Mundo
ARTIGO
Cirandas e sonhos
Ângela Bessa Linhares
10 Fev 2007 - 15h07min
Como se fosse brincadeira de roda, fazia-se os livros circularem entre as crianças. Era uma ciranda de leituras; cada criança depois, trocava: lia os livros que o companheiro leu. Comumente se vivia essa experiência na educação de crianças que se fazia no centro espírita. Havia também algumas preciosas conversas, onde contávamos os "segredos" dos livros. Porque eram como cartas secretas - falavam ao nosso coração, conversavam conosco coisas de "vidinha de menino" ou "vidinha de menina", como se dizia. Então as crianças escolhiam uma canção da flauta que se parecesse com alguma coisa lida. Depois, escolhiam um objeto na caixa de brinquedos e contavam para ele, como se fosse a um amigo, algo que os encantara no que lera. "Era um homem esquisito, o meu personagem. Tão esquisito que ninguém sabia bem como ele era. Mas ele era um ator. Isso é que ele era e ninguém sabia". "Eu li sobre as sementes. Elas um dia crescem e... crescendo trazem a delícia das flores".
As palavras das crianças contando algo do que leram para um personagem imaginário pareciam soar como uma cantiga antiga; ou como uma concha que se põe ao ouvido para se escutar a imensidão do mar. Por aquela fresta do som da concha passaria algo da vastidão sonora do mar?
A chamada escola simbólica de Heyne, Creuzer, Gorres, segundo Marie-Louise Von Franz, discípula de Jung, sugeria que os contos encerravam a sabedoria dos antigos - em suas histórias e mitos, via-se o mel de pensamentos profundos. Ali na nossa ciranda, partindo do que contavam as histórias, fazíamos dialogar o que era ficção, imaginação dos contos, com nossas experiências. Trazendo-as à tona, é então que buscávamos as referências espíritas para iluminá-las, orientá-las, desvendando uma ética a ser partilhada desde a roda de leituras feita na evangelização espírita. Via-se ali, também, que a experiência estética com a literatura, uma forma de arte, pode desaguar também em uma particular experiência espiritual.
É que, se nas nossas reflexões cotidianas, nos debruçamos em livros e contos espíritas, em especial, estamos certamente a fertilizar nossa cultura espiritual de um modo específico. O diálogo que os contos e histórias espíritas podem desencadear com nossas experiências, resultam por ser, assim, uma conversa que alimenta nossa relação com Deus, o mundo e nós mesmos. A ciranda ia cheia dessas ternuras quando uma criança falou mais alto:
- Tia, eu queria morar no meu sonho.
Ah, os sonhos são de diversos tipos. Realmente uma experiência profunda pode se expressar nas simbolizações do sonhar. Jung esclarecia que os sonhos e os contos são modos de considerar a experiência mais primitiva do ser, que aflorava como imagens que vêm para nós parecendo um pensamento padrão, coletivo. Joanna de Ângelis nos aponta que as imagens do sonho podem simbolizar extratos diversos de experiências reencarnatórias da pessoa - por isso, representam a experiência emocional do ser como individualidade também.
Na realidade, há sonhos que são como que restos diurnos, ruminações de nossas preocupações e desejos - e que Freud tão bem estudou. Mas há sonhos em que nosso perispírito se desprende do corpo físico, que está no estado de sono, e, ligado pelo cordão fluídico (esse que liga o nosso corpo espiritual ao corpo material), vai viver situações em outra dimensão vibratória. Que situações? Ora, continuamos a pensar e a realizar coisas semelhantes ao que fazemos e pensamos quando acordados. Por isso, porque nos desprendemos e podemos ir a regiões dos mundos espirituais aprender mais, como podemos também desgovernar nossas emoções, diz-se que sonhar é como "morrer um pouquinho a cada dia" - pela experiência de libertação relativa que o perispírito (o corpo do espírito) passa a ter, indo aonde nossos pensamentos e sentimentos nos levam. Já dizia Jesus Cristo, referindo-se a estes mundos espirituais que existem: há várias moradas na casa de meu pai.
Ah, mas sempre houve também os "sonhos acordados" - que na história vão conferir vigor à esperança utópica. No mundo das crianças, a ciranda de livros mostrava esse sonhar: como ele ia formando uma identidade secreta entre nós. O sabor das histórias, com seu toque de íntimo e de partilha, maravilhoso e cotidiano, com seu jeito de saga do humano em seu percurso evolutivo, adquiria os contornos inusitados com a voz da infância:
- Respirei fundo e entrei, tia. No meu sonho acordado. Às vezes é bom e eu não quero voltar pra pensar besteira. Mas às vezes eu sonho de verdade. Tem vez na noite que eu acordo gritando. Tem uma coisa de monstro que faz medo e eu não vejo aonde ela dói em mim.
