Ubiracy de Souza Braga
04/11/2006 16:27
"Não é apenas o controle do Congresso que estará em jogo nas eleições americanas em 7 de novembro [de 2006]. Mais de 6.000 vagas nas Câmara dos Representantes (deputados) e Senado de 46 Estados".
Felip Bachtold
"Sem estudos, jovens americanos irão acabar no Iraque".
John Kerry, ex-candidato às eleições presidenciais nos EUA.
Apesar de ser um truísmo, é preciso ressaltar que todos e quaisquer processos sociais de comunicação que envolvem eleições presidenciais, ao menos no hemisfério ocidental, passam necessariamente por um vínculo político-afetivo através dos chamados meios de comunicação massiva. E no caso americano, se comparado ao europeu (do ângulo da noção sociológica de "mercado" na acepção de Pierre Bourdieu), diz respeito a um tipo de jornalismo singular porque ao menos em tese propugna no âmbito do processo de produção, para os donos dos meios de comunicação, editores, repórteres, redatores, fontes de informação, estudiosos da comunicação e leitores em geral, um aceitamento, em maior ou menor medida, da idéia de que uma das funções primordiais da imprensa é "exercer vigilância sobre a ação do Estado".
Este conceito, como já observou o jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, é originalmente americano: o watchdog role ("papel de cão de guarda"). Aliás o que se entendia por liberdade de imprensa quando a primeira emenda à Constituição americana foi adotada, há pouco mais de 200 anos, e se é verdade que não é a mesma nos dias de hoje, nem por isso o conceito deixou de ser hegemônico naquela sociedade. Vejamos dois exemplos do dia-a-dia, mas em oposição assimétrica. O primeiro, quando a "decisão de Estado" que levou preso o negro Stanley Tookie Williams, um outsider norte-americano à morte em 12 de dezembro de 2005, só aparentemente colocou em xeque o discurso liberal radical dos EUA, ou ao menos nos fez lembrar de algumas teses já situadas por John Dewey em seu livro O Público e seus Problemas (1927), onde reflete sobre as conseqüências da ação coletiva demonstrando o papel relevante na formação da opinião pública numa democracia estável.
No segundo caso, onde o famoso erro da Corte americana, levou dois imigrantes italianos no período de formação dos sindicatos anarquistas, Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, acusados de assassinato em 1921 a condenação da pena de morte, em 1927. O filme Sacco e Vanzetti retrata com fidelidade tanto o julgamento (o uso da lei) quanto as manifestações públicas defronte ao tribunal. Sigmund Freud que era um apaixonado por literatura, jamais deixou de se socorrer das grandes obras do romance e do teatro para embasar e, algumas vezes, tornar mais claras algumas de suas profundas descobertas em Psicologia.
O seu famoso complexo de Édipo, como é sabido, se explicitou com o auxílio do Édipo Rei, peça escrita por Sófocles, onde uma narrativa mítica ganha expressão teatral, dando lugar a que ali se desdobre uma das tragédias centrais da existência humana. E se é verdade que o cinema (ou a 7a Arte) é hoje um comunicador de mitos, de acordo com o psicanalista Waldemar Zusman, no livro Os filmes que vi com Freud (1994) que tem uma linguagem mais próxima das representações pictóricas da vida mental, tanto no plano da vigília como no da vida onírica, a imagem ganha objetivação e em um certo sentido de realidade. Dificilmente um filme não veicula mitos, sejam coletivos ou individuais. Da mesma forma, uma observação atenta permitirá também estabelecer certas conexões entre os mitos que instrumentalizam a cultura de uma época e o êxito de certas películas, nas quais algumas tragédias modernas ganham maior transparência.
