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CINEMA

Pra escutar a voz

Natália Paiva
da Redação

Mais Estranho que a Ficção não é uma comédia. Nem um drama. O novo filme de Will Ferrel vagueia na metalinguagem e desafia a conformação em gênero. Mas, se propõe uma discussão formal interessante, é reticente o bastante para, no meio da história, entregar os pontos e optar pelo óbvio


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09/03/2007 04:59

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Mais Estranho que a Ficção não é uma comédia. Nem um drama. O novo filme de Will Ferrel vagueia na metalinguagem e desafia a conformação em gênero. Mas, se propõe uma discussão formal interessante, é reticente o bastante para, no meio da história, entregar os pontos e optar pelo óbvio. O filme gira ao redor de Harold Crick (Ferrell), um auditor da Receita Federal que, um belo dia, passa a ouvir uma voz que descreve suas ações, sensações e pensamentos. Das duas, uma: ou Harold Crick teve um surto esquizofrênico ou é o personagem central de uma narrativa. Claro que a segunda opção lhe parece mais 'sensata' - e, no fim das contas, é a 'real'. Seu conflito se agrava quando a tal voz anuncia sua morte iminente. Levando uma vida medíocre, Harold busca a ajuda de um professor de teoria da literatura. Afinal, por mais entediante que fosse sua existência - resumida a contar escovadas e passos, almoçar sozinho e ser controlado pelo tique do relógio -, Harold se apega desesperadamente a ela.

O bacana de Mais Estranho que a Ficção é que, ali, é construída uma lógica própria, onde o absurdo soa verossímil, e não patético. Também, a narração em off, recurso utilizado como 'muleta' em tantas produções cinematográficas, é ali trabalhada com propósito. Afinal, o que está posto em quadro já diz muito por si, seja na 'racionalização numérica' dos espaços de Harold, seja no ambiente frio da casa da escritora. Mas a discussão formal - a construção de uma narrativa literária, análoga à contação da história em quadro - se revela pretensiosa demais, para os claros limites impostos pela produção. Aí, no clímax, a escritora opta pelo desfecho medíocre - e o mesmo ocorre com o roteirista de Mais Estranho que a Ficção. Somente cria-se a ilusão de um "elogio à vida", com um breakdown forçado (daí para frente, a vida de Harold seria diferente...). Simplesmente frustrante.


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