É dessa forma que os sonhos da infância também, embora na sua essência sejam como os do adulto, têm caráter particular, pois, mais freqüentemente, simbolizam os medos infantis e as vivências que a criança está a elaborar sobre seu mundo afetivo.
Sabe-se, pelo que nos ensina a doutrina dos espíritos, que o espírito que anima o corpo de uma criança pode ser tão ou mais desenvolvido moralmente que o de um adulto. A incompletude do desenvolvimento dos órgãos infantis, todavia, impede a manifestação da inteligência e da intuição, que seriam próprias de um adulto. Mesmo com o esquecimento do passado, com o apagamento provisório dos quadros de vivência de reencarnações anteriores vividas pelo espírito, "a perturbação que o ato da encarnação produz no espírito não cessa de súbito, por ocasião do nascimento. Só gradualmente se dissipa, com o desenvolvimento dos órgãos". Continuando com Kardec: "Encarnando, com o objetivo de se aperfeiçoar, o Espírito, durante esse período [da infância] é mais acessível às impressões que recebe, capazes de lhe auxiliarem o adiantamento, para o que deve contribuir os que têm a incumbência de educá-lo".
No convívio com crianças estamos, pois, diante de espíritos com experiências milenares, que se desvelam pouco a pouco, no suceder dos quadros de experiência que se vai desenrolando na encarnação nova. O condão do amor e do estímulo às potencialidades integrais das crianças deve ser tocado, então, de modo a acordar as potências múltiplas da alma e desenvolvê-las. Pensava e olhava as anotações da educadora, feitas ao modo de poesia:
"Devagarinho, o ar da manhã nos acorda: espuma sobre a onda que volta.
De que territórios vem essa voz que escuto?
Meu tempo vai me fisgando para o agora..
Onde foi que eu fui? Não importa.
Agora é o presente, abrindo-se ao dia desse jeito ensonhado.
São cirandas de sonhos? Chegam pela voz das crianças.
E contam histórias novas, que brincam de bila com as antigas.
Do que fui, trago o melhor: o permanente exercício de aprender a amar".
Era interessante a intuição de Von Franz: a discípula de Jung dizia que os contos parecem ser contados como se um ser humano comum tivesse sido possuído por uma experiência sobrenatural ou parapsicológica. Poderíamos dizer, como espíritas, que o sonho e os contos literários, as histórias repartidas ou lidas solitariamente, a busca de seus sentidos profundos para nossas vidas, podem fazer dialogar com o hoje esse veio profundo do inconsciente, em suas imagens - e isso é a própria experiência com o sobrenatural acontecendo. Como?
O que nomeamos sobrenatural é o que não sabemos do que acontece no chamado plano natural. A doutrina dos espíritos nos desvenda as bases do entendimento do complexo mundo da relação do visível com o invisível. O entrelaçamento dos planos vibratórios permanentemente presentes faz-nos saber que somos mesmo seres interexistentes: estamos em nossa dimensão vibratória e nos relacionamos de um certo modo com a outra, onde estão os espíritos que não possuem no momento o envoltório carnal, mas são do mesmo modo individualidades pensantes, que sobrevivem à morte do corpo físico. E podem estar ali a se afinizar conosco, caso estejamos na mesma sintonia de sentimentos e vibrações.
Assim é que o self, o si mesmo enquanto individualidade eterna, convive com os desaguadouros das experiências das personas que fomos, trazendo as energias profundas das imagens do vivido nas reencarnações pela pessoa; imagens que também são disponibilizadas para serem transmudadas em memória da espécie. Ah, quanto a fazer no agora, olha:
- Eu acho que vou tocar flauta com as minhas palavras, para ser ouvida na minha rua...
Dar significado ao que se vive é algo que se exercita desde a infância; escutar o que se sente, fazendo o exercício de dialogar com palavras, organizando a experiência concreta que, por sua vez, impulsiona novas direções no agir comunicativo, não ocorre por geração espontânea. Desde a infância é preciso viver o "trabalho de dar sentido ao que se vive" e que deve acontecer também como busca de um sentido espiritual para o que experienciamos.
Ora, na expressividade das linguagens e sonhos tem-se, como se disse, os fenômenos mediúnicos acontecendo em sua simplicidade cotidiana. Os sonhos trazem esse apelo de ser uma experiência mítica, memória das gentes; trazem também o mundo emocional e simbólico do ser individual e acontece comumente ser uma experiência espiritual, que também se vive quando nosso eu com seu corpo espiritual se desprende no momento do sono. E há os sonhos acordados, onde ousamos febrilmente transformarmo-nos e à vida comum que pode ser melhor para todos.