No primeiro caso, Stanley T. Williams esteve no "corredor da morte" durante 24 anos. Foi acusado pelo assassinato de quatro indivíduos em 1979, quando fazia parte da gang de rua "Crips" na California, um condado racista par excellence. Desde que saiu da solitária, cela com espaço restrito a uma pessoa etc., escreveu livros para crianças e adolescentes, demonstrando os perigos da vida em gangs, tornando-se assim "um símbolo de esperança para a juventude marginalizada". Houve manifestação da opinião pública dentro e fora dos Estados Unidos, enaltecendo o trabalho de Stanley em prol da "cultura da paz", - tal como o faz o "Viva Rio", na cidade que deu nome a essa ONG (Organização Não-Governamental), e do absurdo da violência perpetrada por gangs. Não adiantaram os apelos públicos da Human Rights Watch contra a execução da pena de morte.
A reflexão que fazemos sobre a aplicabilidade da pena de morte nos EUA é, sem dúvida, que Arnold Schwarzenegger é um elitista, mas vencedor, pois ilude numa análise capitalista de marketing: conquistou seu 1° título de Mr. Universo em 1968, casou-se com Maria Shriver F. Kennedy; fez pouco mais de 16 filmes, sendo considerado celebridade em Hollywood; entrou para o Guinness como "o homem perfeitamente desenvolvido" (sic). É governador do condado racista da Califórnia.
Pesquisas comprovam que 80% dos condenados à morte nos EUA são negros e pobres e que o uso da pena capital não diminui as taxas de criminalidade, seja ela letal ou socialmente condicionada, para lembrarmos da idéia de "motivação" weberiana, nesta jovem nação que, desde 1976, executou aproximadamente mil condenados. Contudo, para sermos precisos, admitimos um duplo sentido diante da morte: a) a idéia de um "paradoxo de conseqüências não-intencionais" diante do debate "lei & ordem" na vida social remete a uma das frases prediletas de Schwarzenegger: "Asta la vista, baby!" e, b) a superioridade racista da lei que absolve ou condena.
Antes de mais nada, não queremos perder de vista que a "máquina mundial de informação" atua simultaneamente com a emoção e a objetividade - talvez sem pôr em risco o "primado da verdade". Além disso, que a partir da Guerra do Golfo Pérsico (1991), como já nos referimos noutro lugar a respeito, passou-se a manipular as imagens com a revelação do poder bélico das chamadas "armas inteligentes" e o ocultamento das vítimas, dos seus corpos e do derramamento de sangue. E como é sabido, da guerra do Vietnã à invasão do Iraque tem havido tortura, estupro etc., como crime de desobediência às leis internacionais que legislam sobre a guerra por parte dos EUA, inclusive com o reconhecimento do Tribunal Penal Internacional o que dispensa-nos comentários.
Também foi possível operar, de outra parte, sobretudo ao nível ideológico, um "realinhamento de significação", o que é confirmado com o ato terrorista de 11 de setembro de 2001, transformado em filme dirigido por Oliver Stone (Word Trade Center, EUA, 2006), mas de acordo com o "individualismo fóbico" americano, visto a partir da história verídica do resgate e da heróica luta pela sobrevivência de dois policiais (não poderia ser algum cidadão comum fora do Aparelho Repressivo de Estado?) presos aos destroços das torres porque impôs uma dinâmica entre o "bem" e o "mal", com o qual as imagens mundialmente tiveram de se confinar.
Assim, parece que, se tomarmos a idéia do filósofo Ernst Jünger, que definiu a guerra "como um estado de mobilização total" que aciona as massas, mas também cada existência individual, não estamos longe de admitir que os Estados Unidos encontram-se nesse "estado", onde todas as imagens são imagens de conflito. E ipso facto a imagem americana no Brasil permanece basicamente positiva nos segmentos sociais mais influentes e conservadores na formação do que se convencionou chamar de "opinião pública". As eleições presidenciais nos EUA apontam nesta direção como indicaremos pistas a esse respeito. E a atenção especial dada por algumas emissoras a este evento, mais do que outros em termos competitivos de audiência confirmam nossa suposição de análise. Conquanto seja fácil admitir a guerra das imagens propiciadas pelo "american way of life", como acabamos de assistir inclusive na trilha de uma novela homônima que teve grande audiência entre nós, seja pela qualidade de interpretação da escritora brasileira como dos atores femininos e masculinos.
