural é o natural desconhecido, uma extensão da natureza que ainda não desvendamos. Só que Espinosa vê natureza com acento panteísta - coisa que Kardec propõe que se veja de outra forma: "Não é o sobrenatural que é necessário às religiões, mas sim o princípio espiritual, que erradamente confundem com o maravilhoso e sem o qual não há religião possível" (KARDEC; 1986:261).
"- Já não procuro rostos. Trabalho: minha mão voa pelo dia, curando aflições".
Assim é que o destino, para o espiritismo, perde sua feição de acontecimento determinista e irracional, alcançando o traço de caminho educativo do espírito. Cristo, esse grande pedagogo da humanidade, nos mostra o percurso dessa autoconstrução rumo à perfeição a que todos chegaremos, um dia. O transcorrer da história coletiva e da individual mostra-nos o desenvolvimento gradativo das potencialidades da alma. Dessa forma, crescemos em meio a limites, também, inibições reeducativas, que são dadas pelas leis espirituais que precisamos conhecer, pois orientam os plantios d´agora e, assim fazendo, definem colheitas. O desenvolvimento afetivo-moral (dentro dessa visão de liberdade e responsabilidade por escolhas, em nosso caminho de imortalidade) é fundamento da evolução do ser.
A moça pareceu pescar meus pensamentos, mas já sua fala largava-se para outras praias: - Assim como Paulo - o que era Saulo antes de encontrar o Cristo na Estrada de Damasco- representa a saída da religião exterior, farisaica, para uma religião que nos religa com o divino em nós e vive de atitudes, penso que minha dor representa a saída da materialidade para um amor mais cristianizado. E concluiu a moça:
- Talvez que, como Paulo, eu deva me perguntar: que queres, senhor, que eu faça?
Essa seria a pergunta só de Paulo?
ÂNGELA BESSA LINHARES, da Federação Espírita do Estado do Ceará, é professora da Faculdade de Educação da UFC
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