De tudo, fiquemos com a melhor parte: busquemos a sabedoria que pode nos ajudar a perceber o amor (que Cristo ensina), nas situações de vida que nos convidam a amar. Lembrando ainda uma vez Francisco de Assis: o que buscamos está a nos olhar.
ÂNGELA BESSA LINHARES, da Faculdade de Educação da UFC, é membro da Federação Espírita do Estado do Ceará
As palavras das crianças contando algo do que leram para um personagem imaginário pareciam soar como uma cantiga antiga; ou como uma concha que se põe ao ouvido para se escutar a imensidão do mar. Por aquela fresta do som da concha passaria algo da vastidão sonora do mar?
A chamada escola simbólica de Heyne, Creuzer, Gorres, segundo Marie-Louise Von Franz, discípula de Jung, sugeria que os contos encerravam a sabedoria dos antigos - em suas histórias e mitos, via-se o mel de pensamentos profundos. Ali na nossa ciranda, partindo do que contavam as histórias, fazíamos dialogar o que era ficção, imaginação dos contos, com nossas experiências. Trazendo-as à tona, é então que buscávamos as referências espíritas para iluminá-las, orientá-las, desvendando uma ética a ser partilhada desde a roda de leituras feita na evangelização espírita. Via-se ali, também, que a experiência estética com a literatura, uma forma de arte, pode desaguar também em uma particular experiência espiritual.
É que, se nas nossas reflexões cotidianas, nos debruçamos em livros e contos espíritas, em especial, estamos certamente a fertilizar nossa cultura espiritual de um modo específico. O diálogo que os contos e histórias espíritas podem desencadear com nossas experiências, resultam por ser, assim, uma conversa que alimenta nossa relação com Deus, o mundo e nós mesmos. A ciranda ia cheia dessas ternuras quando uma criança falou mais alto:
- Tia, eu queria morar no meu sonho.
Ah, os sonhos são de diversos tipos. Realmente uma experiência profunda pode se expressar nas simbolizações do sonhar. Jung esclarecia que os sonhos e os contos são modos de considerar a experiência mais primitiva do ser, que aflorava como imagens que vêm para nós parecendo um pensamento padrão, coletivo. Joanna de Ângelis nos aponta que as imagens do sonho podem simbolizar extratos diversos de experiências reencarnatórias da pessoa - por isso, representam a experiência emocional do ser como individualidade também.
Na realidade, há sonhos que são como que restos diurnos, ruminações de nossas preocupações e desejos - e que Freud tão bem estudou. Mas há sonhos em que nosso perispírito se desprende do corpo físico, que está no estado de sono, e, ligado pelo cordão fluídico (esse que liga o nosso corpo espiritual ao corpo material), vai viver situações em outra dimensão vibratória. Que situações? Ora, continuamos a pensar e a realizar coisas semelhantes ao que fazemos e pensamos quando acordados. Por isso, porque nos desprendemos e podemos ir a regiões dos mundos espirituais aprender mais, como podemos também desgovernar nossas emoções, diz-se que sonhar é como "morrer um pouquinho a cada dia" - pela experiência de libertação relativa que o perispírito (o corpo do espírito) passa a ter, indo aonde nossos pensamentos e sentimentos nos levam. Já dizia Jesus Cristo, referindo-se a estes mundos espirituais que existem: há várias moradas na casa de meu pai.
Ah, mas sempre houve também os "sonhos acordados" - que na história vão conferir vigor à esperança utópica. No mundo das crianças, a ciranda de livros mostrava esse sonhar: como ele ia formando uma identidade secreta entre nós. O sabor das histórias, com seu toque de íntimo e de partilha, maravilhoso e cotidiano, com seu jeito de saga do humano em seu percurso evolutivo, adquiria os contornos inusitados com a voz da infância:
- Respirei fundo e entrei, tia. No meu sonho acordado. Às vezes é bom e eu não quero voltar pra pensar besteira. Mas às vezes eu sonho de verdade. Tem vez na noite que eu acordo gritando. Tem uma coisa de monstro que faz medo e eu não vejo aonde ela dói em mim.
É dessa forma que os sonhos da infância também, embora na sua essência sejam como os do adulto, têm caráter particular, pois, mais freqüentemente, simbolizam os medos infantis e as vivências que a criança está a elaborar sobre seu mundo afetivo.
