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A imposição da democracia no mundo

Manuel Cambeses Júnior


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23/12/2006 14:38

A promoção da democracia no mundo, pedra angular da atual doutrina neoconservadora estadunidense, transformou-se em prioridade absoluta para a política externa do presidente George W. Bush. As bases conceituaisdesta política estariam calcadas nas idéias esposadas por Woodrow Wilson e Leo Strauss.

O presidente Wilson, que governou os Estados Unidos durante a Primeira Guerra Mundial, e que tentou desenhar uma nova ordem mundial que pudesse ser posta em prática após o grande conflito, acreditava piamente na missão de difundir pelo mundo os valores democráticos e que tornavam os Estados Unidos uma nação de características excepcionais. Strauss, um imigrante da Alemanha nazista transformado em professor de política na Universidade de Chicago,
depreciava a neutralidade e o relativismo na política e insistia na necessidade de assumir posições mais radicais a serviço dos valores democráticos. Isto incluía a noção de "mudança de regime" como modo de livrar-se de governos de distinta natureza. Para ambos, entretanto, os Estados Unidos estavam destinados a jogar um papel determinante na difusão da democracia em nível mundial.

George W. Bush, totalmente convencido do papel que a providência divina lhe outorgou, acolheu a filosofia política neoconservadora na missão sagrada de projetar os valores da "Nova Jerusalém" sobre os quatro pontos cardeais.
Entretanto, mais além dos mitos, o realismo político exige respostas a muitos questionamentos. O que fazer com aquelas culturas islâmicas ou confucianas que enfatizam a solidariedade e a coesão grupal acima da liberdade individual? Culturas milenares, que visualizam as idéias liberais ocidentais como tremendamente estranhas, perigosas e agressivas, em que o princípio da autoridade muitas vezes se identifica com a figura do "pater famílias" e onde a obediência social se assenta basicamente na tradição.

O que fazer para evitar que no caminho que conduz aos anjos não se resvale para o terreno destinado aos diabos? O Iraque é um bom exemplo de como na busca da democracia se pode cair na violência, no caos social e no risco do desmembramento estatal. O país mesopotâmico é também um bom exemplo do que poderia chegar a ocorrer em grande escala em uma região dominada por fronteiras artificiais, controvérsias territoriais, populações e etnias
irredutíveis e arraigadas em suas crenças, além da presença de um Islã radical, fervorosamente militante e enfaticamente ideologizado.

Como garantir que a democracia traga consigo regimes que estejam de acordo com os desejos dos norte-americanos? Da mesma maneira em que Slobodan Milosevic assentou seu poder nos votos do ultranacionalismo sérvio, e os fundamentalistas estiveram a ponto de chegar ao poder na Argélia, pela via eleitoral, é impossível predizer para onde conduzirá esse tortuoso caminho.

Somente é possível supor que o antiamericanismo prevalecente no mundo muçulmano certamente não augura nada de bom aos interesses de Washington.
Sobre que bases julgar o tipo de democracia desejável para o mosaico de crenças de cada país? É aquela que respeita as formas a expensas de um maior grau de anarquia ou é aquela para a qual o resgate do princípio da autoridade pode impor limitações nas formas? O presidente da Rússia, Vladimir Putin, tem sido criticado freqüentemente pelos Estados Unidos por suas tendências autoritárias; entretanto, isto parece satisfazer as exigências dos cidadãos russos na busca de um grau maior de ordem em seu país.

Woodrow Wilson invocava a democracia como a melhor forma de livrar-se dos impérios. O atual Governo estadunidense, entretanto, busca propagar a democracia pelo mundo a partir da capacidade coercitiva que deriva de seu poder imperial. Não é à toa que os neoconservadores se autodenominam de imperialistas democráticos.

Estranha maneira essa de conceber a democracia.

MANUEL CAMBESES JÚNIOR é coronel-aviador; membro-correspondente do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra e membro-titular do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil

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