Ao contrário do que ocorria nas décadas de 1960, os Estados Unidos através da CIA - Central de Inteligência Americana e órgãos complementares com os sucessivos apoios aos golpes político-militares na América Latina, como foi o caso do Brasil (general Castelo Branco,1964) e ad infinitum por Costa e Silva (1967-1969), depois pelo Médici (1969-1974), pelo Geisel (1974-1979), pelo Figueiredo (1979-1984) sob a idéia da "doutrina de segurança nacional" estudada pelo padre Joseph Comblin, como a Ideologia de Segurança Nacional - O poder militar na América Latina, e posteriormente por René Dreifuss. 1964. Um golpe de classe, principalmente, no Chile e no Uruguai (1973), no Peru general Juan Velasco Alvarado, 1968, (sendo substituído em 1975 pelo general Morales Bermudes), no Panamá, em 1968 pelo general Omar Torrijos, no Equador, em 1972, pelo general Guillermo Rodriguez Lara, etc. Independente da memória existente a respeito e se há proximidade e distância, o fato é que o intercâmbio acadêmico e mesmo profissional entre os dois países aumentou, talvez pela semelhança nos segmentos sociais na formação das classes médias, na falta de melhor expressão, dos principais centros urbanos, por exemplo São Paulo e Minas Gerais em particular, estão entre esses setores de "classe" mais interessados nos EUA.
A vida econômica do país dependia em grande parte - de forma direta ou indireta - do capital americano investido no Brasil ou associado ao capital brasileiro ou da evolução da própria economia americana. Os meios de comunicação continuam veiculando um grande número de mensagens produzidas originalmente nos EUA: filmes (sessão da tarde e horário nobre), programas de TV desde humorísticos, nesse caso pelo Sistema Brasileiro de Televisão - SBT, rede Globo de televisão e outros, vídeos, CD's etc. e o estilo de se fazer cultura de massa se aproxima cada vez mais do americano.
Mas nada acontece por acaso. Quando a candidatura à reeleição para presidente da República do Brasil deu vitória com ampla margem de votos ao ex-operário Luiz Inácio Lula da Silva, do PT - Partido dos Trabalhadores, que obteve 58 milhões, contra 37 milhões do outro candidato, por estes dias, o presidente norte-americano George W. Bush e o primeiro-ministro britânico Tony Blair cumprimentaram por telefone pela reeleição obtida, no segundo turno: "Você teve uma vitória espetacular. Tem que me dar um pouquinho do seu know-how, porque vou precisar para ganhar agora", disse Bush a Lula, como informou o chanceler brasileiro Celso Amorim. Afirmando ainda que Bush convidou Lula para uma nova visita aos Estados Unidos. Quanto a Tony Blair, Lula convidou-o para vir ao Brasil ainda na condição de primeiro-ministro britânico, posto que ele deve deixar no ano que vem. E não poderia ser muito diferente em função do assassinato de um brasileiro suspeito no metrô de Londres, por engano, numa perspectiva talvez racista ou coisa que o valha pela polícia de elite londrina.
Outro aspecto que diz respeito à coincidência das eleições legislativas norte-americanas é que os hispânicos, expressão genérica de mexicanos, porto-riquenhos, brasileiros e outros que vivem nos EUA, baterão seu recorde de participação nas urnas na próxima terça-feira nas eleições legislativas americanas, com 5,6 milhões de eleitores e poderão decidir se os republicanos conservam ou não sua maioria no Congresso. "Nestas eleições, os latinos vão representar um impacto como candidatos e como eleitores", assegurou Arturo Vargas, presidente da Associação de Funcionários Latinos Eleitos e Designados (Naleo), ao apresentar um informe sobre o voto latino nas eleições. Embora os latinos tenham apenas 4% de representação do voto nacional, Vargas assegurou que sua repartição pelo território americano é desigual, já que alcançarão 7% dos eleitores em Nova Jersey (leste), 13% no Arizona (sudoeste) e 17% na Califórnia (oeste).
UBIRACY DE SOUZA BRAGA é sociólogo, cientista político e professor da coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (Uece)