Sabe-se, pelo que nos ensina a doutrina dos espíritos, que o espírito que anima o corpo de uma criança pode ser tão ou mais desenvolvido moralmente que o de um adulto. A incompletude do desenvolvimento dos órgãos infantis, todavia, impede a manifestação da inteligência e da intuição, que seriam próprias de um adulto. Mesmo com o esquecimento do passado, com o apagamento provisório dos quadros de vivência de reencarnações anteriores vividas pelo espírito, "a perturbação que o ato da encarnação produz no espírito não cessa de súbito, por ocasião do nascimento. Só gradualmente se dissipa, com o desenvolvimento dos órgãos". Continuando com Kardec: "Encarnando, com o objetivo de se aperfeiçoar, o Espírito, durante esse período [da infância] é mais acessível às impressões que recebe, capazes de lhe auxiliarem o adiantamento, para o que deve contribuir os que têm a incumbência de educá-lo".
No convívio com crianças estamos, pois, diante de espíritos com experiências milenares, que se desvelam pouco a pouco, no suceder dos quadros de experiência que se vai desenrolando na encarnação nova. O condão do amor e do estímulo às potencialidades integrais das crianças deve ser tocado, então, de modo a acordar as potências múltiplas da alma e desenvolvê-las. Pensava e olhava as anotações da educadora, feitas ao modo de poesia:
"Devagarinho, o ar da manhã nos acorda: espuma sobre a onda que volta.
De que territórios vem essa voz que escuto?
Meu tempo vai me fisgando para o agora..
Onde foi que eu fui? Não importa.
Agora é o presente, abrindo-se ao dia desse jeito ensonhado.
São cirandas de sonhos? Chegam pela voz das crianças.
E contam histórias novas, que brincam de bila com as antigas.
Do que fui, trago o melhor: o permanente exercício de aprender a amar".
Era interessante a intuição de Von Franz: a discípula de Jung dizia que os contos parecem ser contados como se um ser humano comum tivesse sido possuído por uma experiência sobrenatural ou parapsicológica. Poderíamos dizer, como espíritas, que o sonho e os contos literários, as histórias repartidas ou lidas solitariamente, a busca de seus sentidos profundos para nossas vidas, podem fazer dialogar com o hoje esse veio profundo do inconsciente, em suas imagens - e isso é a própria experiência com o sobrenatural acontecendo. Como?
O que nomeamos sobrenatural é o que não sabemos do que acontece no chamado plano natural. A doutrina dos espíritos nos desvenda as bases do entendimento do complexo mundo da relação do visível com o invisível. O entrelaçamento dos planos vibratórios permanentemente presentes faz-nos saber que somos mesmo seres interexistentes: estamos em nossa dimensão vibratória e nos relacionamos de um certo modo com a outra, onde estão os espíritos que não possuem no momento o envoltório carnal, mas são do mesmo modo individualidades pensantes, que sobrevivem à morte do corpo físico. E podem estar ali a se afinizar conosco, caso estejamos na mesma sintonia de sentimentos e vibrações.
Assim é que o self, o si mesmo enquanto individualidade eterna, convive com os desaguadouros das experiências das personas que fomos, trazendo as energias profundas das imagens do vivido nas reencarnações pela pessoa; imagens que também são disponibilizadas para serem transmudadas em memória da espécie. Ah, quanto a fazer no agora, olha:
- Eu acho que vou tocar flauta com as minhas palavras, para ser ouvida na minha rua...
Dar significado ao que se vive é algo que se exercita desde a infância; escutar o que se sente, fazendo o exercício de dialogar com palavras, organizando a experiência concreta que, por sua vez, impulsiona novas direções no agir comunicativo, não ocorre por geração espontânea. Desde a infância é preciso viver o "trabalho de dar sentido ao que se vive" e que deve acontecer também como busca de um sentido espiritual para o que experienciamos.
Ora, na expressividade das linguagens e sonhos tem-se, como se disse, os fenômenos mediúnicos acontecendo em sua simplicidade cotidiana. Os sonhos trazem esse apelo de ser uma experiência mítica, memória das gentes; trazem também o mundo emocional e simbólico do ser individual e acontece comumente ser uma experiência espiritual, que também se vive quando nosso eu com seu corpo espiritual se desprende no momento do sono. E há os sonhos acordados, onde ousamos febrilmente transformarmo-nos e à vida comum que pode ser melhor para todos.
De tudo, fiquemos com a melhor parte: busquemos a sabedoria que pode nos ajudar a perceber o amor (que Cristo ensina), nas situações de vida que nos convidam a amar. Lembrando ainda uma vez Francisco de Assis: o que buscamos está a nos olhar.
ÂNGELA BESSA LINHARES, da Faculdade de Educação da UFC, é membro da Federação Espírita do Estado do Ceará
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