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Adelita Carleial


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16/12/2006 16:28

A crise política, recente na Bolívia, com os movimentos indígenas nas ruas,
greve de fome dos opositores e grande repercussão na mídia internacional,
gira, aparentemente, em torno da exigência de maioria simples para decisão
parlamentar, defendida pelo governo federal, e maioria absoluta (2/3 dos
votos) reivindicada pela oposição. Isso é o que aparece para nós, mas essa
polêmica envolve, também, uma luta social e contradições de classes,
históricas naquele vizinho país.

O Governo Evo Morales detém a maioria simples da Assembléia Constituinte e
pretende implementar suas reformas sociais, modificando a Carta Maior até
agosto de 2007, contrariando interesses dos empresários latifundiários e
setores conservadores da sociedade boliviana.

Um dos avanços governamentais foi a elaboração da Lei sobre Recondução
Comunitária da Reforma Agrária, conquistada pela força de longa marcha de
milhares de indígenas, em outubro de 2006, vinda do interior à capital do
país, tomando as praças e o Senado, reduto dos latifundiários, pressionando
pela sua aprovação.

Explicam a postura presidencial sua origem aimará e sua base popular com
vinculação orgânica ao Movimento ao Socialismo (MAS) e o posicionam no campo
contrário aos interesses de seus opositores, considerados elites ricas de
estados como Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija, respaldadas por partidos como
União Nacional (UM) e Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR).

O confronto entre governo popular e elites latifundiárias e oligárquicas,
tomou dimensões nacionais envolvendo prefeitos, políticos, partidos
políticos, movimentos indígenas e sindicais. Suas divergências são
antagônicas. De um lado a proposta de autonomia estadual beirando o
separatismo assumido pela oposição a Evo Morales e, do outro, a continuidade
das reformas sociais pela socialização da terra, política de proteção aos
recursos naturais, culminando com a reformulação do Estado boliviano. A
gravidade da situação coloca em cheque a institucionalidade política daquele
país.

O movimento opositor pela autonomia estadual tenta evitar a continuidade das
políticas implementadas e impedir novas investidas contra a propriedade
privada. O novo nesse conflito é a utilização, pelos empresários
latifundiários, de métodos convencionais aos movimentos de esquerda, como a
mobilização de massa nas ruas e um discurso ideológico atrativo de maior
independência político-administrativa. O velho, nessa luta política, é a
dissonância entre o discurso e a prática, a contradição entre as promessas
políticas e a persistência das desigualdades sociais, onde, na Bolívia, 64%
da população está abaixo da linha de pobreza.

Promover a reforma agrária ampla e enfatizar a nacionalização dos recursos
naturais, como os hidrocarbonetos, dentre outras ações do governo Evo
Morales, indicam uma racionalidade econômica de sustentabilidade local que
promove o desenvolvimento social e modifica as precárias condições de vida e
de trabalho de mineiros, cocaleiros e demais trabalhadores urbanos,
modificando a posição da Bolívia como um dos países mais pobres da América
Latina.


Adelita Carleial é socióloga, professora da Universidade Estadual do Ceará e membro da Rede Universitária de Pesquisadores sobre a América Latina (RUPAL).

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